Márcio, ex-Paraná, festeja o primeiro gol.

Belo Horizonte – O Cruzeiro fez prevalecer seu favoritismo e pôs fim ontem a uma fila de mais de três décadas, conquistando o título de campeão brasileiro pela primeira vez desde que a competição foi criada, em 1971. Diante de 73 mil torcedores, o time celeste venceu o Paysandu, por 2 a 1, no Mineirão, e assegurou a conquista, que viria mesmo com uma derrota, já que o Santos foi derrotado pelo Goiás, no Serra Dourada. A equipe de Vanderlei Luxemburgo soma agora 94 pontos e não pode ser mais alcançada.

O título confirma o Cruzeiro como a mais vitoriosa equipe da temporada 2003, ano em que o clube mineiro conquistou a chamada “Tríplice Coroa” -além do Brasileirão, a Copa do Brasil e o campeonato mineiro. Esta é a segunda vez que o futebol mineiro comemora o título nacional. Antes, o Atlético-MG, maior rival do time azul, havia vencido a primeira edição do campeonato.

Coube ao armador Zinho, substituto do meia Alex, suspenso, comandar a equipe mineira nos 45 minutos iniciais e abrir caminho para a vitória. Aos sete minutos, o veterano jogador, de 36 anos, que ontem conquistou o seu quinto título brasileiro, igualando o recorde do ex-volante Andrade, cobrou falta da direita. A bola atravessou toda a grande área e atingiu a rede, no canto direito de Carlos Germano, sem que nenhum atacante cruzeirense conseguisse concluir.

Após o gol, o time de Luxemburgo tornou-se absoluto em campo e desperdiçou pelo menos três ótimas chances para ampliar o placar ainda no primeiro tempo. Zinho, com uma bela atuação, fez com que o torcedor celeste não lamentasse a ausência de Alex, maior ídolo e destaque do time. Dois minutos depois de marcar o primeiro gol da partida, ele quase faz novamente, ao completar um cruzamento da direita. Aos 38 minutos, o armador enfileirou a zaga paraense, invadiu a área, e só não marcou o segundo porque a bola bateu na trave direita do gol de Carlos Germano.

O Paysandu só conseguiu finalizar pela primeira vez quando restava apenas um minuto para o término da etapa inicial. O meia Vélber acertou um chute de fora da área e obrigou o goleiro Gomes a trabalhar.

Defesas

O time do técnico Ivo Wortmann, porém, voltou do intervalo com mais disposição e só não empatou porque Gomes fez duas grandes intervenções, aos quatro e aos 12 minutos. A queda de rendimento do time obrigou Luxemburgo a fazer três substituições. Uma delas foi a entrada do atacante Mota no lugar do colombiano Aristizábal.

E foi o cearense que fez a torcida celeste, que não conseguiu conter o grito de campeão e já nas primeiras horas do dia festejava pelas ruas de Belo Horizonte, explodir de alegria. Ele recebeu livre na entrada da área e chutou de bico para fazer 2 a 0.

Aos 45 minutos, o atacante Aldrovani invadiu a área a chutou entre as pernas de Gomes, descontando para o Paysandu. A derrota complicou a situação do Papão da Curuzu, que continua com 48 pontos, na zona de rebaixamento.

Ao final do jogo, os jogadores receberam duas taças simbólicas, com as quais deram a volta olímpica. Uma delas foi entregue ao zagueiro Cris, capitão do time, pelo governador de Minas, Aécio Neves, um cruzeirense declarado. A taça oficial do campeonato será entregue somente na última rodada do Brasileirão quando o Cruzeiro enfrenta o Bahia, em Salvador.

Cruzeiro 2×1 Paysandu

Gols: Zinho, aos sete minutos do 1.º tempo. Mota, aos 28, e Aldrovani, aos 45 minutos do 2.º tempo.

Cruzeiro: Gomes; Maurinho, Cris, Edu Dracena e Leandro; Maldonado, Augusto Recife (Felipe Melo), Wendell (Sandro) e Zinho; Márcio Nobre e Aristizábal (Mota). Técnico: Vanderlei Luxemburgo.

