Belo Horizonte – Os irmãos Perrella, Zezé e Alvimar, querem fazer do Cruzeiro modelo de excelência do futebol brasileiro. Estão no poder há mais de oito anos. A dinastia começou com Zezé, o mais velho. Eleito em 1994, ficou até 2002, quando passou a presidência a Alvimar, em legítimas eleições. “Quando assumi o Cruzeiro, o clube tinha apenas um computador. Hoje, o patrimônio é imenso. O clube é uma grife”, orgulha-se Zezé, um dos condutores do título brasileiro perseguido havia 32 anos.

É mais que uma grife. Os números impressionam. Na área de 90 mil metros quadrados, no rico bairro da Pampulha, foi construída a Toca II, um centro de treinamento erguido a peso de ouro. “Receita simples: vendemos jogadores e construímos isso aqui”, diz Zezé à Agência Estado, enquanto aponta para um dos quatro campos do CT, que ainda tem hotel, centro de fisiologia e fisioterapia, quadras, escritórios estrutura de dar inveja aos europeus.

O dinheiro saiu de parte das vendas de Fábio Júnior (US$ 15 milhões), Alex Alves (US$ 7,5 milhões), Evanílson (US$ 7 milhões) e outros. “A Hicks Muse (fundo de pensão norte-americano) entrou com US$ 2 milhões”, ressalta Zezé. Parte do dinheiro foi usada na construção do prédio da administração de todos os setores do clube oito andares no centro de BH.

Números

Não é só isso. O clube tem ainda a Toca da Raposa I, um dos primeiros CTs construídos no Brasil, onde ficam os meninos das categorias de base. “Temos escola de primeiro e segundo graus dentro da Toca. Já formamos uma turma. Na segunda, que cola grau no final do ano, o goleiro Gomes será o paraninfo.”

Nas contas de Zezé, o Cruzeiro tem cerca de 70 mil meninos nas categorias de base, escolinhas conveniadas no Brasil, Dallas (EUA), Japão e parcerias com 1.300 AABB (associação do Banco do Brasil). “E depois tem gente invejosa que diz por aí que o Cruzeiro é de meeiros, sócio de empresários. Somos meeiros, mas pergunta aos jogadores se querem sair daqui. São contratos longos, pagamos em dia”, diz Zezé.

Os Perrella anunciam um déficit de R$ 14 milhões por ano. Arrecadam R$ 26 milhões, mas as despesas alcançam quase R$ 40 milhões. Para equilibrar, terão de vender dois jogadores. “Não é um problema. A política é pé no chão. Temos parceiros (Fiat, Lousano, Energil C e Topper) que nos ajudam.”

O contrato com a Topper acaba no fim deste mês. Seis empresas querem o lugar. A Nike é a candidata mais forte. Quer a grife do Cruzeiro e participar do bolo da venda de camisas 15 mil por mês. Zezé e Alvimar estudam propostas. Não há limite para o clube das cinco estrelas.

Zinho conquista 5.º Brasileirão

Belo Horizonte –

Zinho e Alex, a comunhão perfeita. O primeiro, aos 36 anos, teria a dura missão de substituir o segundo, artífice da conquista inédita do Cruzeiro. Zinho estava no campo da batalha. Alex, suspenso pelo terceiro cartão amarelo lá em cima, torcendo das tribunas. Quando o jogo acabou, no centro do campo, os dois trocaram um abraço apertado, de espremer a alma.

“Sou abençoado”, dizia o veterano meia-esquerda. Referia-se ao seu quinto título brasileiro. Apenas Andrade, volante do Flamengo e do Vasco dos anos 70 e 80, havia conseguido tamanha façanha.

“Tenho fé, Jesus no coração. Mas de nada adiantaria tudo isso se não fosse o trabalho, a dedicação. Nada cai do céu”, disse Zinho, quase sem fôlego, depois de correr como um menino, no jogo e na festa de comemoração.

“Graças a Deus e ao meu esforço apareceu o Cruzeiro na minha vida. Não fosse pela estrutura maravilhosa do clube, eu, jogador de 36 anos, não teria condições de disputar um campeonato como esse.”

Foi mesmo uma feliz coincidência na vida de Zinho. Preterido pelo Palmeiras no primeiro semestre, chegou ao Cruzeiro com aval de Luxemburgo. E na partida decisiva, ontem, marcou o gol que abriu o caminho da vitória.

“Fazer um gol na final de um campeonato sempre fica marcado na história. Tive essa graça. Estou muito feliz.”

Havia mais o que comemorar. “Todo mundo sabe que sou palmeirense. Não foi possível ficar no clube por motivos que todos sabem (desavença com Jair Picerni), mas fiquei feliz, aliviado até, com a conquista do Palmeiras, que está de volta à primeira divisão.”

Escudeiros de Luxemburgo têm papel decisivo

Rio –

O sucesso do Cruzeiro na temporada deve-se, além da formação de um excelente time, à estratégia de Vanderlei Luxemburgo na composição de seu corpo de auxiliares mais próximos. O treinador praticamente reeditou no clube a comissão técnica da seleção brasileira de 1998 a 2000. Na estrutura da atual equipe campeã brasileira, fica faltando apenas a figura de Candinho, então braço direito de Luxemburgo após a Copa do Mundo da França, e hoje dirigindo o Al-Ittihad, da Arábia Saudita.

Compõem o seleto grupo o coordenador Marcos Moura, o preparador físico Antonio Mello e o auxiliar-técnico Paulo César Gusmão. O primeiro é mestre em treinamento esportivo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ocupou o cargo de supervisor da seleção, quando desenvolveu trabalho útil para a equipe: ele tinha um banco de dados completo sobre a performance dos atletas selecionáveis em várias competições. Moura também é primo do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira. Com passagens por Flamengo e Corinthians, Mello era o titular da preparação física da seleção, enquanto Gusmão treinava os goleiros.

Habilmente, Luxemburgo montou equipe forte fora de campo para ganhar títulos, deixar para trás a mácula de denúncias sobre crimes fiscais e de falsidade ideológica, entre outros, e assim se candidatar novamente à seleção, seu grande objetivo.