Nico Rosberg tem a chance neste domingo, em Interlagos, de compensar o gosto amargo que sentiu do vice-campeonato da Fórmula 1 nos dois últimos anos. Após ver o companheiro de Mercedes, Lewis Hamilton, levar a melhor em 2014 e 2015, é o alemão o líder e único que pode sair como campeão do GP do Brasil, a penúltima etapa da temporada. Apesar da reviravolta no Mundial, que lhe permite comemorar antecipadamente a conquista inédita com uma vitória no Brasil, garante que não se trata de revanche.

O piloto recebeu o jornal O Estado de S.Paulo para uma entrevista exclusiva no hotel onde está hospedado, na zona sul da capital paulista. A cidade e o País são familiares ao alemão, vencedor das duas últimas provas em Interlagos e de longa relação com o País de Senna, Fittipaldi e Piquet.

Nico buscou na internet vídeos do tricampeão Ayrton Senna para apreciar no tempo livre, mas diz que o momento decisivo não traz pressão para que consiga repetir o feito do pai. O finlandês Keke Rosberg, campeão em 1982, é figura distante na atual vida do piloto, que preferiu não se aprofundar no assunto. “O único conselho dele para mim é para eu acelerar”, disse.

Você já se sente pressionado para repetir o título que o seu pai conquistou em 1982?

Não tanto. Eu tenho muito orgulho do que o meu pai conseguiu na Fórmula 1, mas não é comparável à minha situação. Falamos de outra época, bem diferente.

Já sofreu com comparações?

Sofri um pouco quando era mais novo porque havia muito interesse sobre mim. Quanto mais interesse tem, mais complicado se torna porque eu era conhecido como “o filho do Rosberg”. Todo mundo queria saber o que eu estava fazendo, então isso foi um pouco complicado às vezes. Mas pude me adaptar a isso rapidamente. Talvez isso tenha até me preparado para a Fórmula 1, onde se tem muito mais interesse por tudo o que envolve os pilotos da categoria.

Para ser campeão no Brasil, você só precisa repetir o resultado dos dois últimos anos, quando dominou o fim de semana e foi o vencedor. Isso facilita?

Eu não fico pensando na matemática para ser campeão. Eu quero somente manter as coisas simples. É assim que funciono melhor, para que possa ter uma performance melhor também. É isso. Melhor não ficar pensando. Interlagos é uma pista incrível, apesar de não ser fácil. É uma pista onde o piloto faz a diferença, com boas chances de ultrapassagem, com longas retas. E nós sempre podemos ver corridas empolgantes, o que é legal.

Você considera essa chance de título uma oportunidade de revanche contra o Lewis Hamilton depois de ter sido dois anos vice?

Eu não considero uma revanche. Sequer penso nisso ou nas últimas temporadas da Fórmula 1. Pensar em revanche não me fará ir mais rápido na pista de Interlagos neste fim de semana. Não planejo comemorações também. Não vale a pena gastar energia em algo incerto. A única coisa em que penso é em ganhar esta corrida.

Como está a sua relação com o companheiro Lewis Hamilton?

A nossa relação é natural. Algumas vezes está melhor, em outras, está pior. Tudo depende do momento. A relação é sempre intensa porque estamos competindo por vitórias nas corridas. Então, sempre será difícil. Mas nós nos respeitamos, temos uma convivência boa.

Ter se tornado pai no ano passado te ajudou de que forma na pista? Você tem sido muito eficiente neste ano.

Eu estou feliz na minha vida pessoal. Na minha opinião, a vida privada sempre tem uma conexão com o seu trabalho. Quando você chega ao seu trabalho feliz, sorrindo, isso te ajuda e tudo vai ser melhor. Isso me ajudou muito nas pistas.

Quem foi sua grande inspiração como piloto na Fórmula 1?

Minha inspiração foi o finlandês Mika Hakkinen (campeão mundial em 1998 e 1999). Eu torcia por ele quando era novo, seguia as batalhas dele contra Michael Schumacher. Era fantástico. Meu pai era o empresário dele, então tínhamos uma certa conexão.

Este ano é a última corrida do Felipe Massa em Interlagos. Fora isso, ainda não há brasileiros confirmados na Fórmula 1 para a próxima temporada. O que acha dessa situação?

Tenho uma ótima relação com o Felipe (Massa). Ele é um cara ótimo. É uma perda para o nosso esporte a saída dele (ao fim desta temporada) porque teve muito sucesso, fez grandes coisas, tendo o apoio dos brasileiros. Mas tudo tem o seu final em alguma hora. Felipe pode ter orgulho da carreira que construiu na categoria, com certeza. Eu espero que os brasileiros tenham um compatriota, de novo, em um bom carro lutando por pódios em breve na categoria.

O Brasil está vinculado à sua história desde muito cedo. O seu pai correu em uma equipe brasileira…

Sim! Ele passou no começo da carreira pela Copersucar (em 1980 e 1981). Wilson Fittipaldi (chefe da equipe) fez muito para a carreira dele na Fórmula 1. Eu me lembro das histórias que meu pai contava quando estava fazendo testes aqui no Brasil, sempre no Rio de Janeiro, durante o inverno. Eles se divertiam muito. Depois disso, é claro, lembro do Ayrton Senna e de outras lendas brasileiras como Nelson Piquet, Emerson Fittipaldi, esses caras todos.

Depois da Alemanha, o Brasil é o país onde você tem mais seguidores no Twitter. Como explica esse carinho?

Isso é surpreendente. O meu Twitter tem muitos usuários (seguidores) no Brasil porque eu ganhei os dois últimos GPs do País. Certeza que isso ajudou. Mas estou muito agradecido por esse carinho. É incrível ter todo esse apoio. Aqui é uma corrida com muita carga emocional. Sempre torcem muito pelos pilotos da casa. A cantoria que tem na hora no pódio é legal também.

Já veio ao Brasil outras vezes sem ser pela Fórmula 1?

Sim, já vim aqui uma vez de férias. Visitei “Floripa” em 2007. É um lugar maluco! Quem sabe retorne no futuro para trazer minha filha. Mas ainda sem planos no momento.

O público em Interlagos sempre canta o nome do Ayrton Senna. Você chegou a ver corridas dele?

Dias atrás fui ver na internet corridas antigas dele e do Alain Prost. Lembro que vi algumas disputas no México e em Suzuka, no Japão. Não me lembro exatamente do ano. Gostei de ver algumas provas em Mônaco também. As batalhas entre eles eram bem interessantes. Quis ver também aquela corrida em Donington Park (na Inglaterra, no GP da Europa de 1993) sob chuva forte. O começo dela foi incrível. (Ayrton Senna ultrapassou quatro adversários na primeira volta para assumir a liderança em seguida).