Paysandu: Carlos Germano; Lecheva (Borges Neto), Lima, Jorginho e Souza; Vanderson, Sandro, Vélber (Júnior Amorim) e Magnum; Aldrovani e Jóbson (Alexandre Pinho). Técnico: Ivo Wortmann.

Árbitro – Héber Roberto Lopes (PR). Cartão amarelo -Sandro (Paysandu).

Público – 73.141 pagantes. Renda – R$ 827.201, 00. Local -Mineirão.

Alex, o grande nome da Raposa

Belo Horizonte –

O maior ídolo do Cruzeiro e principal destaque do time mineiro na temporada, o meia Alex, que ficou de fora da partida de ontem pelo terceiro cartão amarelo, era um dos mais felizes com a conquista do campeonato brasileiro. “É um título que marca história.” Chamando a atenção para a unificação dos títulos nacionais e a conquista estadual. “O principal é isso. O Corinthians quase conseguiu no ano passado e nós esse ano conseguimos o mineiro, a Copa do Brasil e o campeonato brasileiro. Isso nos dá uma satisfação enorme.” Em 2002, a equipe paulista venceu a Copa do Brasil, mas não conseguiu repetir o feito no Brasileirão.

Alex, que se sagrou pela primeira vez campeão brasileiro, não se conteve e dez minutos antes de a partida terminar iniciou uma volta olímpica no Mineirão, levantando a torcida no estádio. “Ali já estava definido, era só comemorar.”

Ao término do jogo, a euforia tomou conta dos cruzeirenses. “Muita gente disse que o nosso time era um cavalo paraguaio, mas está aí a resposta: cavalo paraguaio também é campeão”, desabafou o zagueiro Cris. “Belo Horizonte é azul”, gritou o lateral-esquerdo Leandro Silva.

Para o atacante Márcio Nobre, “venceu a equipe melhor estruturada, mais organizada”.

No início da noite, os jogadores, a comissão técnica e a diretoria iniciaram um desfile em carros do Corpo de Bombeiros pelas ruas da capital mineira. Hoje, todos deverão ser homenageados pelo governador de Minas, Aécio Neves, no Palácio da Liberdade. A festa da torcida azul tomou conta de Belo Horizonte. Milhares de torcedores saíram às ruas e se concentraram, principalmente, na Praça Sete e na região da Savassi, zona sul da capital.

Luxemburgo entra para história

Belo Horizonte –

O técnico Vanderlei Luxemburgo procurou, após o jogo, destacar o caráter “incontestável” do título conquistado pelo Cruzeiro.

Para Luxemburgo, que ontem sagrou-se pela quarta vez campeão brasileiro, superando Ênio Andrade e Rubens Minelli, ambos com três títulos, e se tornando o treinador que mais venceu a competição, o time mineiro provou sua superioridade durante todo o ano. Ele lembrou que é a primeira vez que um clube, em uma mesma temporada, levanta os troféus dos dois principais títulos nacionais, além do estadual.

“O título foi conquistado por merecimento. Não tem como contestar esse título. O Cruzeiro foi melhor do que as outras equipes ao longo do ano, não só no Brasileirão. Foi melhor na Copa do Brasil, foi melhor no campeonato mineiro. O Cruzeiro fez por merecer”, disse o treinador, durante uma tumultuada entrevista, que foi interrompida por banhos de água lançados pelo zagueiro Cris.

Como de costume, Luxemburgo preferiu ressaltar o papel dos jogadores na conquista. “Eles mostraram ao longo da competição muito equilíbrio, determinação, exemplo de profissionalismo”, observou. “Setenta por cento dessa conquista pertence aos nossos atletas.”

O técnico cruzeirense ainda ressaltou a estrutura do clube mineiro, que, segundo ele, foi fundamental para que o seu trabalho tivesse êxito. “É uma estrutura fantástica.”