Quando eu era criança, meu pai dizia que havia três unanimidades em Curitiba – Afinho, Krüger e Sicupira. Afinho era o primeiro citado sempre, afinal seu Carlão tinha jogado no Ferroviário antes de servir o exército e de conhecer a minha mãe. O artilheiro dos títulos do Boca Negra, o craque que virou desembargador. Krüger era o cara que dava a vida pelo Coritiba, o ídolo que se entregou pelo clube, e como disse Afonso Arinos sobre Tancredo Neves, deu também a morte pelo Coxa.

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E havia – e há – Barcímio Sicupira Júnior. Me arrisco a dizer que hoje o Craque da 8 é ainda mais unanimidade do que nos anos 1980. Apesar de muita gente idiota que existe por aí e divide o mundo pela camisa que veste, Sicupa é cada vez mais admirado, tanto por quem o viu jogar, quanto pelos que só o acompanharam como comentarista na televisão e no rádio. Dos três, é quem está com a gente. E recebe uma mais que merecida homenagem – o lançamento de uma biografia, escrita pelo jornalista Sandro Moser, que terá uma festa estilo drive-in neste sábado (3), na Pedreira Paulo Leminski.

Não vi Sicupira jogar – não sou tão velho quanto brincam por aí. Mas sei, não só pelo meu pai, mas por tantos outros amigos e colegas, o quanto ele foi importante como jogador do Athletico. Só o fato de ter sido o protagonista do fim do jejum de títulos em 1970 já o colocaria entre os grandes da história do clube. Mas não foi só isso, foi uma carreira de dedicação e de glórias com a camisa rubro-negra. Ele não foi mais um, ele é o maior de todos os jogadores do Furacão.

Sicupira, o cidadão

Foto: Denis Ferreira Neto. Arte: Cláudio Doggy
O Cláudio Doggy fez essa montagem em 2018, pra uma capa da Tribuna. É uma das capas mais legais que ajudei a criar. A foto atual é do Denis Ferreira Neto.

Não contente, ele fez a faculdade de Educação Física, se formou e depois aceitou um desafio. Sair dos campos e assumir os microfones. 45 anos antes de virar moda, ele foi o ex-jogador que virou comentarista. Esse papel, que ele cumpre com talento até hoje, parece ter sido talhado pra Sicupira. Como João Saldanha, como Dionísio Filho, ele simplificou a análise. O futebol permite que se usem várias linguagens para comentar, desde a mais profunda e técnica até a mais simples. Seu Barcímio alia a experiência do campo com o conhecimento da comunicação, e segue sendo o comentarista mais importante do rádio curitibano.

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E com uma virtude rara: ele respeita a todos. Digo isso porque trabalhei com ele por um ano na rádio Banda B, sua casa desde 1997 (ainda no tempo de CBN). Éramos dois jovens ali, eu e Guilherme de Paula, tentando olhar o futebol de outras formas – eu buscando entender todos os lados do jogo, o Guilherme se aprofundando no conhecimento tático. E Sicupira debatia futebol com os novatos, concordando e discordando, mas respeitando e nos dando lições silenciosas de como agir. Hoje poderia dizer ao meu pai que Sicupira continua sendo uma unanimidade. E digo mais: ele é um herói curitibano.