Rivaldo é um pai superprotetor, daquele tipo que liga toda hora para saber onde está seu filho, o Juninho. Foi um meia talentoso, melhor do mundo e tudo, mas marca o filho como um beque de fazenda. Ainda hoje, quando o menino já tem 20 anos e namorada, o zagueiro ainda fica em cima. Na infância, Juninho não fez nada que justificasse a preocupação. Levou suas broncas, mas diz que surra, nunca. Nem palmada. Mesmo assim, Rivaldão não desgruda nem do jantar com os amigos. Essa relação trivial muda de figura quando os dois entram em campo. E ganhou uma dimensão histórica no jogo Mogi Mirim x Macaé, na última terça-feira, pela Série B do Campeonato Brasileiro.

Pai e filho, jogando lado a lado, tentavam tirar o Mogi Mirim da lanterna da competição. Não era a primeira vez que atuavam juntos. Mas desta vez conseguiram uma sintonia que nenhum beque de fazenda conseguiria parar. Coisa de DNA mesmo.

Rivaldo deixou o filho livre para fazer o que ele próprio o havia ensinado desde sempre. Rivaldinho fez dois gols e sofreu o pênalti cobrado pelo pai. Placar final: 3 a 1. Tudo isso aconteceu no estádio Romildo Vitor Gomes Ferreira, pai de Rivaldo e avô de Rivaldinho. Não, o avô não foi jogador, aí seria demais.

A história particular virou verbete da história do futebol. “Acho que entrei para a história. Já tinha ouvido falar de pai e filho jogando juntos, mas nunca ouvi de pai e filho fazendo gol em uma partida oficial”, disse o jogador de 43 anos.

Rivaldo não exagera. Já é carne de vaca pai e filho jogarem juntos. No início dos anos 2000, o finlandês Alexei Eremenko atuou ao lado de seu filho, Alexei Junior. Henrik Larsson, ex-Celtic e Barcelona, atuou com o pupilo Jordan, em 2013, pelo time sueco Högaborg. Conhecido por suas passagens por Chelsea e Barcelona, Eidur Gudjohnsen atuou ao lado de seu pai, Arnór, na Islândia. Mas os dois fazerem gol no mesmo jogo? No Brasil, é inédito em jogos oficiais. No mundo, o feito só foi repetido pelos Eremenko em 2004.

ESTILOS – Rivaldinho conta que seu jeito de jogar é bem diferente do pai. Ele é um atacante de área, preciso na finalização e que se inspira em Adriano e Luis Fabiano. “Também sei sair da área e armar”, completou.

Ele ainda está no início de sua linha do tempo. Depois de passar pelas categorias de base do Corinthians sem grande destaque, tornou-se profissional no próprio Mogi Mirim. Nem sempre o parentesco famoso trouxe glórias como nesta semana. “Quando eu estava no sub-20, quase desisti de jogar por causa da pressão. Diziam que eu só jogava porque era filho do Rivaldo. Foi meu pai, que estava lá no Usbequistão, que falou para eu continuar. Hoje superei isso”.

Para o psicólogo do Esporte Rodrigo Scialfa Falcão, as comparações vão continuar. “Existe a imensa pressão nos filhos dos grandes atletas. A cobrança é para que os filhos sejam tão fora de série quanto seus pais. Para a torcida e imprensa, não basta que eles sejam modestos, sempre existirá ‘suspeitas’ de facilitação na carreira devido ao parentesco famoso”, avaliou.

Rivaldo pai era o meia clássico, aquele que pensa o jogo, mas também com talento para finalizar. Defendeu Corinthians, Palmeiras, La Coruña e Barcelona, quando chegou ao auge entre 1998 e 2002. Foi o melhor do mundo em 1999 e conquistou o pentacampeonato com a seleção. Depois, Milan, Cruzeiro, futebol grego e asiático, São Paulo e São Caetano, já em viés de baixa. “Meu pai sempre fala que o atacante tem de se entrosar bem com o meia. Um depende do outro. Ele conta que bastava um olhar do Ronaldo Fenômeno para ele saber o que tinha de fazer”, contou.

O feito dos dois se tornou ainda mais importante porque dificilmente será repetido. Rivaldo pai sofre com uma sinovite no joelho direito, a popular “água no joelho”. Imagens divulgadas pelo próprio Mogi Mirim mostram Rivaldo se contorcendo em uma maca para aguentar a agulhada. “Ele está jogando na raça mesmo. É um sacrifício que faz por amar o clube”, contou o filho.

Rivaldo havia anunciado a aposentadoria em março de 2014, em um adeus discreto, bem ao seu estilo. Só tinha ido tão longe, aos 42 anos, para jogar com o filho. Mas voltou neste ano para tentar salvar a equipe do rebaixamento. Depois de acumular a função de presidente e atleta do Mogi Mirim desde 2008, o pai jogou à toalha no meio de uma grave crise financeira. Um grupo de empresários assumiu o clube. Ele continuará como consultor e atleta, até novembro. Depois, sabe-se lá.

O vínculo de Juninho termina no mês que vem e ainda não foi definida a renovação. Mas ele está otimista. Seu telefone toca direto, mas não é só pai superprotetor. “Esse jogo teve uma grande repercussão. Meu telefone não para de tocar”.