Quando se pede para citar um grande nome do futebol feminino brasileiro não há dúvidas de que Marta é unanimidade, mesmo que existam outras mulheres de referência no esporte. Mas, e se a pergunta fosse feita em relação ao futebol masculino? Certamente, em qualquer roda de conversa, seriam apontados, pelo menos, 10 ou 20 nomes de craques memoráveis.

Ainda enfrentando barreiras para atrair o interesse pela modalidade no próprio país da bola nos pés, o futebol feminino terá neste ano um grande incentivo para, quem sabe, começar a mudar esta realidade. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tornou obrigatório que todos os 20 participantes da Série A do Campeonato Brasileiro se enquadrem no Licenciamento de Clubes e, assim, mantenham um time de futebol feminino adulto e de base.

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Em Curitiba, a determinação vale só para o Athletico, único time da capital paranaense que figura na Primeira Divisão. E para estar de acordo com a exigência, o Rubro-Negro fez uma parceria com o Foz/Cataratas, que levará o escudo do Furacão em sua camisa nesta temporada. Até o ano passado, era o Coxa que mantinha relação com o time do Oeste.

Com um calendário que contempla o Campeonato Brasileiro e o Estadual, o Foz, único representante paranaense na Série A1 do Brasileirão, estreia no dia 17 de março contra o Santos. O apelido ‘Poderosas do Foz‘ não é por acaso, já que o time chega para brigar de frente com os grandes. Fundado em 2010, o Foz Cataratas Futebol Clube, que passa a ser conhecido como Foz Cataratas/Athletico, é heptacampeão paranaense, campeão brasileiro de 2011, vice-campeão da Libertadores da América de 2012 e tem outras participações expressivas em disputas no Brasil.

Porém, mesmo com tantas credenciais que levam o Foz ao favoritismo para o Brasileirão, o presidente do clube, Gezi Goncalves Damaceno Junior lamenta que a equipe não consiga se manter com recursos próprios.

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“O Foz é time que tem destaque no cenário nacional, é altamente campeão com resultados expressivos, mas financeiramente não tem retorno”, explicou ele.

E por esse motivo a parceria com o Rubro-Negro foi comemorada. O Athletico dará um suporte financeiro, além de disponibilizar materiais de jogos e treinamentos. Outra vantagem do acordo é que o nome do Furacão deve render mais patrocínios à equipe do Oeste Paranaense, o que ajudará a manter a estrutura e custos fixos.

“Todas as nossas atletas são profissionais registradas e contam com moradia, alimentação, transporte, bolsa de estudos em faculdade e plano de saúde. Sabemos que não são todos os times que tratam assim suas jogadoras e esperamos que isso mude e a modalidade seja cada vez mais valorizada e respeitada”, explicou o mandatário.

Expectativa x realidade

Apesar de o Foz Cataratas ser um dos poucos clubes do país a oferecer muitos benefícios visando o bem-estar de suas profissionais, ainda há um abismo financeiro quando comparado ao futebol masculino. Todos o custos com as atletas hoje giram em torno de R$ 70 mil por mês. O Avaí, time possivelmente de orçamento mais baixo da Série A neste ano, tem uma folha salarial que deve girar em torno de R$ 680 mil, dez vezes mais do que as meninas.

Mesmo com a parceria, o time continuará baseado em Foz do Iguaçu, mas para quem quiser ver de perto o desempenho das atletas aqui na capital, a equipe vai mandar pelo menos dois jogos do Brasileirão na Arena da Baixada. Ainda não há data definida para as partidas, pois o Athletico ficou de verificar a disponibilidade para uso do estádio. A parceria com o Furacão é de um ano e pode ser ampliada dependendo de como será a temporada, mas mesmo breve é vista com bons olhos por Damaceno.

“Quanto mais times tradicionais passarem a estampar seus escudos nas camisas do feminino, mais a modalidade vai ser alavancada. Espero que grandes clubes entendam a importância do futebol feminino e passem a fazer parte”, detalhou o presidente.

Time de craques

A zagueira Bruna Amarante, de 34 anos, é um dos nomes de peso no elenco. Com passagens por times de todo o mundo, como Palmeiras, Vasco, FC Biik, do Cazaquistão, onde disputou a Liga dos Campeões da Europa, e Angels FC, de Trinidad e Tobago, ela está no Foz desde 2017.

Natural de Petrópolis, no Rio de Janeiro, a atleta teve que sair de sua cidade em busca de seu sonho. Aos 18 anos se mudou para São Paulo para ingressar no Saad e foi a partir daí que conseguiu o que poucas meninas conseguem: a profissionalização.

