A Gazeta do Povo e a Tribuna do Paraná selecionaram jogos antigos, disponíveis na íntegra na internet, para serem vistos e revistos. Do ponto de vista técnico, tático ou, até mesmo, apenas pessoal, leia como foi a experiência, tanto tempo depois.

“Coritiba, campeão acima das simplificações”, por Cristian Toledo

Quando muitos anos nos separam de um fato, simplificamos tudo para tentar entender o que aconteceu. Na madrugada de 31 de julho para 1º de agosto, serão 35 anos da conquista do título brasileiro pelo Coritiba. De 1985 para cá, o futebol mudou profundamente, o Campeonato Brasileiro também. E aquela campanha alviverde ficou presa às simplificações — o saldo negativo, a decisão por pênaltis, o adversário.

Olhar para a final daquela Taça de Ouro entre Coxa e Bangu — o jogo todo, nada de compactos — pode ajudar a entender porque pode se responder com um “sim” à pergunta que constantemente se faz: o Coritiba mereceu ser campeão brasileiro?

Antes da bola rolar

O grande responsável pelo título brasileiro foi o técnico Ênio Andrade. Com ele, o Coxa passou de um time instável para ser confiável e regular — o que, em um Brasileirão repleto de zebras, foi decisivo para se chegar à final.

Após um primeiro turno muito ruim, o Coxa arrancou no returno. Dali até o título no Maracanã contra o Bangu, foram 19 partidas — com nove vitórias, seis empates e apenas quatro derrotas (57,9% de aproveitamento), 17 gols marcados e 13 sofridos. Foi a eficiência defensiva em um campeonato com “formulismo” que levou o Coritiba à decisão.

Ao jogo

Taticamente, olhando com a lente de hoje, o Coritiba jogava no 4-2-3-1. A linha defensiva com André, Gomes, Heraldo e Dida à frente de Rafael; Almir e Marildo como volantes, saindo pouco; Lela, Tóbi e Edson formando como articuladores e Índio como centroavante.

Com a posse de bola, Lela tinha liberdade de movimentação. Tóbi também trocava de setor, era o dínamo do Coxa. André e Dida subiam para o apoio, mas um de cada vez. A ideia de Ênio Andrade era que o time não ficasse desguarnecido quando o Bangu retomasse a bola.

Apesar de Marinho, que vivia seu auge técnico, jogar mais solto, os donos da casa tinham um 4-3-3 típico, com dois pontas — o próprio Marinho e Ado. O camisa 7 foi a principal ameaça ao Coritiba.

Com dois volantes marcadores, a melhor transição era no contra-ataque. Com espaço, Tóbi levava vantagem contra os meio-campistas banguenses. E o Coxa começou melhor a partida do Maracanã. Tinha a posse de bola, trocava passes, usava bem os lados do campo e arrematava. O gol de Índio apenas comprovava a superioridade alviverde diante de um adversário nervoso e mal organizado.

A formação de Coritiba e Bangu: marcações encaixadas, Tóbi com espaço entre os meias e domínio alviverde.

Era a hora de redobrar a aposta no contra-ataque para quem sabe matar o jogo. Houve até chances antes do empate do Bangu, apenas dez minutos depois do gol alviverde. O chute de Lulinha, que desviou antes de entrar, fez com que os donos da casa entrassem no jogo.

Pressão

A partir dos 40 minutos do primeiro tempo, o Coritiba praticamente não ameaçou mais Gilmar. Ofensivamente, Lela e Edson produziram pouco. Isto porque a partir do empate do Bangu o objetivo era prioritariamente conter a pressão carioca.

E ali mostrou-se essa mudança profunda que Ênio Andrade fez no Coxa. A obrigação atual de que todos os jogadores participem da ação defensiva era rara naquele tempo. Os atacantes adversários mal cercavam. Já a trinca alviverde voltava tanto que faltava fôlego para chegar à frente.

O melhor momento do Bangu: sem um atacante de referência, desnorteou a defesa alviverde e fez Rafael brilhar.

O que fez o jogo ficar dramático foi a queda técnica alviverde a partir da segunda etapa. Os donos da casa jogaram no campo do Coxa o tempo todo. Errando muitos passes, era como se a bola batesse numa parede e voltasse para o Bangu.

