Numa das mais acirradas disputas eleitorais em 98 anos, os sócios do Coritiba irão escolher hoje o presidente do clube no próximo biênio. Três candidatos – Domingos Moro, Jair Cirino dos Santos e João Carlos Vialle – disputam o comando do clube, durante um dos períodos mais importantes da história alviverde. 

Além de enfrentar o desafio de consolidar a posição do Coxa na primeira divisão nacional, o próximo presidente vai dirigir as comemorações do centenário do clube, em 2009. A torcida exige que a data seja marcada por conquistas em campo e a pressão por bons resultados deve ser mais forte do que nunca.

Ninguém sabe ao certo quantos sócios estão habilitados a votar. Uma lista com cerca de 2.300 nomes foi divulgada pela diretoria. Mas ela inclui sócios remidos que não têm mais vida ativa no clube, incluindo alguns que já faleceram. Na verdade, os votantes não devem atingir nem metade desse número.

O reduzido colégio eleitoral dá a expectativa de uma disputa imprevisível e uma decisão ?voto a voto?. Cada um dos grupos tem 120 nomes o que indica um cenário de 360 candidatos disputando a preferência de um número mais ou menos igual de sócios que não estão em nenhuma das chapas.

O início da votação está marcado para as 9h. Os associados aptos a votar devem comparecer à praça de alimentação na entrada das cadeiras sociais do Couto Pereira. Lá estarão montadas as urnas e mesas eleitorais, onde o sócio deve apresentar um documento de identidade. O voto é pessoal, secreto e direto. Não é permitido votar por procuração.

Na cabine eleitoral, o sócio terá que escolher uma das três chapas. Além do presidente, elas incluem outros oito nomes para o conselho administrativo, cinco para a mesa do conselho deliberativo e os demais integrantes do ?conselhão?, completando o número de 120 candidatos.

Às 17h, as urnas serão fechadas e imediatamente será dado início à apuração. A chapa que obtiver o maior número de votos válidos será proclamada vencedora. O resultado será divulgado imediatamente após o encerramento dos trabalhos e o candidato vencedor toma posse no dia 1.º de janeiro de 2008.

Numa disputa tão apertada, um cenário já causa preocupação. Em caso de empate, a eleição pode parar na Justiça, já que o estatuto do clube é omisso quanto a essa possibilidade.

Cada vez de um lado

João Carlos Vialle, Domingos Moro e Francisco Araújo. Hoje, essas três importantes figuras da história do Coritiba estão divididas entre as chapas que disputam a eleição. Porém, há 14 anos a situação era bem diferente. Em dezembro de 1993, os três caciques coxas-brancas estavam unidos, contra Evangelino da Costa Neves.

Na ocasião, Evangelino estava no comando do clube já havia 21 anos e tentava mais um mandato. Porém, enfrentava a resistência de um aguerrido grupo de oposição, unido na chapa ?Acorda, Coritiba?, que tinha João Carlos Vialle como presidente, Domingos Moro como primeiro vice e Francisco Araújo como segundo vice.

Hoje, Vialle é o coordenador de futebol do clube e concorre novamente à presidência, desta vez pela situação. Moro lidera um grupo de oposição e também é candidato a presidente. Francisco Araújo é integrante do conselho administrativo de outra chapa oposicionista, que apoia Jair Cirino dos Santos para o cargo máximo.

Se partes dos grupos rivais no pleito de hoje estavam unidas contra Evangelino, integrantes de correntes atuais também integravam sua chapa. Edison Mauad, um dos principais apoios de Jair Cirino, era o primeiro vice do ?Chinês?. Já a candidatura de Moro conta com o apoio do próprio Evangelino.

Em 1993, as regras da eleição eram diferentes e apenas os conselheiros votavam. Evangelino ganhou a disputa de lavada: teve 190 votos, contra 53 de Vialle. Porém, o ?Chinês? não completaria seu novo mandato. Com o Coxa na segunda divisão e vivendo uma terrível crise financeira, ele acabou destituído, no ano seguinte, pelo famoso ?Triunvirato?, formado por Sérgio Prosdócimo, Joel Malucelli e Edison Mauad. (CM)

As voltas que a política do Coxa dá

Cristian Toledo

A política interna do Coritiba chegou ao ponto mais baixo de sua história no final da semana, com o ?duelo? de gravações do presidente Giovani Gionédis e do candidato Domingos Moro – com a chapa de oposição, liderada por Jair Cirino dos Santos, correndo por fora e anunciando liderança em uma pesquisa de intenção de voto do instituto Datasenso. O surpreendente é que, há apenas quatro anos, todos os que se digladiam festejavam em um restaurante a reeleição de Gionédis, que partia para seu segundo mandato. 

Giovani Gionédis já vencera em 2001. Ele chegara ao clube meses antes, indicado pelo grupo então no comando do Coxa, que era presidido por Francisco Araújo (hoje na chapa de Cirino). Tornou-se um dos nove ?cardeais? e rapidamente se transformou no dirigente a ser lançado para a presidência. Houve certa resistência do grupo ligado ao ex-presidente Evangelino da Costa Neves (hoje dividido nas três chapas), mas a vitória veio com facilidade.