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“O futebol feminino também é uma forma de salvar algumas meninas de histórias tristes. Saber que terá investimento para que essas atletas contem com estrutura, alimentação e treinamento de qualidade é louvável. É uma esperança para tantas que sonham”, disse.

Atualmente, só a seleção brasileira, de Marta e cia, tem destaque no país. Expectativa é que a realidade mude. Inclusive aqui em Curitiba. Foto: Divulgação/CBF
Atualmente, só a seleção brasileira, de Marta e cia, tem destaque no país. Expectativa é que a realidade mude. Inclusive aqui em Curitiba. Foto: Divulgação/CBF

A defensora se naturalizou africana e defende a seleção de Guiné Equatorial, onde conquistou muitos feitos, como a Copa África. Com isso, o time ganhou vaga para disputar a Copa do Mundo Feminina da Alemanha em 2011 e as Olimpíadas do Rio em 2016. Ao encarar o Brasil no Mundial de 2011, Bruna foi uma das responsáveis por segurar a rainha Marta, seis vezes eleita a melhor jogadora do mundo pela FIFA. “Foi difícil, porque ali ela já era cinco vezes melhor do mundo”, lembrou rindo a atleta que gostaria de ter mais competições para disputar.

O Foz Cataratas ainda tem duas jogadoras da seleção paraguaia e uma atleta com passagem nas categorias de base da seleção brasileira.

Qual o futuro?

Na cobertura do futebol feminino desde 2015, a jornalista esportiva Elaine Trevisan, de São Paulo, gostaria que o incentivo à prática do esporte não acontecesse por imposição. Também atuando como repórter e até narradora em jogos do masculino, ela acredita que a maior mudança que irá acontecer se dará por conta da visibilidade que a modalidade passará a ter.

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“Quando falamos em obrigatoriedade, parece algo enfiado goela abaixo e não soa tão bem. Mas acredito que seja um mal necessário. Com a obrigatoriedade, equipes que gastam milhões em jogadores terão que dar atenção ao futebol feminino. A medida se faz necessária para que a modalidade possa se desenvolver. Acredito que essa obrigatoriedade não mexe apenas com clubes e organizações esportivas, mas também atinge a mídia e patrocinadores, que vão perceber que as mulheres jogam futebol profissionalmente”, detalhou a profissional.

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Ela conta que já ouviu muitos comentários negativos sobre o esporte. “É muito fácil criticar uma modalidade, dizer que não é técnica e que o jogo é feio, sem considerar que ela é feita de muito suor e sem nenhum incentivo. Espero que um dia não seja mais necessária a obrigatoriedade e que esse incentivo ao futebol feminino seja espontâneo e feito em prol do esporte. E no país do futebol, crianças – independente de gênero – vão poder sonhar em se tornarem jogadores da paixão nacional”, arrematou.

Trio de Ferro

Sem a obrigatoriedade de se investir na modalidade, as outras equipes da capital não têm nenhuma perspectiva de montar seus times femininos. No Paraná Clube não há a modalidade no campo, mas uma equipe de futebol7, que está tendo um elenco montado pra disputar torneios oficiais.

Paraná Clube está montando um time feminino de fut7. Foto: Reprodução/Instagram
Paraná Clube está montando um time feminino de fut7. Foto: Reprodução/Instagram

Já o Coritiba, que era o parceiro do Foz Cataratas até o ano passado, informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que momentaneamente encerrou o projeto por questões financeiras. Mesmo não sendo uma obrigação atual, o clube entende a importância e prevê retomar o futebol feminino em breve, assim que ele possa ser integrado a administração financeira.

Sem passado

Apesar de o Trio de Ferro já ter contado com times femininos nas décadas de 1990 e 2000, as equipes nunca foram profissionalizadas. O jornalista Jorge Luiz da Silva, que cobriu o esporte pela Tribuna do Paraná de 2005 a 2013 lamenta nunca ter visto os três clubes na versão feminina de maneira profissional.

“Durante todo o tempo em que trabalhei com o futebol feminino, nenhum do trio teve equipe profissional de mulheres, somente times de exibição, que faziam preliminares antes dos jogos masculinos”, recordou.

Jorginho se diz pessimista em relação ao futuro do esporte e não crê que a obrigatoriedade vá mudar de imediato a realidade. “No Brasil, acho que vai ser tarefa árdua o feminino se desenvolver. Foram tantas foram as promessas das autoridades do esporte e nada mudou até hoje”, finalizou.

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