Duisburgo – Em 28 partidas como técnico da Itália desde 8 de agosto de 2004, Marcello Lippi nunca repetiu uma escalação. Mas, se não houver um problema de última hora, essa escrita será quebrada domingo contra a França, no 29.º e mais importante jogo da Azzurra sob o seu comando. A atuação contra a Alemanha na semifinal o convenceu de finalmente ter encontrado a formação ideal.

A chance de uma mudança no time terminou quando o médico Enrico Castelacci comunicou que o zagueiro Nesta voltou a sentir a lesão muscular na coxa direita que sofreu logo no início da partida contra a República Tcheca, na última rodada da 1.ª fase. Sem o zagueiro do Milan, Materazzi voltará a formar dupla com Cannavaro. Os outros nove que entrarão em campo no Olímpico de Berlim são Buffon, Zambrotta, Grosso, Camoranesi, Gattuso, Pirlo, Perrotta, Totti e Toni.

Aos que esperavam uma chance para Del Piero ou Gilardino, que entraram bem e foram decisivos na vitória sobre os alemães, Lippi deixou vazar que os guardará para o momento oportuno. No esquema que utilizou contra Ucrânia e Alemanha, com quatro no meio-de-campo, Totti na ligação e um homem de referência na frente, ele considera que Toni é o atacante ideal por ser alto, corpulento e desgastar os zagueiros com suas trombadas. Gilardino e Del Piero, mais leves e velozes, são trunfos para quando a defesa francesa começar a dar sinais de cansaço. Camoranesi, que no Mundial não rendeu o que costuma render na Juventus, tem presença assegurada por ser um jogador que corre muito para o time e ajuda a proteger o lado direito.

Como a Itália chegou à final sempre com pelo menos uma alteração no time de um jogo para o outro, os jornalistas que o criticavam o técnico por nunca manter uma formação, agora, por superstição, acham que ele deveria fazer pelo menos uma mudança para ?não dar azar e manter o que vem dando certo?.

Mas a essa altura, depois das críticas que recebeu e de todos os obstáculos que superou, Lippi não acredita mais em sorte ou azar. Ele confia no grupo e na injeção de ânimo que veio com a vitória sobre os donos da casa, e na possibilidade de mudar o esquema durante o jogo com a certeza de que o time está pronto com qualquer fórmula. E sabe que, mesmo que o título não venha, será recebido com respeito e admiração pelos torcedores italianos por ter lhes devolvido o orgulho pela seleção num momento em que o futebol italiano chafurda num escândalo vergonhoso.

Sem ?visitas? ao gramado da final

São Paulo – Os finalistas da Copa do Mundo não treinarão no Estádio Olímpico de Berlim. Além de a prática não estar prevista na programação da Fifa, as chuvas que caíram nos últimos dois dias prejudicaram o gramado que servirá de palco para a decisão entre Itália e França, no próximo domingo, e precisa de pelo menos dois dias para que a drenagem tenha efeito prático. Nenhuma das duas seleções jogou na capital alemã neste Mundial.

Apesar disto, as seleções finalistas da Copa irão treinar na véspera do jogo decisivo, no mesmo dia em que viajam para Berlim. A seleção da Itália fica em Duisburgo, onde treina pela manhã, faz uma coletiva de imprensa à tarde, e viaja para a capital alemã na noite de hoje.

A seleção francesa viaja de avião, de Hannover para Berlim, à tarde. À noite, no Friedrich Jahn-Stadium, a França faz um treino aberto à imprensa por 15 minutos, para gravação de imagens.

O Olímpico de Berlim já recebeu 5 jogos nesta Copa, quatro pela primeira fase – Brasil 1 a 0 Croácia, Suécia 1 a 0 Paraguai, Equador 0 a 3 Alemanha e Ucrânia 1 a 0 Tunísia – e a partida entre Alemanha e Argentina, pelas quartas-de-final, que teve vitória alemã nos pênaltis depois de um empate por 1 a 1 no tempo normal.

