Saitama (AE) – Que o técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, adora mistérios, não há dúvida. Só para se ter uma idéia, todas as cinco partidas da equipe, até agora, pela Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão foram cercadas de indefinições, ou melhor, definições anunciadas apenas momentos antes do jogo, sempre relativas a mudanças no time. No entanto, para a partida contra a Turquia, válida pelas semifinais da competição, quarta-feira, às 8h30, tal peculiaridade chegou ao extremo. A dois dias do confronto que vale uma vaga na final – em Saitama – a comissão técnica sabe mais do adversário que do próprio grupo.

Explica-se: os turcos foram os mais estudados por Scolari e sua comissão. Em primeiro lugar porque, no sorteio dos grupos, tornaram-se o adversário da estréia. Ou seja, a comissão técnica do Brasil teve toda a fase de preparação, que começou em Barcelona, na Espanha, com passagem também por Kuala Lumpur, na Malásia, para analisar cada uma das características dos europeus e montar o time de acordo com o que foi apurado. O segundo ponto é o fato de que, por já terem se enfrentado nesse Mundial, dificilmente haveria tempo para que uma equipe ou outra mudasse alguma coisa em seu esquema que pudesse surpreender.

Em outras palavras, Scolari tem decorada na cabeça a formação do adversário. A movimentação de cada um dos jogadores de meio-de-campo e ataque. A maneira como o zaga se posiciona. Qual o tipo de jogada ofensiva preferido e mais perigoso. Quais as vulnerabilidades. Enfim, o treinador brasileiro sabe o que vai encontrar do outro lado. Porém, o problema: só falta saber agora quem jogará em seu time.

Interrogação

As dúvidas são duas. A comissão técnica agora faz mistério com relação ao substituto do meia-atacante Ronaldinho Gaúcho. Por causa de uma entrada desleal, o atleta acabou expulso da última partida, na qual o Brasil venceu a Inglaterra por 2 a 1, pelas quartas-de-final. O mais cotado para a vaga é Juninho Paulista, que vinha atuando entre os titulares, mas acabou preterido no jogo passado. O atacante Edílson é outro que aguarda com expectativa a definição do técnico.

Já no ataque, a preocupação é com Ronaldo. Artilheiro da competição ao lado de Rivaldo e do alemão Klose, com cinco gols cada, o atacante da Inter de Milão deixou o campo no jogo contra os ingleses com dores na coxa esquerda. Embora o otimismo quanto à sua participação na quarta-feira seja grande, os médicos da seleção dizem que ainda não puderam fazer um diagnóstico mais detalhado da situação, o que deve acontecer nesta segunda-feira.

Costume

Enquanto Scolari pensa na forma como vai montar o time, ou como vai escondê-la, os jogadores garantem que a forma misteriosa de trabalho da comissão técnica não causa mais surpresa. “Nós já estamos acostumados. O grupo está nivelado e, por isso, quem for o escolhido vai jogar de uma forma que o time continuará rendendo igual”, afirmou Edílson.

Sobre o fato de saber quem joga pelo adversário, mas não pelo Brasil parece não preocupar. “O negócio é entrar para vencer e pronto. Todos pensam dessa forma”, disse o volante Gilberto Silva.

Fifa pune e multa Ronaldinho

AE – Saitama

Ronaldinho Gaúcho está garantido na final da Copa do Mundo, se o Brasil conseguir passar pela Turquia na partida de quarta-feira pela semifinal da competição. O meia brasileiro foi julgado neste domingo pelo Comitê Disciplinar da Fifa e cumprirá apenas um jogo de suspensão pela expulsão na vitória contra a Inglaterra. Ronaldinho poderia pegar mais um jogo como punição, mas foi apenas multado em 3.500 francos suíços, cerca de US$ 2.300. A punição financeira foi comemorada pelo jogador, um dos destaques do Brasil na vitória sobre os ingleses ao lado de Rivaldo e que havia considerado injusta a sua expulsão, depois de cometer falta no lateral inglês Mills. “A minha expectativa era de que ficasse em um jogo mesmo, pois não tive intenção de machucar o adversário”, disse o atleta do Paris Saint-Germain, que na véspera declarou que a falta era apenas para cartão amarelo. “Mas também esperava que viesse alguma punição financeira, como havia acontecido com o Rivaldo na primeira fase”.

A multa de Gaúcho, no entanto, não chegou nem à metade da imposta a Rivaldo, punido pelo Comitê de Arbitragem por ter simulado que havia tomado uma bola na cara no jogo contra a Turquia, quando tinha sido atingido na perna. Pela encenação, Rivaldo teve de pagar 11.500 francos suíços.

Feliz pela possibilidade de disputar o jogo decisivo da Copa do Mundo, Ronaldinho lamenta apenas o fato de poder ajudar o time apenas do banco, nessa partida decisiva contra a Turquia. Mas garante que incentivará bastante os companheiros e quem entrar em seu lugar para que o Brasil consiga a classificação.

