O governo dos Estados Unidos pede a extradição de José Maria Marin, ex-presidente da CBF, e sinaliza extraoficialmente que está disposto a fazer um acordo com o brasileiro caso haja disposição para colaborar nas investigações. Mas Marin vai declarar diante da Justiça que se opõe à extradição.

A solicitação dos EUA também é para que os demais seis cartolas da Fifa presos há um mês sejam enviados aos Estados Unidos, entre eles o ex-presidente da Conmebol, Eugenio Figueredo, e Jeff Webb, ex-vice-presidente da Fifa. Na entidade, a ordem é não falar sobre o caso. “Não vamos comentar”, declarou a Fifa, por meio de seus porta-vozes.

A reportagem apurou que a meta inicial da defesa de Marin será a de evitar sua extradição e que sua defesa será “conservadora”. Nos próximos dias, quando ele for levado diante de um juiz suíço, não terá de declarar se considera inocente ou não. Mas irá anunciar que rejeita a extradição, o que arrastará o caso por meses em uma batalha jurídica.

À reportagem, o FBI já deixou claro que espera contar com a cooperação de Marin para delatar outros dirigentes esportivos que estiveram envolvidos no escândalo. Nesta semana, um novo recado foi passado: se Marin aceitar colaborar, parte de sua pena seria revertida em prisão domiciliar, justamente aproveitando do fato de que o brasileiro tem um apartamento em Nova Iorque.

Do lado da defesa de Marin, se a extradição não for evitada, o passo seguinte seria o de reduzir ao máximo o período em que o brasileiro passaria numa prisão norte-americana, inclusive enquanto é alvo de um processo.

Nesse caso, existem duas opções: fechar um acordo de delação premiada, nos moldes estabelecidos com o empresário brasileiro J. Hawilla, ou negociar o pagamento de multas milionárias. Nesse caso, Marin poderia cumprir parte da pena em seu apartamento, com certa permissão para sair.

Os norte-americanos já deixaram claro: não querem terminar a investigação em Marin. A meta, por exemplo, é a de obter informações sobre o papel de Marco Polo del Nero, Ricardo Teixeira e os contratos comerciais, como o da CBF com a Nike.

De qualquer forma, o processo de extradição promete ser longo e advogados envolvidos no caso revelaram à reportagem que acreditam que Marin poderá ficar na prisão na Suíça até o final do ano. Nos Estados Unidos, ele foi indiciado por corrupção, lavagem de dinheiro, fraude e por ter recebido milhões de dólares em subornos relativos a contratos comerciais na Copa de 2014, no Brasil, e na Copa América.

Se condenado, Marin poderia pegar até 20 anos de prisão nos EUA. A partir de hoje, a Justiça suíça o convocará para uma audiência, interrogando o brasileiro sobre os crimes indicados pelos norte-americanos. “Vamos avaliar a melhor forma de defesa”, declarou Georg Friedli, advogado do brasileiro na Suíça e que rejeita valores que aliados de Marin estariam divulgando no Brasil, segundo os quais os seus honorários seriam de quase R$ 1 milhão.

Berna dará 14 dias para que seus advogados contestem a extradição. Esse prazo poderia ser ampliado por mais 14 dias, se solicitado.

A Justiça da Suíça então precisará de algumas semanas para tomar uma decisão sobre a extradição. Ela apenas poderá ser realizada se a Justiça em Berna considerar que os crimes indicados pelos norte-americanos também são considerados como crimes na Suíça. Numa primeira avaliação realizada no momento da prisão de Marin, porém, Berna indicou que existia “base” para uma extradição.

Caso ela seja aprovada, Marin tem ainda duas possibilidades de apresentar um recurso, num processo que promete se arrastar.

O primeiro seria no Tribunal Penal da Suíça, num processo que poderia levar dois meses. Caso Marin seja uma vez mais derrotado, seus advogados ainda podem recorrer ao Supremo Tribunal da Suíça, o que arrastaria o caso por mais três meses. Enquanto isso, Marin dificilmente será autorizado a cumprir prisão domiciliar, apesar dos 83 anos de idade.

Na semana passada, a reportagem revelou com exclusividade que outro cartola, Figueredo, entrou com um recurso para aguardar a extradição em liberdade condicional. Mas o pedido foi negado, o que mandou um sinal claro aos demais advogados dos indiciados de que seus clientes poderiam ter o mesmo destino.

ACORDO – Se nada funcionar, a opção de Marin será abrir um diálogo com as autoridades norte-americanas para saber em quais condições uma eventual pena poderia ser reduzida.

Segundo um comunicado do Departamento da Justiça da Suíça, o pedido de extradição foi entregue pela embaixada dos EUA em Berna na noite da quarta-feira e “dentro do prazo estabelecido pelo tratado bilateral”.

“Os pedidos estão baseados no mandado de prisão emitido no dia 20 de maio de 2015 pela Procuradoria dos EUA em Nova Iorque, que investiga a suspeita de corrupção avaliada em US$ 100 milhões envolvendo altos funcionários da Fifa. Em troca, esses suspeitos de terem pago propinas – representantes de empresas de mídia e de promoção – receberam direitos para torneios de futebol nos EUA e na América Latina. Esses crimes podem ter sido concordados ou preparados nos EUA, e os pagamento teriam sido feitos por meio de bancos americanos”, explicou o comunicado de imprensa do governo suíço.

Apesar de estar com 83 anos, Marin não pediu para deixar a prisão para esperar pela extradição em um hospital. Pelas leis suíças, é o médico da penitenciária que determina se um preso tem ou não condições de aguardar a extradição na cadeia. Há duas semanas, Figueredo chegou a alegar problemas de saúde. Mas a Justiça suíça barrou qualquer transferência, alegando que suas condições o permitiam continuar na prisão.

Na prisão, ele tem direito a uma hora de caminhada por dia e está em uma cela individual. Não usa uniforme e não está autorizado nem a falar pelo celular e nem a ter internet. Mas pode assistir televisão.