Até 2016, quando o canal por assinatura Esporte Interativo (EI) anunciou que havia fechado contrato com mais de uma dezena de times de várias divisões do Brasileirão, o cenário do futebol nacional apresentava um óbvio domínio.

A Rede Globo reinava sozinha desde 1987, quando foi uma das garantidoras da Copa União, torneio na época idealizado pelo Clube dos 13. Desde então – mesmo depois de a CBF voltar a assumir as rédeas de sua principal competição –, a emissora carioca se consolidou como a “grande casa” do futebol nacional.

O recente desafio à hegemonia “global”, no entanto, parecia sólido. Por trás do EI, o conglomerado de mídia americano Turner investiu alto. Pagou luvas milionárias aos times parceiros e propôs uma divisão mais equilibrada nas cotas, seguindo modelo europeu.

Com um discurso de mais transparência e equilíbrio, convenceu times como Palmeiras, Santos, Bahia, Coritiba, Athletico, Ceará e Fortaleza, além do Internacional (que assinou por apenas duas temporadas). No ano passado, o primeiro de vigência do acordo, os canais TNT e Space transmitiram 42 jogos de forma exclusiva na TV fechada.

Na matemática pura e simples, apenas 1,1 partida por rodada. Pelo ângulo comercial, a Globo nunca foi tão incomodada e ameaçada. A Turner quebrou o domínio da rival e, de quebra, elevou o patamar financeiro dos direitos de transmissão. É inegável que concorrência aumentou o ganho dos clubes, não importa de qual lado.

O sucesso da insurgência, contudo, foi colocado em dúvida nas últimas semanas. A Turner comunicou os times parceiros sobre quebra de cláusulas contratuais. A multa individual é de quase R$ 300 milhões. E os americanos deixaram claro que não sairiam perdendo.

O imbróglio é gigantesco, reflexo de uma série de problemas antigos, como a descoberta de bônus de assinatura irregular pago ao Palmeiras e também de disputas sobre o valor total do contrato. Ambos os casos foram revelados pela Gazeta do Povo em abril de 2018.

A relação se deteriorou ainda mais após compra da Turner pela AT&T, operação de US$ 85 bilhões. No Brasil, o primeiro reflexo foi o inesperado encerramento do EI, em agosto de 2018. A medida foi tomada para facilitar a aprovação do negócio no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Sob nova direção, a Turner reviu seus números e chegou à conclusão de que pagou muito caro pelo futebol brasileiro. Agora, chamou os times para conversar, com a rescisão como uma possibilidade real.

Domínio global

Toda essa novela nos leva de volta à Globo, que assiste o desenrolar dos capítulos de camarote. Mas como surgiu esse poderoso domínio global?

“Ele foi construído especialmente a partir da força do Grupo Globo, que além de ser um conglomerado comunicacional, é uma forte empresa nacional, com lucros líquidos na casa dos bilhões. E assinar com a Globo, especialmente a partir dos anos 90, significava aos clubes ter as garantias de transmissão na TV fechada e, no fim da década, também em pay-per-view“, conta o pesquisador e jornalista Anderson Santos, autor do livro “Os Direitos de Transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol”.

Ou seja, com mais capital, a emissora carioca teve mais condições de expandir o mercado (TV fechada e PPV) e, ao mesmo tempo, evoluir tecnologicamente. Melhorando a qualidade das transmissões, aumentou sua audiência e alcance.

Mas também houve atuação política. De acordo com Santos, em um dos momentos em que foi ameaçada, a Globo utilizou os meios que tinha para impedir o avanço da concorrência. Na ocasião, o canal de Sílvio Santos.

“Para minha dissertação de mestrado, tive acesso aos contratos e às discussões da ação no Cade sobre o Campeonato Brasileiro, de 1997 a 2010. O Fábio Koff, ex-presidente do Clube dos 13 e do Grêmio, cita que a Globo ameaçou não colocar à disposição suas outras plataformas caso houvesse assinatura com outra emissora – e a proposta do SBT era maior naquele momento”, aponta.

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No livro “Cotas de Televisão do Campeonato Brasileiro – Apartheid futebolístico e risco de espanholização”, o jornalista Emanuel Leite Jr. detalha outro momento em que o controle da emissora fundada por Roberto Marinho esteve ameaçado. Esse movimento aconteceu em 2011 e envolveu Rede Record e RedeTV.

“Recordo no livro o acordo assinado por Clube dos 13 e Rede Globo com o Cade, para que a autarquia federal pusesse fim ao processo de investigação de formação de cartel entre as duas entidades. O C13 tentou cumprir sua parte do acordo, formando uma espécie de processo licitatório para a assinatura do novo contrato. A Globo se viu ameaçada pela primeira vez, em décadas, ante a concorrência da Record [que já havia lhe tirado os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos]. E o que aconteceu? Alguns clubes, que haviam perdido a eleição interna no C13, articularam uma insurgência contra a entidade que eles mesmos haviam criado em 1987. Não reconheceram a legitimidade do processo licitatório conduzido pelo C13 e resolveram assinar acordos individuais com a Rede Globo”, lembra Leite Jr.

Livro conta a implosão do Clubes dos 13, que ajudou a Globo a manter a hegemonia no futebol. Foto: Divulgação

Na ocasião, o Clube dos 13 acabou implodido por dentro, por falta de coletividade. Assim, o processo licitatório vencido pela RedeTV não teve validade alguma e a Globo, negociando individualmente, conseguiu manter os direitos de transmissão do Brasileirão.

A capacidade de prover receitas antecipadas aos clubes, segundo Santos, também teve papel importante para a hegemonia. Principalmente por causa da precária situação financeira da maioria dos times.

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“Também há toda relação de garantias bancárias para empréstimos e outros adiantamentos, que foram muito comuns até o início dessa década. Eles só diminuíram por causa da Globo – não pelos clubes. O times têm problemas financeiros e, como as receitas de TV são teoricamente fixas, era comum antecipar”, diz o pesquisador.

Na opinião de Leite Jr., a entrada da Turner no mercado do futebol brasileiro foi um dos momentos em que uma mudança de panorama poderia acontecer. Mas, como ele ressalta, é difícil vencer disputa com a Globo.

“O EI, turbinado pelo dinheiro estrangeiro do grupo Turner, esboçou uma pequena revolução no mercado, inclusive propondo uma divisão do dinheiro mais equânime. Entretanto, além de ter sido uma disputa restrita à TV fechada, como se tem dito recentemente, parece que a Turner vai deixar este mercado”, finaliza.

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