Se tem alguém que sabe o que falar de uma pandemia são médicos e infectologistas, não os dirigentes do futebol brasileiro. Começar esse post com uma obviedade é necessário depois do aumento assustador de casos do novo coronavírus desde as medidas de reabertura do comércio e de outras atividades. Nas últimas duas semanas, com a liberação de mais lojas, de restaurantes, bares, academias e escritórios, muito mais gente passou a circular. E o resultado infelizmente era previsível.

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Só não era para quem não queria – e não quer – seguir a ciência. Para quem nega a pandemia, nega a necessidade do isolamento, nega a perda de vidas, nega o globo terrestre e nega a existência do racismo estrutural, imagine se abrir lojas ia ser errado. Muitos destes ficam nos gabinetes, enquanto os trabalhadores são obrigados a retomar suas atividades. Os jogadores do futebol brasileiro entram nessa lista. Muitos admitem que voltaram a trabalhar porque estão com dificuldades financeiras.

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E como não conseguimos ter consciência do que se vive, e principalmente não temos a menor preocupação com o próximo, o que vemos é lugares cheios, parques lotados, festas clandestinas, shows de música… Aí o número de casos sobe de forma exponencial e há quem diga que “não sabe o que está acontecendo”.

Marcha-ré

O que decorre disso é que autoridades de saúde, membros do Judiciário e governantes estudam a possibilidade de um recuo. Sim, fechar o que se reabriu, aumentar o rigor do isolamento social e, no pior caso, a necessidade do tal ‘lockdown’. Como não respeitamos as medidas (sim, sei que muita gente respeitou) lá em março, a reabertura teria efeitos dramáticos. No Paraná, em uma semana os casos aumentaram em 40% e os óbitos em 83%.

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E se precisarmos dar um passo atrás, é preciso entender que pode ter havido pressa das autoridades, pressão de empresários e a forçação de barra do governo federal. Mas nem a mais mixuruca estratégia de relaxamento dizia que agora era festa da uva. Que tava liberado fazer muvuca no Batel, balada no Largo da Ordem e pagodinho no Portão. Temos responsabilidade também (sim, sei que muita gente respeita o isolamento).

O futebol brasileiro na mira

Alguns dos principais clubes do futebol brasileiro, com apoio implícito da CBF e explícito do presidente da República, arrombaram a porta do isolamento social e apressaram o passo para voltar aos treinos. E, para alguns deles, já passou da hora de voltar a jogar. E eles estarão preparados para um passo atrás? Algo que estava escancarado desde o início do lobby boleiro está cada vez mais próximo de acontecer.

Santa Catarina saiu na frente e marcou a volta do campeonato estadual para 8 de julho – pouco menos de um mês, portanto. É um estado que tem uma situação de mais controle da pandemia, assim como o Rio Grande do Sul, que estuda o retorno em 15 de julho. Mas ninguém tem certeza do que vai acontecer nas próximas semanas – mesmo com o rígido protocolo da CBF. Às vezes, quando se arromba uma porta, ela pode voltar na nossa cara.

Deveríamos, desde o início dessa pandemia, apoiar nossas decisões na visão da ciência. Ao contrário, quem decide e quem tem a grana resolveu pensar só no prejuízo econômico. Nessa ‘brincadeira’ estamos perto de 40 mil mortes, e parece que tem gente, inclusive no futebol brasileiro, que não quer ver a realidade nua, crua e terrível. Estamos pagando o preço em vidas.


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