A paralisação do futebol há quase dois meses coloca muitas incertezas para o futuro. Dentro e fora de campo. Sem saber quando – e como – a bola voltará a rolar, os bastidores já trabalham com mudanças e, principalmente, dificuldades do ponto de vista financeiro.

Sem jogos, os clubes estão sem rendas, alguns patrocinadores já renegociam acordos e o lado econômico passa a preocupar bastante. A tendência é que o inflacionado mercado de transferências e salários entre em uma nova realidade.

“Não se tem dúvidas que em curto e médio prazo os valores caiam. Se o orçamento do futebol perde o dia de jogo, com perda de bilheterias e sócios, que não devem zerar, mas cair bastante, você tira uma fatia relevante desse orçamento. É uma lógica no mundo todo. Se você perder arrecadação, você vai perder capacidade de pagar salários. Valores de contratações também (devem cair), mas não dá pra saber quem vai sofrer mais”, avaliou Rodrigo Capelo, comentarista do Sportv e especializado em negócios do esporte.

O impacto disso será uma verdadeira bola de neve. Com pouco dinheiro em caixa, a chance de um time poder buscar reforços será ainda menor. Por mais que os salários diminuam – pelo menos neste primeiro momento -, os clubes não têm de onde tirar alternativas para investir.

Ainda mais sem ter lucros a longo prazo. A expectativa é que até o final do ano as partidas aconteçam com portões fechados, o que já tira parte da renda dos clubes. Com um mercado em baixa, jogadores que tinham bom preço, se forem vendidos, sairão por um valor menor, abaixo do esperado para colocar as contas em dia até então.

“Ainda não se sabe o tamanho disso, mas já se começa a ter uma ideia. Quando o futebol decide ter portões fechados, o que é inevitável, você perde bilheterias. E nas minhas contas, entre 14 clubes da Série A (não estão Athletico e Coritiba, que não publicaram os orçamentos), são R$ 500 milhões que eram esperados em bilheteria e que devem perder, mais impactos em associações, transferências de jogadores…”, reforçou Capelo.

“Com a paralisação dos campeonatos, tem suspensão de pagamento e os clubes ficam sem dinheiro para cumprir seus compromissos. Isso é pior do que o torcedor pode imaginar. Uma empresa estruturada poderia pegar um dinheiro emprestado para minimizar os danos, mas os clubes não têm crédito e não tem de onde pegar dinheiro. Então estão renegociando salário, pagamentos a outros clubes e credores, mas é um solavanco difícil de encarar”, acrescentou.

Times terão que correr contra o tempo e contras as dificuldades pra se reestruturarem. Foto: Albari Rosa/Foto Digital/Tribuna do Paraná

O buraco já se mostra fundo quando os estaduais estão com suas retas finais indefinidas. A maioria dos campeões regionais seriam conhecidos neste domingo (26) e no final do mês os contratos de diversos atletas se encerrariam. Alguns iriam para times que jogam uma das quatro divisões nacionais e completariam a temporada.

Agora, diante deste cenário, quando as competições voltarem, vários atletas estarão desempregados, uma vez que já não terá mais vínculos com suas equipes, e sem perspectiva de futuro. Em boa parte, aqueles que menos ganham mensalmente.

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Empresário de 47 jogadores e três técnicos, Marcelo Lipatín já vive essa nova realidade. Principalmente com jogadores de clubes menores.

“80% dos jogadores dependem do segundo semestre, os estaduais criam oportunidades para isso. Então o impacto maior é deles, principalmente aqueles que não estão nos grandes clubes, que precisam de salário para sobreviver”, disse ele.

Novo mercado

Por outro lado, a crise pode mudar um pouco o cenário do futebol, principalmente no Brasil. Muitos clubes que já tinham dívidas absurdas, como Botafogo e Vasco, convivendo com atrasos salariais, devem ter ainda mais dificuldades para se reestruturarem, ao contrário de outros emergentes, como o Furacão, que entre 2018 e 2019 arrecadou milhões com títulos e venda de jogadores.

“O que dá pra esperar é que com esse tranco que o mercado do futebol vai sofrer, os valores caiam, os clubes se reajustem e algumas competições e ordem de grandezas sejam afetadas. Um clube como Grêmio e Athletico pode sofrer um pouco menos, pois tem dinheiro entrando e não tinha destino certo. O Athletico não gastou esse dinheiro da venda de jogadores, ele pode sair disso melhor do que um Botafogo, Vasco, Fluminense e Atlético-MG, que já estavam fragilizados”, avaliou Capelo.

“Se houver uma liderança organizada de gestores, com certeza os clubes que estão acostumados a transitar de maneira organizada vão ter vantagem em relação aos outros. Clubes estruturados que fazem campanhas modestas apenas por questão financeira, pois não ganhavam mais, vão poder sair na frente”, reforçou Lipatín.

Com poucas dívidas e dinheiro em caixa, Athletico, se souber aproveitar o pós-pandemia, pode entrar em outro patamar. Foto: Albari Rosa/Foto Digital/Arquivo

A tendência é que os elencos se reciclem e fiquem ainda mais reféns das categorias de base. Sem dinheiro pra contratar e também com preços baixos para vender, apostar na garotada pode se tornar uma alternativa para fugir das dívidas e montar elencos que possam disputar títulos.

“O futebol passará por uma reestruturação de maneira geral, mas surgirão oportunidades, como lançamento de jogadores jovens. Outras negociações, que antes não podiam acontecer por conta de valores, podem se tornar mais normais”, apontou Lipatin.

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No entanto, fica um alerta de que uma manobra dos grandes, como já aconteceu em outros anos e outros problemas, pode acontecer para evitar que quebrem a longo prazo.

“A dúvida é se o momento atual dessa crise, que está apenas agravada pela pandemia, não vai motivar um tipo de “drible” de clubes que estavam praticamente quebrados. Alguns já pediram ajuda ao governo. Alguns não pagaram impostos, não tinham condições de pagar o Profut e agora ganham pretextos para renegociar”, afirmou Rodrigo Capelo.

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