No grupo de Gionédis estavam José Augusto Arruda (hoje com Vialle), Domingos Moro (candidato da oposição) e Ricardo Gomyde (hoje com Cirino), entre outros. Os resultados no futebol, a melhoria administrativa e a revelação de bons jogadores fizeram do presidente candidato único em 2003. Moro passava a ser o vice-presidente e no dia da eleição o mandatário recebeu abraços de Gomyde, Júlio Militão da Silva (hoje presidente do conselho deliberativo, e mantendo neutralidade) e de Jair Cirino dos Santos, todos formando a chapa ou apoiando entusiasticamente.

Mas a estrela da eleição de 2003 era Evangelino. Ele fora convidado a voltar à direção como um dos ?cardeais?. Aceitou, fato que foi comemorado como o momento do final da briga política no Coxa. ?É o trabalho do presidente Giovani Gionédis que permite essa reunião de forças em prol do Coritiba?, disse Moro à época. Mal sabiam eles – ou sabiam – que o clube seria varrido pela disputa mais rasteira anos mais tarde.

A briga que desaguou na sexta-feira começou em 2004, com o afastamento de Domingos Moro. Este ficou isolado até a metade deste ano, quando começou a ser procurado para ser candidato a presidente – fato que transtornou Gionédis. Em 2005, aliados de Evangelino começaram a se movimentar para lançar uma candidatura própria, mas acabaram se dividindo entre os lados de Júlio Militão e Celso Moreira (hoje com Cirino).

Quem saiu como candidato foi José Antônio Fontoura (hoje com Cirino), fazendo parceria com Militão. Moreira se aliou a Gionédis. A eleição foi renhida, decidida por um voto e com ?prorrogação? na Justiça. A turma de Neves que estava com o presidente foi logo afastada – dirigentes como Luís Guilherme de Castro (hoje com Moro) e Almir Zanchi (também com Moro) não duraram quatro meses no clube. Celso Moreira também saiu, lançou-se candidato e renunciou, sem apoiar formalmente nenhum candidato, mas apoiando Cirino nos bastidores.

Sem candidato, e sem querer sair para nova reeleição, Gionédis lançou Vialle apenas no final do ano, quando o hoje coordenador de futebol vivia o auge da popularidade. Como Tico Fontoura não quis sair à presidência (ele é candidato ao comando do ?Conselhão?), escolheu-se Cirino como candidato oposicionista. Moro teve que lutar na Justiça para garantir sua chapa ?terceira via?, que acabou formando este intrincado quebra-cabeça da eleição alviverde, em que todos já estiveram juntos, mas preferem nem lembrar disso.

Coxa terá mais um processo na Justiça

Redação

O advogado Dyego Karlos Tavares, que representa o jogador Thiago dos Santos Ferreira, encaminhou ontem para a redação da Tribuna uma nota de esclarecimento. Thiago dos Santos é o suposto pivô envolvendo as denúncias do presidente do Coritiba, Giovani Gionédis, e o advogado Domingos Moro, candidato de oposição à sucessão do Alviverde. O jogador move uma ação trabalhista contra o clube, e amanhã ingressará na Justiça com outra ação, desta vez por danos morais.

Na última 6.ª-feira, chegou à redação da Tribuna uma cópia de um CD com um áudio com supostas denúncias de assédio a jogadores no clube. Junto ao CD, a cópia de uma correspondência encaminhada aos sócios do Coritiba, assinada por Gionédis, relatando o caso. Também na 6.ª-feira, Moro e integrantes da sua chapa compareceram ao jornal para mostrar um vídeo com a versão da trama contada pelo jogador. Abaixo, a correspondência do advogado de Thiago Santos.

Nota de esclarecimento

?Em relação à suposta gravação divulgada pelo senhor Giovani Gionédis, o atleta profissional Thiago dos Santos Ferreira vem, através de seu advogado, Dyego Tavares, a público esclarecer:

1 – Que nunca teve qualquer envolvimento de ordem pessoal com o senhor Domingos Moro; 2 – Que nunca auferiu qualquer vantagem ou benefício com o senhor Domingos Moro, subindo à categoria profissional devido à sua condição técnica e por méritos profissionais. Ressalte-se que, embora fosse uma das principais revelações do clube, sua remuneração era uma das menores do elenco do Coritiba FC, em 2004; 3 – Que seu nome foi indevidamente usado em uma briga eleitoral entre os senhores Giovani Gionédis e Domingos Moro; 4 – Que o atleta Thiago dos Santos Ferreira não tem relação nenhuma com o processo eleitoral no Coritiba FC, sendo que sua imagem não pode ser prejudicada por esta eleição; 5 – A divulgação de seu nome é uma clara retaliação à reclamatória trabalhista que o atleta move em face do clube, no valor de R$ 3,4 milhões (RT 20485/2007), tramitando na 7.ª Vara do Trabalho de Curitiba; 6 – Que na 2.ª-feira, dia 17/12, o atleta pleiteará a devida indenização por danos morais, uma vez que causou um grande constrangimento ao senhor Thiago dos Santos Ferreira, bem como a seus familiares e sua noiva, no referido processo, na Justiça do Trabalho; 7 – Que a divulgação de seu nome neste lamentável episódio é um verdadeiro desrespeito a um profissional de conduta ilibada, com uma carreira vitoriosa no Coritiba FC, sendo bicampeão estadual (2003/04), campeão estadual juniores (2003 – último título do clube na categoria) e que participou da campanha que levou o clube à Libertadores da América, no Brasileiro de 2003.?