Yokoham (AE) – O repentino sucesso na Copa do Mundo pode mudar o destino de vários jogadores turcos. O assédio dos empresários internacionais começou ainda no Osaka International Stadium, logo após a vitória sobre Senegal. Os atacantes Hasan Sas e o artilheiro Ilhan Mansiz (autor do gol de ouro que classificou a equipe para a semifinal, contra o Brasil) só não foram abordados na saída da delegação turca porque um dos auxiliares do técnico Gunes Senol teve o cuidado de isolar os dois jogadores do assédio.

Em Saitama – onde os turcos chegaram ontem – não foi diferente. Alguns empresários fizeram outra tentativa, mas de novo não tiveram acesso aos jogadores. Sentindo que a principal ameaça à Turquia na Copa do Mundo pode vir de fora, o técnico Gunes Senol manteve os seus jogadores ‘trancados’ na concentração.

A medida vale também como represália à imprensa de seu País, que há meses vem fazendo uma forte campanha contra o trabalho de Senol. Os jornalistas vem denunciando certos privilégios que o treinador turco tem dado à maior estrela da seleção, o atacante Hakan Sukur. Pesa ainda contra o treinador a suspeita de que ele escala determinados jogadores de acordo com as preferências de Sukur.

Tido como a grande decepção turca na Copa, na semana passada Hakan Sukur fez um desabafo que gerou uma grande polêmica interna na sua seleção. Numa entrevista à imprensa japonesa, logo após o jogo contra o Japão (vencido pela Turquia) ele acusou os seus companheiros sem o menor constrangimento. “Como posso fazer gols se eu não recebo a bola”, disse Sukur, numa tentativa de justificar a falta de gols. Em seguida, ainda concluiu: “Não tenho culpa se os jogadores que armam o time jogam só pensando neles, tentando atrair as atenções dos empresários”.

As palavras de Sukur chegaram ao elenco e provocaram um grande mal-estar entre os jogadores. Alguns deles teriam exigido de Senol um melhor aproveitamento de Mansiz. Coincidência ou não depois da conversa, Mansiz passou a merecer mais respeito de seu treinador. Contra Senegal, entrou no lugar de Sukur e fez o gol que classificou a equipe para a semifinal contra o Brasil.

Mansiz, principal artilheiro da última temporada, com 20 gols, não entra abertamente nessa briga. Abordado pelos repórteres turcos após a vitória sobre Senegal, o atacante literalmente capitulou. Um jornalista ainda tentou sem sucesso convencê-lo a falar sobre o problema, perguntando se a reserva não o incomodava, mesmo sendo o principal goleador da Turquia. A resposta, porém, foi sobre outro assunto. “Acho que temos poucas chances contra o Brasil, mas um jogo precisa ser jogado”.

Mansiz, no entanto, só não fez segredos sobre os seus sonhos. Admitiu que gostaria de jogar no futebol europeu e que a sua preferência seria por algum clube da Alemanha. Porém, ao perceber que na entrevista coletiva havia também muitos jornalistas italianos, tentou disfarçar.

“Só não acho que agora não é o melhor momento de pensar numa transferência. A Turquia vive um momento inédito e não deve pensar em outra coisa além de tentar chegar à sua primeira final de Copa do Mundo”.

Sentindo que as atenções estão cada vez maiores sobre a sua equipe, o próprio Senol Gunes parece estar se convencendo de que a Turquia não pode desprezar um artilheiro como Mansiz. Neste domingo, mesmo sabendo que Hakan Sukur não recebeu o segundo cartão amarelo – e que portanto tem condições de enfrentar o Brasil – Mansiz deve ser mantido na equipe.

Mas isso ele só vai decidir a partir do treinamento marcado para hoje, às 20h (horário japonês), em Saitama. “Farei o que for melhor para a equipe”, resumiu o chefe.

Gunes: de vilão a herói

“Vinte e quatro gigantes”, foi o título do jornal Radikal, após a vitória da seleção turca sobre Senegal. O título falava dos 23 jogadores e do técnico Senol Gunes. Mais justo, seria se a manchete pedisse desculpas ao treinador pela série de pesadas críticas que recebeu após o início titubeante no Mundial.

Sair do céu para o inferno não é uma sensação nova para Senol Gunes. É a segunda vez que passa por isso, desde que assumiu a seleção em junho de 2000.

A primeira foi na fase final das eliminatórias. A Turquia caminhava tranqüilamente para o primeiro lugar e teve dois tropeços terríveis em casa, empatando por 3 a 3 com a Macedônia e sofrendo uma virada por 2 a 1 para a Suécia. Recuperou-se com uma vitória por 3 a 0 sobre a Moldávia, insuficiente para o primeiro lugar. As críticas a Senol só terminaram quando a Turquia passou tranqüilamente pela Áustria na repescagem, com vitórias por 1 a 0 e 5 a 0.

Classificação garantida, Senol Gunes mostrou o lado forte de sua personalidade. Na entrevista coletiva, criticou os jornalistas e disse que gostaria que os próximos técnicos da seleção não passassem pelo que passou. Houve quem pensasse que essas palavras fossem um pedido de renúncia, mas estavam enganados. “Eu nunca desisto. Um turco nunca desiste”, costuma dizer Gunes.

No Mundial, mesmo com seu time sendo prejudicado contra o Brasil – só perdeu com um pênalti inexistente – foi novamente alvo de críticas que beiraram à ofensa. Agora, é tratado como um gigante.