No jogo contra a Inglaterra, Ronaldinho Gaúcho marcou o gol da virada no início do segundo tempo e ainda havia feito o passe para Rivaldo empatar o jogo nos acréscimos do primeiro. Agora, para tentar repetir o bom desempenho, Gaúcho terá de esperar que os colegas não o decepcionem.

Ronaldo melhora e é “escalado” por Cafu

AE – Saitama

O atacante Ronaldo deixou o médico da seleção, José Luiz Runco, muito otimista quanto à sua recuperação para o jogo de quarta, com a Turquia, pela fase semifinal da Copa do Mundo. Ontem ele não sentiu dores na coxa esquerda, fez exercícios fisioterápicos e de relaxamento na piscina do Hotel Rafre Saitama. A fisionomia do atleta, mais sorridente que na véspera, era um indício de que a possibilidade de ficar fora da partida passou a ser remota.

Runco, no entanto, manteve a cautela e adiou em mais algumas horas a resposta precisa sobre a situação de Ronaldo. A expectativa do médico é de que o jogador possa estar em condições de treinar com o restante do grupo nesta terça. Hoje, isso não será possível: Ronaldo deve apenas correr alguns minutos e alongar os músculos e realizar outras atividades na piscina.

No final do dia, Ronaldo concedeu entrevista à Nippon TV uma das mais importantes emissoras de Tóquio. Bem humorado, questionou por que o ator japonês Sanma, muito popular no país, estava vestido com a camisa da Itália entre os apresentadores do programa esportivo Fifa World Cup – This Week. Constrangido, Sanma trocou a camisa azul pela de número 9 da seleção brasileira. “A Itália já se foi”, comentou Ronaldo.

Ele teve de explicar aos japoneses a tatuagem na perna esquerda de um anjo com o nome de seu filho Ronald. Disse que não estava preocupado com a quantidade de gols que pode fazer no Mundial e, no final, pediu um exemplar do Nandaro, um bichinho de pelúcia feio, símbolo do programa. Ronaldo foi muito aplaudido pelo público que lotava o auditório da emissora. Ele falou aos japoneses do hotel que hospeda a seleção, mas não abordou a sua contusão.

Antes, enquanto Runco dizia que preferia aguardar mais um pouco para anunciar sua decisão quanto a Ronaldo, o capitão do time, Cafu, deixou escapar que não existe mais dúvida: “Ele vai jogar, já está bem melhor, e vai ser importante para toda a equipe a presença do Ronaldo na nossa próxima partida.” Depois, Cafu assegurou que falava por intuição, pelo que sentira do colega durante o dia. “É claro que a palavra final é do médico.”

Ronaldo exerce uma liderança natural sobre o grupo e isso também foi manifestado por Gilberto Silva. O meia atribuiu-lhe parte fundamental do sucesso da seleção na Copa do Mundo e disse que o Brasil todo conta com o atacante para as últimas partidas da competição.

Luizão não consegue disfarçar ansiedade

O atacante Luizão tem se esforçado muito nos últimos dias. Mas não é só nos treinamentos. Precisa mostrar alguma habilidade também fora do campo. Depois que o técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, anunciou que o jogador do Grêmio é o substituto natural de Ronaldo, caso este não tenha condição de enfrentar a Turquia, Luizão faz verdadeiros malabarismos verbais para disfarçar a ansiedade e a vontade de entrar no time. Afinal, não é para menos. Entrar na equipe titular em uma semifinal de Copa do Mundo é, ao mesmo tempo, a realização de um sonho pessoal e profissional.

No entanto, basta ser questionado sobre o assunto para que o gremista, com as frases na ponta da língua, tente despistar. Ao ouvir Luizão falar, parece que nem mesmo ele acredita que tem chance de jogar, já que a recuperação de Ronaldo é vista com otimismo. “Eu estou torcendo para que o Ronaldo se recupere e tenho certeza que ele vai estar bem no dia do jogo”, afirmou o reserva.

Porém, por traz das palavras de conforto e conformismo, está a vontade de manter a esperança de jogar viva. “Se precisarem de mim, estou à disposição. É claro que todo mundo gostaria de entrar jogando em uma partida como essa.” E Luizão não quer deixar ninguém preocupado com a hipótese de mudança no ataque mais positivo da Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão. Até aqui, em seu cinco jogos, a seleção brasileira já marcou 15 gols, o que representa uma média exata de três por partida.

“Tenho características diferentes das do Ronaldo, já que sou um atacante que joga mais fixo dentro da área”, observou. “Mas isso não quer dizer que o esquema do time tenha de mudar com a minha entrada. Posso me adaptar a ele sem nenhum problema.”

