“Aqui no Paraná, sou coxa até o fim.” É assim que Paulo Jamelli se despediu de todos no Alto da Glória, de funcionários a jogadores que passaram ontem à tarde na sala do ex-dirigente. Ele pediu demissão à diretoria do cargo de coordenador de futebol, mas garante que continua na torcida para o time ser bicampeão estadual.

Título que ele quer colocar no currículo, até para poder pintar o cabelo de verde e cumprir uma aposta feita com Marcelinho Paraíba, que também prometeu tingir as madeixas caso o Coxa levante o caneco.

Nos próximos dias, ele providencia a mudança de volta para Barueri, onde reside, e depois vai para a Espanha espairecer no caminho de Santiago de Compostela. Antes de ir embora, ele conversou com a reportagem da Paraná-Online.

Paraná-Online – Você pediu demissão ou foi demitido?

Paulo Jamelli – Eu fiz um pedido para o Homero (Halila, diretor de futebol), para o presidente (Jair Cirino dos Santos), de que a gente estava chegando numa situação complicada, uma situação de atrito minha com o treinador (Ivo Wortmann) e que eu preferia sair antes de chegar numa situação que iria ficar chata. Eu acho que agora é o momento certo porque o time está em primeiro lugar, com uma campanha que só depende dele para ser campeão e, depois daquela turbulência desse último mês, o time está encontrando a maneira de jogar. Então achei que era a hora certa de sair e deixar o Ivo trabalhar tranquilo e com confiança e, principalmente, os jogadores, que são o maior bem do clube e precisam ser preservados.

Paraná-Online – Como se chegou a esses atritos entre você e o treinador?

Jamelli – Faz um tempo a gente teve uma reunião e eu expus a minha opinião de que o time tinha que render mais. Na minha visão o time deste ano é melhor do que o do ano passado, tenho certeza que o nosso elenco é o melhor do Paranaense, desde o princípio sempre falei que o nosso time era o favorito e chegou um momento em que cobrei da diretoria e do Ivo que o time tinha que jogar mais. A diretoria tomou uma atitude de continuar com o Ivo, eu acatei, mas deixei a minha opinião clara. Foi tendo atrito, foi tendo um probleminha aqui, um probleminha ali e coisas que poderiam ser aparadas sem problemas ganharam uma dimensão maior e antes de que a gente tivesse um problema mais sério eu resolvi sair.

Paraná-Online – Por você o Ivo teria saído depois das derrotas seguidas (Paraná e J. Malucelli)?

Jamelli – Acho que não foi nem nessa época. Acho que foi antes que eu achei que, se a gente tivesse que mudar alguma coisa, teria que mudar naquela hora porque daria tempo de vir outro treinador para trabalhar, errar até, antes de chegar na fase final. Não tenho nada contra o Ivo treinador, nem como pessoa, mas foi uma época em que achei que ele deveria tirar mais do time do que estava tirando.

Paraná-Online – Você chegou a entrar em contato com algum outro treinador?

Jamelli – Em momento algum eu falei com outro treinador. Acho isso uma atitude antiética enquanto você tem um treinador no seu time, mesmo que você pense na possibilidade de mudança. Não falei com ninguém, nem eu nem o Homero.

Paraná-Online – Qual o peso das suas contratações nesse período em que o time não rendeu a contento?

Jamelli – Quando o time ganha, é o nosso time. Quando o time perde, é o time que o Jamelli fez. A contratação do Vicente já vinha sendo tentada desde o ano passado quando o Dorival Júnior era o treinador, o Márcio Gabriel também. O Marcos Aurélio é um cara que já deveria ter vindo no ano passado e não deu certo, sabe? E outras contratações como o (Rodrigo) P,ontes, o Cleiton, o Pereira, o Marcelinho Paraíba, a renovação de contrato do Leandro Donizete. As contratações que dão certo ninguém fala. O Marcelinho não estaria aqui se não fosse por mim. Por minha causa, que bati o pé, se não o Marcos Aurélio não estaria aqui. Também gostaria de deixar claro que, em momento algum da minha carreira, recebi dinheiro de empresário, de algum clube, de jogador e quem falar o contrário vai ter que provar.

Paraná-Online – E os casos do Rodrigo Mancha e do Marlos aumentaram esse desgaste?

Jamelli – Pelo relacionamento que eu tenho com a família Figer disseram que eu tinha esquema com eles para o Marlos não renovar contrato, que ele iria para o São Paulo, isso é outra barbaridade. A questão do Mancha é a seguinte: depois de uma derrota, o Ivo me chamou, chamou o Homero e a gente conversou. Ele falou “olha, acho que o Mancha e o Marlos não estão comprometidos, não estão com a cabeça aqui no clube e queria saber da diretoria o que acha de tirá-los da titularidade”. Falamos a ele, “se você acha isso, vamos te apoiar”. Aí o Homero perguntou: “você não acha que vamos perder tecnicamente? Não estamos dando um tiro no pé e não quero que lá na frente venha uma cobrança de que a gente não ganhou porque a gente tirou os dois”. Ele falou que não e foi uma atitude de grandeza dele da mesma maneira que foi uma atitude de grandeza também reintegrar o Mancha. Eu acho que o cara é jogador do time e tem que ser reintegrado.

Paraná-Online – E a questão do arbitral?

Jamelli – Essa também é boa e jogaram nas minhas costas. Aqui é tudo culpa do Jamelli. O arbitral foi uma reunião que a gente teve, conversamos e votamos o regulamento. São oito classificados os quatro primeiros vão jogar quatro em casa e três fora e só tinha que ver a ordem dos jogos para não coincidir jogos na capital no mesmo horário. Feito isso, “todos de acordo?”. Todos, inclusive eu, dois pontos para o primeiro, um para o segundo e a minha parte foi feita. Não me preocupei mais com isso e, de repente, vem a surpresa do artigo 9.º. Não foi isso o combinado, todos os times estavam lá e era fácil resolver, era só juntar todo mundo de novo e ver que redigiram errado o regulamento e aí entraram na Justiça.

Paraná-Online – Mas não tinha essa redação do artigo 9.º?

Jamelli – Tinha uma ata, que foi aprovada, e depois seria redigido o regulamente e encaminhado aos clubes que iriam analisar através de seus departamentos jurídicos e os presidentes iriam assinar.

Paraná-Online – Qual o teu legado para o Coritiba?

Jamelli – Os resultados estão aí. Eu estou aqui há 12 meses, o time foi campeão paranaense, conseguiu a classificação para a Sul-Americana, teve uma participação muito boa para um time que passou dois anos na segunda divisão. Esteve entre os dez primeiros o campeonato todo, algumas vezes arranhando o G4 para tentar a Libertadores e passou um ano tranquilo. Estamos na segunda fase da Copa do Brasil, saio com o Coritiba em primeiro lugar e favorito para ser campeão estadual. Fora isso, tem a parte de clube e acho que deixo o Coritiba muito mais profissional, muito melhor com as pessoas que trabalham aqui mais contentes.

Paraná-Online – E o futuro?

Jamelli – A vida segue, o futebol é dinâmico, fiz vários amigos aqui e tudo é uma grande aprendizagem. Estou um ano sem férias, vou para São Paulo ficar com meus filhos um pouco e tem uma viagem que quero fazer, que é o caminho de Santiago e acho que é o momento certo de colocar minhas ideias em linha de novo.