São Paulo – A festa de despedida de Vágner Love do Palmeiras não poderia ter sido mais feliz. O atacante jogou bem, marcou dois gols, ganhou fácil o duelo com o rival Luís Fabiano e garantiu ao Palmeiras a vitória sobre o São Paulo por 2 a 1, ontem, no Pacaembu. Mais do que isso: levou seu time da 10.ª para a 3.ª colocação do campeonato brasileiro e abriu crise no clube do Morumbi, que, embora faça campanha razoável na competição – tem 18 pontos -, despenca dentro e fora do campo, após a eliminação da Libertadores.

“Melhor, impossível”, resumiu o artilheiro, que teve seu nome gritado pelos torcedores. “Estou muito feliz. Quando voltar ao Brasil, será para o Palmeiras.” Vágner participou da última partida com a camisa alviverde. Hoje, se apresenta à seleção para a disputa da Copa América e, depois, viaja para a Rússia para integrar-se ao CSKA.

Seu maior concorrente atualmente no futebol brasileiro, Luís Fabiano, decepcionou. Desperdiçou um pênalti e teve atuação fraca no jogo que pode ter sido o último com a camisa tricolor – a intenção do São Paulo é negociá-lo em julho para fazer caixa e contratar reforços. Ele, que também estará na Copa América, foi criticado pelos são-paulinos. A Torcida Independente foi ao estádio vestida com camisas amarelas, como forma de protestar, e não poupou vaias. Rogério Ceni, o outro ídolo dos torcedores, não saiu ileso. Falhou no segundo gol palmeirense e foi chamado de “frangueiro”. Ninguém ainda digeriu a queda diante do Once Caldas na semifinal da Libertadores.

A derrota, a terceira consecutiva, inicia uma crise no São Paulo, que já perdeu Gustavo Nery e Marquinhos e tenta reencontrar o rumo durante o processo de reformulação do elenco. O que não será fácil. No clube, há quem comece a reclamar do trabalho de Cuca, alegando que a maioria dos atletas que ele pediu, no início do ano, foi contratada.

O Palmeiras, apesar de ter carências e estar longe de ser brilhante, foi melhor e mereceu a vitória no clássico que não era realizado desde outubro de 2002. O primeiro tempo, com poucos lances de emoção, não agradou. Faltando 7 minutos para o intervalo, Vágner aproveitou cruzamento de Correia e abriu o placar. Nos acréscimos, Luís Fabiano teve a chance do empate, mas não foi feliz na cobrança de pênalti. O goleiro Sérgio defendeu.

A segunda etapa foi mais interessante para o pequeno público do Pacaembu – menos de 13 mil. O São Paulo, com Fábio Santos no lugar de Lino e Souza no de Simplício, saiu em busca do empate, mas levou o segundo gol. Pedrinho chutou fraco de fora da área. Rogério, no entanto, não foi bem e deixou a bola escapar do controle. No rebote, Vágner não perdoou. No fim, Cicinho ainda descontou, mas era tarde demais. Prevaleceu a maior competência do Palmeiras contra a evidente fragilidade são-paulina.

Ficha Técnica
Gols:
Vágner Love aos 37 minutos do 1.º tempo; Vágner Love aos 16 e Cicinho aos 37 do 2.º. Palmeiras: Sérgio; Baiano, Nen, Gabriel (Leonardo) e Lúcio; Marcinho, Magrão, Correia e Pedrinho (Adãozinho); Muñoz (Daniel) e Vágner Love. Técnico: Estevam Soares. São Paulo: Rogério Ceni; Cicinho, Fabão, Rodrigo e Lino (Fábio Santos); Renan (Gabriel), Alexandre, Fábio Simplício (Souza) e Danilo; Grafite e Luís Fabiano. Técnico: Cuca. Cartão amarelo: Sérgio, Lúcio, Fabão, Fábio Simplício e Grafite. Cartão vermelho: Correia e Souza. Público: 12.703 pagantes. Renda: R$ 159.527,00.

Luís Fabiano, de ídolo a pipoqueiro

São Paulo –

“Lu-ís Fa-bi-ano, Lu-ís Fa-bi-ano”. O grito que tomou conta de grande parte do Pacaembu ao final do primeiro tempo, não veio da torcida são-paulina. Eram os palmeirenses que homenageavam o artilheiro, um tributo ao pênalti perdido aos 45 minutos de jogo.

E os são-paulinos? Gritavam “Lu-ís pi-po-quei-ro”, no que foram imitados imediatamente pelos palmeirenses. E Luís Fabiano atravessou todo o campo, rumo ao vestiário, com as mãos na cabeça, recebendo abraços de Grafite, Simplício e outros colegas.

Era evidente o desconforto do atacante em bater o pênalti. Assim que o árbitro marcou, ele ficou conversando com Rodrigo, coisa que nunca acontece. Não havia confiança. Havia a necessidade e obrigação de mostrar aos torcedores que ele não é pipoqueiro. A cabeça, que não estava boa – reconheceu isso durante a semana -, deve ter influenciado muito para que seu pé direito pegasse mais grama do que bola na hora da cobrança.

Recusou dar entrevistas no intervalo. Falou apenas no final, antes de dirigir-se ao exame antidoping. “A única coisa que posso fazer é assumir o meu erro. Só prometo trabalhar cada vez mais para superar isso.”

Talvez não haja tempo. O jogo de ontem foi o 157.º com a camisa do São Paulo e pode ter sido também o último. Ele declarou durante a semana que o comportamento da torcida seria decisivo na possibilidade de deixar o clube, após a Copa América. E o que se viu ontem foi uma torcida irada com ele. “Acho que 80% gosta de mim e grita o meu nome. É a Independente que está contra mim, mas isso é muito injusto. Ajudei muito o time a voltar para a Libertadores, o que não acontecia há dez anos. E agora tenho sido vaiado. Acho que eu estou pagando pelos erros de outras pessoas, de outros jogadores. Estou aqui há três anos e fazia dez anos que o time não ganhava nada importante”, diz Luís Fabiano.