AE – Saitama

Este é o 4º reencontro do Brasil numa Copa

Osaka – AE

O jogo semifinal contra a Turquia, quarta-feira, em Saitama, será o quarto reencontro da seleção brasileira com um adversário em uma mesma Copa do Mundo. Em todas as vezes anteriores, o Brasil venceu a revanche. E, nas duas últimas, acabou campeão. Os dois primeiros duelos repetidos foram com a Checoslováquia. Pela Copa de 1938, na França, os dois times decidiram uma vaga nas semifinais e houve empate por 1 a 1, dia 12 de junho, em Bordeaux. Dois dias depois, em jogo de desempate, no mesmo local o Brasil venceu por 2 a 1. Naquele Mundial, os brasileiros terminaram em terceiro lugar.

Em 1962, Brasil e Checoslováquia empataram sem gols, dia 2 de junho, em Viña del Mar, pela segunda rodada da primeira fase. Naquele jogo, Pelé sofreu a contusão na virilha que o tiraria do restante do Mundial. Como não eram permitidas substituições, ele ficou em campo fazendo número até o final.

No dia 17 de junho, as duas equipes reencontraram-se na decisão do título, em Santiago. E, já com Amarildo no lugar de Pelé, o Brasil venceu por 3 a 1 e sagrou-se bicampeão mundial.

O terceiro reencontro foi na Copa de 94, nos Estados Unidos. Dia 28 de junho, no estádio coberto de Detroit, Brasil e Suécia empataram por 1 a 1. Dia 13 de julho, em Pasadena, pelas semifinais, o Brasil venceu por 1 a 0 e classificou-se para a decisão diante da Itália, em que seria tetracampeão nos pênaltis.

Finalmente, agora, em 2002, o Brasil estreou na Copa diante da Turquia, em Ulsan. E venceu de virada por 2 a 1, com o gol da vitória, nos minutos finais, marcado por Rivaldo cobrando pênalti inexistente. A falta em Luizão ocorrera fora da área, mas o árbitro sul-coreano Young Jo Kim marcou dentro da área.

Preparo psicológico em destaque

O Brasil está a seis dias e a duas vitórias do pentacampeonato mundial. A partir de agora, há muito pouco a fazer com os jogadores, sobretudo na preparação física. A condição atlética dos 23 convocados por Felipão mereceu atenção especial de Paulo Paixão até o fim da primeira fase da Copa. Dali em diante, prevaleceu a manutenção, além de controle para casos isolados. O trabalho é apenas com a mente do grupo.

“Não há nada que possa ser feito neste momento para aumentar a resistência dos jogadores”, diz Paixão. “Nossa programação tinha como objetivo atingir o ponto alto ao final da etapa de classificação”, insiste. “E isso conseguimos, com sucesso.” O importante, em sua avaliação, é cuidar do aspecto psicológico.

Com o longo período de concentração, de convivência, de viagens, deslocamentos e jogos, a tendência é de cansaço mental. Por isso, a carga de trabalho físico tem diminuído ao mínimo indispensável. A prova está no fato de os reservas serem mais exigidos do que os titulares, até em dias trabalho parcial.

“Aqueles que jogam menos precisam cuidar mais da forma”, explica. “Mesmo assim, de maneira suave, apenas para manter atividade”, assegura. “A atenção deve concentrar-se na mente, que precisam manter-se alertas, sem ficar esgotados. Nisso, até agora, todos estão indo muito bem.” Para evitar estresse, Paixão recomendou várias sessões de hidromassagem para os titulares e exercícios localizados para Rivaldo, Roberto Carlos, Lúcio e Ronaldo.

Marcos, o escapulárioe a sua fé

AE – Saitama

Toda vez que entra em campo e se coloca sob o gol, Marcos ergue as mãos e reza. Oração rápida, mas fervorosa. No fim da partida, o ritual se repete, seguido sempre do sinal da cruz. O goleiro da seleção é católico, mas não ostenta correntes ou medalhões de ouro. Ao contrário, treina e joga apenas com um escapulário – cordão de pano, em que há uma imagem de Nossa Senhora e outra de Jesus.

“É a única coisa que levo para o jogo”, revela. A preferência pelo símbolo religioso tão simples é pessoal. “Eu o ganhei e nunca mais me separei dele”, diz. Objetos mais valiosos não o seduzem, pelo menos para jogar futebol.

Marcos não pede vitórias em suas preces. Ele invoca a intervenção divina apenas para manter a integridade física. O maior receio é de que venha a sofrer alguma contusão. Pedido estendido para os outros jogadores. “Não quero que Deus me ajude a ganhar”, explica, com modéstia. “Peço para ninguém se machucar, nem do meu time nem dos adversários”, garante. “Sei o quanto é ruim a contusão”, admite, já que dois anos atrás ficou seis meses sem jogar por conta de fratura no dedo. “Quando saio, agradeço por tudo ter corrido bem.”

“São” Marcos, como o chama a torcida do Palmeiras – o resto do Brasil aos poucos também passa a admirá-lo -, espera que a regularidade da seleção seja mantida no meio da semana. A Turquia, em sua avaliação, não é rival mais fácil de ser batido, já que foi superado na estréia, na virada por 2 a 1. “Os turcos melhoraram muito durante a competição”, acredita. “Acho até que foi um dos times mais difíceis que tivemos pela frente.”