Transpiração x inspiração

Dulsburg – A elegância e a qualidade do meia Zinedine Zidane são os sinônimos da seleção francesa, em contraste com a garra e determinação do volante Gattuso, representante do futebol da seleção italiana. Os jogadores deverão fazer um duelo à parte na final da Copa do Mundo, amanhã, em Berlim, apesar de o italiano negar que fará marcação pessoal no francês.

?Temos uma forma de jogar e nela não se encaixa uma marcação homem a homem?, disse Gattuso. ?Já joguei contra Zidane anteriormente, mas nunca o marquei pessoalmente. É claro que se ele cair pelo meu setor serei o encarregado, liberando Pirlo para avançar?, comentou o jogador, que não esconde a admiração pelo meia francês.

?Não se pode marcar Zidane. Mesmo que não esteja no melhor de sua forma, ele sabe controlar bem a bola. Apesar de ter 34 anos e estar fazendo a sua última partida, ele é um jogador que, por si só, vale o ingresso?, explicou Gattuso, que parece saber como pelo menos minimizar o ?Efeito Zidane?. ?O que é possível fazer é limitar a ação de Zidane, mas para isto é preciso um pouco de sorte e fazer o sinal da cruz?, brincou o volante.

Enquanto Zidane é a ?inspiração?, Gattuso é ?transpiração?, conforme explicou o próprio italiano. ?Tenho minhas qualidades, mas tenho que agradecer ao Milan por me darem a oportunidade de trabalhar uma hora a mais por dia para poder melhorar.?

Paredões da França e Itália podem garantir o título

Berlim – Os atacantes franceses raramente ficam na banheira, mas a defesa sim. Literalmente. Na antevéspera da decisão do título mundial, vários jogadores responsáveis por garantir a invencibilidade do gol de Barthez descansaram e fizeram sessões de hidromassagem. A começar pelo goleiro, que não enfrentou o calor da tarde e se refrescou no hotel que os Bleus fizeram como quartel-general em Hamerlin, desde o início de sua aventura na Alemanha. Os zagueiros Sagnol e Abidal tiveram também sombra e água fresca, assim como o volante Vieira, um paredão à frente da defesa.

O técnico Domenech optou por não expor demais os homens da retaguarda no momento decisivo da Copa. Como teve desgaste maior nos últimos jogos, o quarteto (além do atacante Malouda) ficou de molho, à espera das investidas de Totti, Toni, Gilardino ou Del Piero, que tem entrado no 2.º tempo ou na prorrogação. E Sagnol, como porta-voz improvisado do grupo, não prevê vida fácil para os atacantes, de ambos os lados.?São duas das melhores defesas da Copa?, frisou Sagnol, com base na evidência dos números. E sugeriu que talvez não seja um jogo de encher os olhos, justamente pela eficiência de franceses e italianos nesse setor.

Sagnol não está longe da realidade. A França levou só dois gols – um contra a Coréia do Sul (1 a 1), na 1.ª fase, e um diante da França (3 a 1, nas oitavas). O desempenho da Itália é melhor: só um gol, no empate de 1 a 1 com os EUA, na fase de grupos. Só superados pela Suíça, que não sofreu gol, mas caiu nas oitavas.

As duas defesas podem ser decisivas mais uma vez e não seria surpresa se ajudassem a levar a decisão para os pênaltis. Os franceses encontraram o equilíbrio com Barthez, antes contestado e quase trocado por Coupé, além de Sagnol, Thuram, Cisse e Abidal. A Itália não fica atrás. Buffon está na lista dos melhores do Mundial, assim como o zagueiro Cannavaro. Ambos são os pontos de referência da defesa da Azzurra, mas têm os imprescindíveis laterais Zambrotta e Grosso, e o zagueiro Materazzi. A Itália confia tanto na sua retaguarda que lembra que o único gol que levou foi contra – uma bola desviada por Zaccardo.

As defesas também vão desempatar o confronto Itália-França em mundiais. Os italianos venceram em 1938 (3 a 1, em Paris, no ano do bicampeonato) e em 78 (2 a 1, em Mar del Plata). Em compensação, perderam em 86 (2 a 0, na Cidade do México) e por 4 a 3 nos pênaltis, em 98 (depois de 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação, nas quartas-de-final, em Paris).