Geograficamente a mais ocidental sede da Copa, Kaliningrado é um paradoxo único na Rússia.

É um dos territórios mais militarizados da Europa e palco certo das primeiras batalhas se a Terceira Guerra Mundial estourasse hoje.

Mas suas ruas não transparecem tensão alguma. Posto avançado de uma Rússia cada vez mais hostil ao Ocidente, a região se espelha na Europa e valoriza cada vez mais sua origem alemã.

Separada fisicamente de seu país após o fim da União Soviética, quando a maré comunista refluiu e fez emergir vizinhos independentes, Kaliningrado é mais perto de Varsóvia (280 km), na Polônia, do que de Moscou (1.090 km).

A posição é estratégica. Na Guerra Fria, chegou a ter mais de 100 mil soldados estacionados, além de sediar a Frota Báltica da Marinha soviética -que segue lá em sua encarnação russa.

A partir da reforma das Forças Armadas da Rússia, ocorrida em 2009 e 2010, o cenário mudou radicalmente. Há talvez 15 mil militares no território agora.

“Kaliningrado foi desmilitarizada. O número de tanques caiu de 810 para 40, e os grupos de aviação são dos mais obsoletos do país”, afirmou o analista militar Mikhail Barabanov, do Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias, de Moscou.

Nos últimos anos, contudo, o Kremlin de Vladimir Putin mudou a natureza da operação no território, que virou uma espécie de bateria antiaérea destinada a “fechar o espaço” no Báltico e norte europeu. Para isso, contou com o envio dos melhores sistemas antiaéreos, os S-300 e S-400, além da instalação da unidade de defesa costeira Bastion.

Em janeiro deste ano, foi ativado um grupamento com mísseis balísticos Iskander-M, que podem atingir até Berlim. E eles são capazes de carregar ogivas nucleares. Na semana passada, a Federação dos Cientistas Americanos revelou que os russos finalizaram o reforço de um bunker para estocar armas atômicas na região.

“Não sabemos o motivo, mas qualquer melhoria mostra que os russos têm uma missão nuclear ativa em Kaliningrado”, disse o autor do estudo, Hans Kristensen.

Alarmados, os membros da Otan (aliança militar do Ocidente) na região pediram o reforço de tropas, o que vem ocorrendo. “A remilitarização é um mito criado para esse exato fim”, avalia Barabanov.

Na observação do cotidiano, o analista parece ter razão. A cidade de Kaliningrado é um oásis de parques e avenidas arborizadas, com cafés, bares e restaurantes sempre cheios.

“Estamos cansados de ler que aqui é uma base militar”, resume a radialista e artista multimídia Elena Romantsova, 29. “Essa tensão toda que relatam só chegou à gente na questão do visto”, conta.

Ela se refere à queda do acordo que havia com a Polônia, permitindo que moradores do vizinho e de Kaliningrado se visitassem sem precisar de visto.

A anexação da Crimeia da Ucrânia por Putin, em 2014, derrubou o arranjo. Agora, agências de viagem ofertam pacotes para agilizar a aquisição de vistos europeus -usualmente poloneses mesmo- com destaque.

A condição de janela para a Europa se confunde com a história local. Kaliningrado era Königsberg, capital da Prússia Oriental, território histórico alemão até 1945.

Com a derrota na Segunda Guerra Mundial, os alemães perderam a região para os soviéticos, que rebatizaram a capital com o nome de um de seus antigos líderes, Mikhail Kalinin, em 1946.

A destruição maciça no conflito levou a uma reconstrução típica soviética: blocos horríveis e uniformes. Apagar a herança alemã era a regra.

Hoje, as antigas casas alemãs sobreviventes são disputadas pelos mais ricos. Que, quando não as têm, fazem cópias que saem pelo equivalente a até R$ 4 milhões.

No comércio, a tendência é a mesma: há poucas semanas foi inaugurado um novo complexo de restaurantes chamado Residência, que imita uma mansão germânica.

Ali, Elena fez um show de dança numa festa de graduação de segundo grau na terça (26). “Não nos interessa o que Putin acha, nós somos europeus”, diz Alexei, garoto de 16 anos que quer estudar arquitetura. Se for bem-sucedido, trabalho não faltará.

Uma outra prova dessa inserção europeia está num passeio pela avenida Lênin.

O visitante desavisado achará que está em uma via com os típicos exemplos de fachadas de tijolo gótico empregada pelos alemães que dominavam os principais portos do Báltico. Olhando de perto, a realidade: são antigos “krhushchovka”, blocos soviéticos erguidos em um programa de habitação de massa nos anos 1960 pelo líder Nikita Khrushchov.

Na última década, empresas se especializaram em reformar os prédios por fora e adicionar fachadas “alemãs antigas”, como são chamadas. É uma versão peculiar do “retrofit” paulistano.

O processo foi acelerado depois que Kaliningrado foi selecionada para receber quatro jogos da Copa, e as pinturas parecem frescas, apesar do aspecto geral de pastiche.

Já um dos centros turísticos do “bunker de Putin”, como os tabloides britânicos chamam Kaliningrado, é um conjunto de prédios alemães restaurados à beira de um canal chamado Vila dos Pescadores.

Ao lado, está o ponto focal da cidade: a antiga catedral, bastante danificada na guerra, mas que acabou reformada e abriga o túmulo do filósofo Immanuel Kant, filho ilustre da terra.

De bélico, só os monumentos navais da capital e as placas de “proibido passar” em estradas secundárias no interior. A integração não é só simbólica. Em janeiro, Kaliningrado voltou a ser uma Zona Econômica Especial, experiência de isenção fiscal que durou dez anos até 2016 e cujo fim levou a um princípio de recessão.

A ideia é aumentar em até 50% a renda média da região, que hoje tem um PIB per capita de R$ 27 mil. Turismo numa área única de praias na Rússia e processamento de âmbar, produto do qual Kaliningrado tem 90% das reservas mundiais, são prioritários.

O aeroporto da região foi modernizado com fundos da União Europeia em 2017, e a BMW quer abrir uma fábrica local neste ano. “Nunca pensei que houvesse um lugar tão relaxado na Rússia”, diz o torcedor John Everhardt, 49, que viu a Inglaterra perder para a Bélgica na quinta (28).

Verdade, mas basta olhar para o pátio do aeroporto padrão Fifa e ver alguns helicópteros militares estacionados para se lembrar da natureza contraditória de Kaliningrado.