No futebol brasileiro vale tudo. Invasão a treino no Figueirense. Pressão (pra dizer o mínimo) a jogadores do Athletico e do Corinthians em aeroportos. Pichações no Bragantino e no Botafogo. Agressões na Ponte Preta. Quebra-quebra no CSA. Racismo contra Paulo César de Oliveira. Todos fatos das últimas semanas, não tem nada aí de antes da parada. As autoridades não fizeram nada. Os clubes também não. E vai continuar assim?

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Aceitamos muita coisa no futebol que não permitimos – ou não engolimos – no dia a dia. Pensemos juntos: você é professor, dentista, advogado, arquiteto, bancário. Se no seu trabalho você fosse ameaçado, agredido, ofendido, você acharia certo? Se o dentista deixa de limpar um pedacinho de tártaro, você vai até ele dizendo que ele é mercenário, traíra ou vagabundo? E se você é advogado e não entregou a petição no prazo, o cliente tem direito de reunir uma turma e ir ao seu escritório pra ameaçar e dizer que “se não for no amor, vai ser na dor”?

Justificativas de sempre

No futebol, vemos um sem-número de pessoas relativizarem fatos como o que aconteceu no Figueirense. Falta de resultados, “eles ganham muito”, “tem que ter pressão”… Essas e outras desculpas aparecem nas redes sociais, nas conversas e também na mídia. Muita gente na imprensa acha que faz parte da cultura do futebol, e que “se não tiver agressão, tudo bem”. Não tá tudo bem. Nenhum jogador do Corinthians foi agredido em Cumbica, mas no dia seguinte estavam ameaçando pelas redes sociais o filho de Fagner, que tem dez (dez!) anos.

Da mesma forma que acham totalmente normal Paulo César de Oliveira ser ofendido como foi nesta semana. “Ah, mas ele falou errado mesmo”, alguns dizem. Outros chegam a discordar da crítica ao racismo. Mas não, não tá certo. Atacar Paulo César pela cor de sua pele é sim racismo. E é crime, tipificado em lei. O ex-árbitro e hoje comentarista do Grupo Globo fez a denúncia, registrou a ocorrência e quer justiça. E tá mais do que certo.

Futebol brasileiro e impunidade

A certeza da impunidade sempre incentivou dirigentes e torcedores (jornalistas também, é verdade) a fazer coisas do arco da velha sem se preocupar com punições. Lembra que Eurico Miranda acabou com um jogo do Paraná Clube com o Vasco só porque achou que o time dele tinha sido prejudicado? Ele nem foi punido. Isso foi no século passado, e nada indica que as coisas melhoraram desde então. Por isso, vimos tudo que vimos nos últimos dias, inclusive alguns fatos com anuência dos dirigentes.

Eurico Miranda invade o campo. Régis gastou saliva reclamando, porque o cartola acabou com aquele Vasco x Paraná de 1999. Foto: Arquivo Gazeta do Povo

Enquanto não tivermos ação das autoridades de segurança e punições que atinjam clubes e torcedores, essas barbaridades continuarão a acontecer. Cabe também à imprensa ser mais crítica – até porque nós não aceitamos ameaças e ofensas, mas relativizamos quando acontece com outras pessoas. Tá na hora de parar de permitir que o futebol brasileiro seja essa terra sem lei, onde violência, racismo, homofobia, LGBTfobia, misoginia e discurso de ódio sejam costumeiros (só são repudiados quando o ‘seu’ time é diretamente atingido).

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E cabe também uma atitude mais radical dos atletas. Eles acabam sendo o alvo da fúria dos irracionais. Chamar a atenção da sociedade com os braços cruzados por 20 segundos é louvável, mas não vai mudar nada. Sem união e posições firmes, os jogadores continuarão sendo vítimas. E nada vai acontecer.