Um dos nomes mais importantes da justiça desportiva no País, o paranaense Paulo Schmitt virou uma espécie de “advogado do diabo” no caso da pancadaria de 6 de dezembro no Couto Pereira.

Ao sugerir pesada punição ao Coritiba, o procurador-geral do Superior Tribunal de Justiça Desportiva foi alvo de enxurrada de críticas e ataques na terra mesmo considerando-se que a natureza do cargo que ocupa (espécie de Promotoria do mundo da bola) exija cobrança por rigor nas punições.

Em entrevista ao Paraná Online Schmitt, que nunca negou sua condição de torcedor do rival Atlético, considerou a pena de 10 mandos adequada, admitiu certa influência da Copa do Mundo de 2014 sobre o julgamento de quinta-feira e reconheceu que há times com maior influência que os do Paraná.

Como analisa o resultado do julgamento?

Schmitt: Tecnicamente, foi interessante. Não digo que fiquei satisfeito, porque julgar essas coisas é ruim, foram fatos graves que mancharam o futebol brasileiro, uma violência sem precedentes. Mas é nossa função. Só que no Paraná sempre se fala que os times daqui não têm prestígio, que se fosse um clube grande o tratamento seria outro. Há um certo complexo de inferioridade.

Paraná Online: Em que fundamentou seu pedido de punir o Coritiba em 30 mandos?

Schmitt: Nunca pedi 30 mandos, nem 10, nem 1. Cabe ao julgador fixar a pena. Apenas entendi que a infração se repetiu por três vezes no mesmo tipo infracional. A pena para cada uma é de 1 a 10 jogos. Então, poderiam ser 3 mandos. Veja uma situação corriqueira: um atleta xinga o árbitro, é expulso e depois xinga o bandeira. Ele será enquadrado duas vezes no mesmo artigo. Mas o tribunal entendeu que, com a mudança do Código (a partir de 1º de janeiro), cabe apenas uma sanção para cada tipo de infração. O pleno reconheceu, porém, que no texto anterior havia espaço para aplicação das três punições do mesmo artigo, tanto que a Comissão Disciplinar votou assim (na condenação inicial por 30 mandos).

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Então jamais haverá punição maior.

Schmitt: O enquadramento agora é único. Numa hipótese de haver episódio ainda mais grave, não poderá haver cobrança em cima de mim por uma resposta ainda maior.

Paraná Online: Até que ponto a organização de uma Copa no Mundo no país influiu no julgamento?

Schmitt: São referenciais importantes, a Copa e as Olimpíadas. A disciplina, o fair play, a ética são muito cobrados, e esta é a forma de o esporte dar o exemplo. Desde que o novo Código (Brasileiro de Justiça Desportiva) foi editado, em dezembro de 2003, caiu muito a indisciplina nos estádios.

Paraná Online: Pessoalmente, é mais difícil denunciar um time do Paraná, até levando em conta sua preferência clubística?

Schmitt: Sim. Mas desde que assumi a procuradoria já denunciei o Atlético-PR de seis a oito vezes, além do antigo presidente (Mario Celso) Petraglia. Recentemente denunciei Atlético e Coritiba quando estouraram bombas (no clássico pelo Brasileiro de 2009, quando ambo  s perderam um mando de campo). No caso do Coritiba, fui convidado para o centenário, o Nadalin (diretor jurídico alviverde) me chamou para dar palestra lá. Quando aconteceu o fato no Couto Pereira, liguei para o (presidente Jair) Cirino, até de forma pessoal, alertando que seria problemático. É uma pena, porque é um dirigente bem intencionado, e o lugar do Coritiba é a Série A. Então a pressão fica maior pra cima de mim, mas tenho que tirar de letra. Clubes com maior influência nacional e internacional, não se pode negar, respeitam mais nosso trabalho,, mas os daqui acham que podem falar o que quiserem.

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