Giselle Ulbrich
Investigador Alfredo Muller Neto e Lyon, inseparáveis.

Os Jogos Pan-Americanos contarão com um ?policial? paranaense muito bem preparado. Em pleno auge de sua forma física, o pastor alemão Lyon, de 4 anos, junto com seu treinador, o investigador e cinotécnico – quem estuda cães pelo aspecto técnico – Alfredo Muller Neto, trabalhará na segurança do evento. Ele é o primeiro e único cão policial, em todo o Paraná, que possui certificado da Secretaria Nacional de Segurança – Senasp – para atuar em ações de segurança nacionais. Cão e treinador, pertencentes à polícia de elite do Paraná – o Centro de Operações Policiais Especiais (Cope) – desembarcam no Rio de Janeiro no próximo dia 2.

?O Lyon é o único cão com dois empregos. Além de ser cão de polícia – para defesa do policial e ataques, ele também tem faro para drogas. Não tenho notícia de que haja no Brasil outro cão com duas habilidades. Em geral, eles fazem uma coisa só?, orgulhou-se o treinador.

De uma ninhada de seis pastores alemães puros, somente Lyon desenvolveu o duplo dom. Alfredo não sabe exatamente com o que nem onde irão atuar durante os jogos. Para evitar vazamento de informações, as ações de segurança serão divulgadas ?em cima da hora?.

Ataque

Lyon fez uma demonstração para à Tribuna, sobre quase tudo o que aprendeu e sabe fazer. Começou mostrando sua força física. Ao comando de Alfredo, subiu e desceu do teto da viatura, pulou obstáculos com facilidade. Da mesma forma, entrou e saiu do carro pela janela, com apenas um pulo certeiro. O banco do carona é o posto que ocupa, enquanto Alfredo dirige.

O treinador simulou um patrulhamento e chamou um figurante, o cinotécnico Marcelo Costa, para fazer o papel de vilão. Ao ver a viatura com sirene ligada, Marcelo correu soltando bombinhas, simulando tiros. Assim que Alfredo ordenou, Lyon pulou de seu posto e em poucos segundos alcançou e imobilizou o figurante. Só soltou à ordem o treinador.

O controle de uma situação nem sempre necessita do ataque do cão. Apenas a presença do animal já intimida. Alfredo exemplifica a vez que foi chamado a controlar um princípio de rebelião no Centro de Triagem 2, em Piraquara. Apenas escutando os latidos de Lyon, os presos se acalmaram e voltaram às celas, pois imaginaram que do lado de fora estariam policiais fortemente armados os aguardavam.

Drogas

Lyon tem capacidade de farejar maconha, crack, cocaína e haxixe. Na demonstração, o cão foi solto no estacionamento do Cope, onde há dezenas de carros parados numa extensa área entre árvores. Ao receber o comando de procura, o cão facilmente reconheceu a direção em que estavam as drogas. Depois de farejar o chão e alguns veículos, pulou dentro de um automóvel e encontrou o pacote de entorpecentes debaixo do banco traseiro.

Cão bem treinado, cão socializado

Giselle Ulbrich
Lyon, treinado pra proteger e ajudar o trabalho do policial.

Todos os comandos que Alfredo Muller dá aos cães são em alemão. ?É um idioma forte, imperativo, que impõe respeito e obediência?, revelou. O auxiliar de Alfredo, o cinotécnico Marcelo Costa explica que um bom cão é equilibrado, não ataca desnecessariamente e sabe se comportar em cada situação.

Ele tem que estar preparado em todos os sentidos, desde os mais básicos, como saber a hora e local de fazer suas necessidades, até os mais complexos, como o momento certo de atuar numa situação policial.

Mas não é todo cão, por mais pura raça, que pode atuar como policial. Eles precisam possuir, em instinto, algumas atribuições. Algumas, por exemplo, são não ter medo de barulho e tiros. Tem que se adaptar a situações estressantes, pois pode salvar a vida de vítimas e policiais. Algumas raças são mais utilizadas no trabalho policial, como labradores e pastores alemães.

Adestramento

O treinamento para faro de drogas começa com um ano e meio, e para esse requisito, o cão deve ser brincalhão. Enquanto o homem tem apenas 40 milhões de células olfativas, revela o cinotécnico Marcelo Costa, o cão possui 245 milhões. Mas deve ser bem treinado para saber usá-las.

No caso de Lyon, ele consegue encontrar drogas até mesmo se estiverem enterradas.

Já as práticas de ataque começam quando o cão atinge a maturidade, em geral, aos dois anos. No entanto, ao contrário do que a maioria das pessoas imaginam, o cão não é treinado para ser agressivo.

Ele é adestrado para atacar somente quando for necessário e proteger o policial e a sociedade. Lyon deu exemplo disso durante demonstração à Tribuna. À ordem de Alfredo, atacou o auxiliar. Após nova orientação, largou seu alvo. Dois minutos depois, repousava tranqüilamente ao lado do auxiliar, sem atacá-lo. ?Não existe cão destemido. Existe cão socializado?, explica Marcelo. A aposentadoria dos animais-policiais ocorre, em geral, aos 8 anos de idade.

Vida dedicada aos cães

O investigador e cinotécnico Alfredo Muller Neto atua treinando cães para a polícia há 10 anos. Em 2003, criou o canil do Cope, que hoje possui cinco cães. Em sua casa, ainda treina outros três animais. Ele foi o primeiro, em todo o Paraná, a tomar essa iniciativa. Nesse tempo, também auxiliou na criação do canil da Polícia Rodoviária Federal no Paraná. Também treinou Coca, uma labradora especialista em encontrar cocaína (daí vem seu nome), que trabalhará em Foz do Iguaçu. Também adestrou Pantera, uma labradora preta que atuará na Força Aérea Brasileira.

Apesar da extrema dedicação ao trabalho e aos cães, Alfredo não possui todos os incentivos que precisa para fazer um trabalho ainda melhor. Além do treinamento, ele próprio limpa os canis, cuida da saúde, higiene e alimentação dos cachorros. O treinador não possui finais de semana, feriados nem férias. ?Não há quem cuide deles na minha ausência. Venho vê-los todos os dias?, contou Alfredo.

Além do árduo e exemplar trabalho, ele ainda arranja tempo para boas ações. Quando algum amigo veterinário precisa de um cão para doação de sangue, Alfredo disponibiliza seus ?amigos? para salvar a vida de outros animais. Também pega os cães que já se aposentaram do trabalho policial e os leva para asilos, para alegrar as pessoas de mais idade. ?Os velhinhos choram com o carinho dos cães. Às vezes, esta é sua última alegria?, emociona-se o treinador.

Separação

Alfredo não se vê separado de seus fiéis amigos. Ele diz que numa situação policial em que um de seus cães foi atacado por um Rotweiller, só conseguiu apartar o ataque dando três tiros no Rotweiller, que morreu em seguida. ?Mesmo não sendo um de meus cães, chorei muito?, disse.