Se não pude ver e ouvir, tive e tenho a chance de conviver com alguns dos maiores jogadores e jornalistas do nosso futebol. É maravilhoso encontrar e papear com Krüger, Sicupira, Nivaldo, Aladim, Hélcio, Dida, Serginho, Carneiro Neto, Edson Militão, Capitão Hidalgo, assim como dão muita saudade Wilson Brustolin, Vinícius Coelho, Sonia Nassar, Dionísio Filho, Assis e Washington. De quase todos eles eu ouvi uma frase: “Ele jogava demais”.

Todos falavam do mesmo cara, José Roberto Marques, o Zé Roberto que nos deixou neste sábado (7), justo às vésperas de um Atletiba que decidirá o Campeonato Paranaense. Justo ele que foi craque nos dois times, que para Vinícius e Carneiro só não jogou mais que Pelé, que para Sicupira e Krüger foi um gênio com a bola nos pés. Além de ser craque, raro ídolo dos atleticanos e coxas-brancas, Zé Roberto talvez seja o último dos românticos do futebol. E o maior talento que já jogou por aqui.

Zé Roberto, guardadas as proporções, é da linhagem daqueles jogadores dos anos 1930 e 1940, que eram tão famosos pelo que faziam dentro quanto pelo que faziam fora de campo. Quando chegou ao Atlético, em 1968, para formar o esquadrão que ainda tinha Sicupira, Nílson, Zequinha, Bellini e Djalma Santos, veio com a fama de extraordinário jogador e péssimo atleta. As duas famas foram confirmadas, Zé arrebentou em campo e virou Curitiba do avesso.

No Atlético, em 1968, Zé Roberto já era um dos melhores do futebol brasileiro. Virou até figurinha. Foto: Arquivo
No Atlético, em 1968, Zé Roberto já era um dos melhores do futebol brasileiro. Virou até figurinha – e olha os outros que estavam com ele. Foto: Arquivo

A Curitiba de Zé Roberto é a Curitiba dos bares – que ele, em uma de suas últimas vindas à cidade, convidado pela 98FM para comentar exatamente o Atletiba que decidiu o Paranaense de 2013, fez questão de revisitar. Ao menos os que existiam. Ele sabia de lugares que nós, curitibanos de nascença e que achamos que sabemos cada canto daqui, nunca tínhamos ouvido falar. A cerveja estava sempre gelada.

Zé ficou naquele 1968, voltou para o São Paulo e em 1971 foi alvo de uma disputa entre os rivais, com sucesso da raposa Evangelino da Costa Neves. O Chinês e o Gazela. Podia ser filme de caratê, mas era sim uma parceria que faria história. Zé foi o líder técnico do time que abriu o caminho do hexacampeonato estadual, que venceu o Torneio do Povo e conquistou a Fita Azul na Europa. Tomando todas, fumando maços e maços de cigarro, vivendo a noite como se ela não fosse existir no dia seguinte. Jogando muito, ganhando a Bola de Prata da revista Placar. E chamando a atenção do Corinthians.

A imagem que eterniza Zé Roberto no Coritiba. A comemoração do gol, a euforia de um dos maiores da história. Senão o maior de todos. Foto: Arquivo
A imagem que eterniza Zé Roberto no Coritiba. A comemoração do gol, a euforia de um dos maiores da história. Senão o maior de todos. Foto: Arquivo

No Timão, ficou marcado como um dos jogadores que perderam a final do Paulista de 74 para o Palmeiras – derrota tão traumática que enxotou Rivelino do Parque São Jorge. Não brilhou como aqui. Nunca brilhou como nos campos paranaenses. Quando voltou ao Atlético, já em fim de carreira, o gosto pela noite seguiu, mas as pernas já n,ão aguentavam mais tanta disposição.

Saía o craque e aparecia o homem, que nos quase trinta anos seguintes lutou contra o resultado de tantos excessos. Quando veio em 2013, era uma sombra do que já tinha sido. Mas, lúcido, via o futebol e viveu o Atletiba com intensidade – no campo e na noite. A luta contra os problemas decorrentes do consumo de álcool o levaram neste sábado. Morre o homem, fica a história.