Oficialmente demitido ao lado de Luiz Felipe Scolari na última segunda-feira, o ex-coordenador técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira, admitiu nesta terça que a goleada por 7 a 1 sofrida diante da Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo, foi um resultado “vergonhoso” e “desastroso” para história do futebol do País, mas fez questão de valorizar o trabalho que realizou em conjunto com Felipão desde o final de 2012, logo após a demissão de Mano Menezes.

Em entrevista por telefone à ESPN Brasil, Parreira repetiu parte do discurso de Felipão após o jogo contra a Holanda, no último sábado, em Brasília, ao lembrar que essa foi a primeira vez desde 2002 que o Brasil ficou entre os quatro melhores de uma Copa. Entretanto, confessou que ele e seu ex-parceiro de comissão técnica ficaram marcados com o capítulo mais triste da história do futebol do País.

“Não adianta querer negar, foi uma vergonha, maior derrota, está tudo claro e acabou. Isso foi escrito. Quantas vezes, em 100 anos, perdeu de sete? Não vai acontecer uma segunda vez. Foi vergonhoso, desastroso, e assimilamos tudo. Brasil e Alemanha podem voltar a jogar várias vezes. A Fifa colocou que foi um pesadelo de três minutos e fico com essa definição (sobre o que aconteceu no jogo)”, disse, se referindo aos gols consecutivos levados pela seleção brasileira, que aos 29 minutos do primeiro tempo já perdia por 5 a 0 para os alemães.

Parreira, porém, disse acreditar que essa seleção “deixou um legado intangível”, principalmente por ter conseguido recuperar de alguma forma a autoestima dos torcedores brasileiros com a conquista do título da Copa das Confederações, no ano passado, depois de acumular período de desconfiança sob o comando de Mano Menezes.

“Há muitos anos eu não vejo esse Brasil em torno de um objetivo, como o torcedor se uniu com essa seleção. Mesmo após a derrota por 7 a 1, fomos a Brasília e vimos crianças e o povo todo cantando e incentivando. O Brasil voltou a cantar seu hino, as pessoas sentiram orgulho de algo. Teve a televisão que expôs a vida de cada um desde o começo. Ficou um legado que para vocês (jornalistas) e para nós não importa. Ficou uma coisa bonita que não se pode negar. Essa geração que apoiou, vai continuar a apoiar por mais três, quatro Copas. Os jogadores tiveram essa mensagem. O sonho não termina, ele foi interrompido. O trabalho começa daqui um mês e meio”, completou.

CONFIANÇA EM EXCESSO – Parreira também negou que ele e Parreira tenham agido com soberba ao terem sustentando desde o início desta última passagem pela seleção o discurso de que o Brasil era favorito a conquistar o título da Copa de 2014.

“Você já imaginou algum líder de alguma entidade importante falando que vamos entrar para participar e pedindo um terceiro lugar? Disse, com convicção, achando que poderíamos ser campeões. É importante ser otimista. Quando você tem um bom ambiente e uma boa preparação, coloca uma mão na taça. No restante é o desempenho. Era isso. Criar um bom ambiente e preparação já é colocar uma mão não taça”, ressaltou, para depois negar que esse discurso tenha colocado ainda mais pressão sobre os jogadores. “A pressão era natural, vai ser sempre assim com a seleção”, acredita.

ENTRESSAFRA – O ex-coordenador da seleção, que antes teve sucesso ao levar o tetracampeonato mundial como técnico em 1994, ainda eximiu a CBF de culpa pelo fracasso da seleção ao comentar o fato de que o Brasil hoje sofre para formar um time nacional com um número maior de craques, diferentemente do que acontecia até pouco tempo atrás.

“A CBF não é formadora de jogadores, é o clube quem forma. A CBF tem que incentivar os clubes. A CBF organiza os jogadores para disputar competições sub-17, sub-20 e profissional”, disse Parreira, para pouco depois enfatizar: “Vamos pensar no futuro, no que pode se feito para não acontecer mais. Fica muito claro que não é fácil ganhar a Copa e que qualquer equipe pode passar por uma entressafra. Temos que fazer como os alemães, que se preparam há dez anos, e não interromper um trabalho a cada um ou dois anos”.

DEMISSÃO – Já ao comentar sobre como viu a saída da comissão técnica que foi ao Mundial, ele disse que encarou a mesma com “naturalidade”. “Sempre considerei como um cargo com prazo de validade que vai de uma Copa até a outra, ganhado ou perdendo. Se for inteligente, sai depois de ganhar. Não houve constrangimento, expectativa ou surpresa. Era um fato esperado”, disse.