Rafael

É preciso falar de Rafael Camarotta. Naquele 1985, ele foi o melhor goleiro do Brasil. Na reta final da Taça de Ouro, havia quase uma certeza dos defensores — se a bola passasse por eles, o camisa 1 do Coritiba operaria um milagre — como fez no lance de João Cláudio.

Na final do Maracanã, Rafael teve intervenções fundamentais. E ainda era ele quem esfriava o jogo na blitz do Bangu, quem dava as broncas nos jovens André e Dida, que pedia calma ao time na hora da dificuldade. E que ficou gigante na hora dos pênaltis, a ponto de deixar Ado assustado. Mas ainda não chegamos lá.

Alterações

O Bangu mexeu primeiro. Colocou Pingo, um meia, no lugar de João Cláudio. Sem referência, os cariocas apostavam na troca de posições para sair das marcações encaixadas – principalmente de Dida em Marinho e André em Ado. Taticamente, foi o melhor momento do Bangu na partida.

Até o Coritiba se acertar, os donos da casa levaram vantagem. O lance de impedimento de Marinho reclamado até hoje pelos banguenses é fruto dessa variação: Lulinha lançou Marinho entre os zagueiros alviverdes. Ele marca, mas a jogada foi impugnada por Romualdo Arppi Filho.

A prorrogação andou do mesmo jeito. Era claro que o Coxa via a decisão por pênaltis como uma realidade – afinal, estava no regulamento e Ênio Andrade treinara obsessivamente o time em Belo Horizonte. Marco Aurélio entrou no lugar de Marildo para ser um dos cobradores, mas também com a incumbência de tentar manter a posse de bola. Já Vavá entrou no último momento, de caso pensado.

Na prorrogação: com Marco Aurélio em campo, Coxa passou a jogar num 4-1-4-1 para reduzir o ritmo da partida.

A hora da verdade

Doze cobranças definiram os “mais de cinco meses de trabalho de Coritiba e Bangu”, como disse Vinícius Coelho na transmissão da TV Paranaense. Ali, novamente ficaram ressaltadas as virtudes alviverdes — que tinham levado o time à decisão e levariam ao título brasileiro.

Experiente (Rafael, Gomes, Heraldo, Almir, Marco Aurélio, Lela e Índio formavam uma espinha dorsal rodada), com jovens em posições-chave (André, Dida e Tóbi), muito bem preparado fisicamente, bem organizado taticamente, com um craque (Rafael) e um técnico vencedor, o Coxa soube construir a sua campanha em 1985.

Tudo isso ajudou quando foi preciso virar a chave ainda na primeira fase. Foi ali que o Coritiba compreendeu a fórmula da Taça de Ouro e resolveu usá-la em seu favor. Na hora da onça beber água, fez o que era preciso. Nos três jogos decisivos (semifinais e final), sofreu apenas um gol. Fez só dois? Era o suficiente. Em seis pênaltis, acertou todos. O Bangu errou um? Era o suficiente.

E por isso que, naquela madrugada na virada de julho para agosto no Maracanã, o Coxa mereceu ser campeão brasileiro de 1985.

Assista ao jogo na íntegra!

Ficha técnica

Taça de Ouro 1985 – Final em jogo único

BANGU (5) 1×1 (6) CORITIBA

Bangu
Gilmar, Márcio, Jair, Oliveira e Baby; Israel, Lulinha (Gílson) e Mário; Marinho, João Cláudio (Pingo) e Ado. Técnico: Moisés

Coritiba
Rafael, André, Gomes, Heraldo e Dida; Almir (Vavá), Marildo (Marco Aurélio) e Tóbi; Lela, Índio e Édson. Técnico: Ênio Andrade

Local: Maracanã (Rio de Janeiro-RJ).
Árbitro: Romualdo Arppi Filho (Fifa-SP).
Assistentes: Osvaldo Campos (SP) e Joel Caires (SP).
Gols: Índio 25 e Lulinha 35 do 1º.
Cartões amarelos: Mário (BAN); Dida, Gomes, Rafael (CFC).
Renda: Cr$ 848.064.000,00.
Público pagante: 91.527.

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