Fabiano não aceitou a decisão do juíz.

As equipes do futebol paranaense não entraram em campo na última terça-feira, mas o futebol do Estado viu-se envolvido em uma grande confusão, protagonizada pelo árbitro Marcos Mafra e pelo goleiro mineiro Fabiano. O episódio aconteceu nos minutos finais da partida entre América-MG e Avaí, válida pela Série B.

O América-MG vencia por 1 a 0 quando Mafra assinalou um pênalti legítimo contra a equipe de Minas. Revoltados, os atletas mineiros partiram para cima do árbitro, que advertiu Fabiano com o cartão amarelo. Depois disso, visivelmente transtornado, o goleiro partiu para a agressão. Na seqüência, acabou imobilizado por policiais e conduzido ao 5.º Distrito Policial de Florianópolis. Marcos Mafra seguiu para a mesma delegacia mais tarde para registrar queixa.

Segundo Mafra, o que aconteceu na noite de terça ainda não tem explicação. “Até agora não entendo o porquê. Assinalei o pênalti legítimo e avisei que se partissem para cima de mim seriam advertidos. Dei o amarelo para o Fabiano e ele veio para cima”, declarou.

A explicação de Fabiano é distinta. Segundo informou o assessor de imprensa do América, Rogério Bertho, o goleiro teria sido agredido verbalmente. “Ao mostrar o cartão amarelo, o árbitro se dirigiu de forma desrespeitosa ao atleta, que acabou perdendo a cabeça”, disse Bertho. Os jogadores mineiros já estavam bastante injuriados com Mafra, que por ter sido atleta do Avaí era acusado de ser tendencioso pelos atletas.

Arrependimento

Ontem, ao chegar a Belo Horizonte, Fabiano confessou estar arrependido do que fez. “Ele sabe que agiu sem pensar. Ele jamais teve qualquer atitude dessa e sempre foi um exemplo de liderança dentro e fora de campo. O que aconteceu foi lamentável”, completou o assessor de imprensa. No entanto, a informação é controversa. Em matéria veiculada pela Agência Estado, há uma referência a um ato tresloucado protagonizado pelo goleiro em 1997, em um de seus primeiros jogos como profissional, no dia 5 de março.A Macaca perdera o jogo para a Francana, por 4 a 2, pelo Campeonato Paulista da Série A2, segunda divisão. Revoltada com duas falhas do goleiro, a torcida o tomou como alvo. Fabiano, então, partiu em direção do alambrado e saltou em cima dos torcedores, enfurecido. A situação foi contornada por seguranças do clube e a história ficou por isso mesmo.

Indagado sobre as declarações do goleiro, o árbitro garantiu que ele está usando as palavras como defesa. “É uma forma de justificar o que ele fez. O que fiz foi avisar que se alguém partisse para cima de mim, mostraria o cartão. E foi a única coisa que fiz”, disse Mafra.

O caso envolvendo goleiro e árbitro vai ser encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva e o goleiro poderá pegar uma pena de 30 a 360 dias de suspensão pela agressão. “Não tenho nada contra o goleiro, mas algo terá de acontecer para que sirva de lição e a história não se repita. Se acontecesse com um árbitro, certamente seria proibido de exercer suas funções”, disse Mafra. Na súmula do jogo, o árbitro descreveu detalhadamente a sua versão do ocorrido, inclusive ressaltando que foi chamado de louco e tendencioso por Fabiano.

Craques também bateram

A agressão aos árbitros não é comum no futebol, mas existem casos envolvendo muitos craques brasileiros. Na década de 60, por exemplo, Nilton Santos, a “Enciclopédia do Futebol”, mandou Armando Marques, atual diretor da Comissão da Arbitragem, a nocaute após lhe dar um violento direto no Pacaembu, num empate, por 3 a 3, entre Corinthians 3 x 3 Botafogo-RJ, em 1964.

Os dois voltaram a se estranhar quatro anos depois no Maracanã. Na época, Nilton Santos era dirigente do Botafogo num jogo contra o Atlético-MG. O ex-craque partiu para cima de Marques acertando-lhe um direto no queixo. Armando se esfacelou no túnel, sendo amparado pelo bandeira José Luis Barreto.

Até jogadores calmos às vezes perdem a cabeça. Em 1968, Ademir da Guia, “O Divino”, inconformado com um pênalti anotado por Arnaldo César Coelho, agora analista de arbitragem da TV Globo, desferiu um bico na canela do juiz, que, cercado por outros jogadores, teve até seu bolso da camisa rasgado por Tupãzinho. O curioso é que apenas Tupãzinho foi expulso do gramado e a agressão do “Divino” passou despercebida.

Outro caso famoso envolveu o lateral-esquerdo tricampeão do mundo Everaldo num jogo do Grêmio contra o Cruzeiro. Inconformado com a marcação de um pênalti inexistente anotada pelo árbitro paulista José Faville Neto, o jogador insistiu nas reclamações e foi expulso. O árbitro, que pertencia ao quadro da Fifa, foi nocauteado com um direto no queixo, no dia 19 de outubro de 1972. Faville ficou desacordado alguns segundos e continuou apitando a partida, segurando um lenço para enxugar o ferimento no rosto.

O também tricampeão, o zagueiro Brito, perdeu a cabeça no dia 31 de outubro de 1971, quando o Botafogo perdeu para o Vasco, por 1 a 0 (gol de Buglê). Brito foi expulso e, em seguida, desferiu um soco no estômago de José Aldo Pereira. O ato custou ao zagueiro um ano de suspensão.

Nem sempre os agressores foram punidos à altura. Num jogo no Parque São Jorge, no início dos anos 70, Roberto Rivellino deu um bico na canela do bandeira Mário Molina, num jogo do Corinthians contra o Botafogo de Ribeirão Preto. O “Reizinho do Parque” foi suspenso por apenas cinco jogos. O voto de minerva na Junta de Justiça Desportiva foi de Ari Silva, que transformou a agressão em “cutucão”. Um escândalo.

Até em amistoso os nervos ficam à flor da pele. Na estréia de Rivellino no Fluminense, em 1975, num jogo contra o seu ex-clube o Corinthians, o agora comentarista da Globo José Roberto Wright, então iniciante, levou um pontapé do atacante corintiano Lance.

Caso famoso no futebol paulista ocorreu em 1977, em Ribeirão Preto, num jogo entre Botafogo e São Paulo pelo Paulista. O jogo estava empatado por 1 a 1 quando Serginho Chulapa marcou um gol, imediatamente anulado pelo bandeira Vandevaldo Rangel. O irreverente artilheiro partiu em direção do bandeira e defsriu um chute na canela. O jogador foi suspenso por um ano.