Que a direção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) nunca se destacou por sua organização administrativa, clareza nas atitudes e competência profissional não chega a ser novidade, sobretudo para aqueles que acompanham mais de perto o dia-a-dia da entidade presidida por Ricardo Teixeira.

Contudo, quando fatos, tais como a incapacidade de elaborar uma tabela de Campeonato Brasileiro coerente, indicam que se chegou ao ?fundo do poço?, alguns episódios insistem em provar que tal limite está mais abaixo. Ou, no mínimo, sendo ?cavado?. Essa questão ficou evidente no ?caso Pedrinho?. O meia do Palmeiras, figura respeitada e querida por todos que o cercam e que ganhou ainda mais carinho depois das dificuldades que enfrentou para voltar a jogar, foi a personagem de todas as manchetes esportivas sexta-feira passada.

Tudo por causa de um exame antidoping, realizado após o clássico diante do Santos (1 a 1), dia 29 de setembro, na Vila Belmiro, o qual detectou a presença da substância Dihidrobupropion, proibida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pelo Regulamento de Controle Antidopagem da CBF.

Contudo, quando o caso veio a público, as barbaridades começaram a aparecer na medida em que os questionamentos eram feitos. O que se percebeu foi que Pedrinho tornou-se vítima da desorganização e absoluta falta de comunicação entre departamentos da própria CBF.

Prevenção

Um dos pontos mais estarrecedores é exatamente o utilizado pela direção palmeirense para tentar absolver o atleta. Como sofre de depressão profunda, mal que muitos creditam a fatores psicológicos, mas que na realidade está relacionado a uma disfunção química no cérebro, Pedrinho tem, obrigatoriamente, de tomar remédios para controlar o quadro.

Diante disso, a diretoria do clube procurou o presidente do Controle de Dopagem da Federação Paulista de Futebol (FPF) e coordenador de Controle de Dopagem da CBF, Fernando Solera, para solicitar esclarecimentos sobre a situação do meia. A idéia era precaver-se de qualquer risco antes de liberar o jogador para atuar, uma vez que Pedrinho, assim como todos os outros atletas, estaria sujeito ao sorteio para o antidoping.

Com a informação sobre o tratamento e a relação de medicamentos ministrados em mãos, Solera solicitou no dia 23 de maio ao Laboratório de Análises Toxicológicas (LAT) da Universidade de São Paulo (USP), um ?relatório de pesquisa de medicamento?. A droga analisada foi o Wellbutrin, um dos quatro usados no tratamento e que traz em sua composição a substância detectada. Na conclusão da análise, assinada por Regina Lúcia de Moraes Moreau, constatou-se que a substância não era dopante. Em junho, o representante da CBF encaminhou ao Palmeiras o resultado. Só então Pedrinho foi escalado para jogar. “Uma vez que consultamos um especialista que representa a CBF e obtivemos a informação de que a substância não é considerado doping, ficamos tranqüilos”, afirmou o médico Fulvio Rosset, que acompanhou o tratamento do jogador.

O presidente da Comissão de Controle de Dopagem da CBF, Tanus Jorge Nagem, explicou que se baseou no Regulamento Antidoping da entidade, cuja edição mais atualizada foi divulgada após a Copa. A Bupropiona não consta na lista de substâncias proibidas pela Fifa mas, segundo Nagem, as federações nacionais têm autonomia para acrescentar itens. “No caso específico do regulamento da CBF, a Bupropiona é considerado um estimulante”.

A Agência Mundial Antidoping (Wada), responsável pela regulamentação das substâncias proibidas pela maioria das Federações que integram o COI considera atualmente a Bupropiona como doping. No entanto, na versão atualizada da lista de substâncias proibidas, que entrará em vigor em janeiro de 2003, o antidepressivo passará a ser aceito.

Desrespeito

Contudo, a falta de entrosamento entre os departamentos da CBF não parou por aí. O próprio Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), também ligado à entidade, contestou o resultado. Diante disso, fica a questão: quem vai responder por um eventual retrocesso no tratamento de Pedrinho decorrente dos mal-entendidos provocados pela CBF? “A gente tira muito mais sabedoria de um velório do que de uma festa. Melhorei bastante e suportar mais essa barra é a prova disso”, afirmou o atleta.

As mudanças nos critérios de avaliação

São Paulo (AE) – Cada vez que surge um caso de doping, no futebol, vem a discussão e se estabelece a confusão. O que é proibido um dia (como a carnetina), no outro passa a ser tolerado. Uma prova positiva hoje pode transformar-se em negativa amanhã.

Um inócuo descongestionante nasal pode equivaler, para efeitos de punição, a uma ?bomba? que incha e dá potência a jogadores. Drogas ?sociais? como maconha e cocaína suspendem tanto quanto as ?bolinhas? do passado. O certo é que fica o estigma, tanto para os inocentes quanto para aqueles que realmente buscaram meios desonestos para ter melhor desempenho.

Um dos episódios mais rumorosos na história do doping nacional ocorreu em novembro de 1980. Um controle de rotina detectou traços de substância proibida na urina de Zé Sérgio, então jovem e promissor atacante do São Paulo. Os médicos do clube trataram de defender o craque, sem nenhum histórico de indisciplina, e provaram que ele havia pingado Naldecon para tratar de resfriado. A Federação Paulista de Futebol, poucos dias depois, acatou a argumentação e liberou o atacante. Em dezembro, Zé Sérgio foi eleito destaque do ano no Brasil, mas por muito tempo precisou ouvir provocações de torcidas rivais.

Antes dele, provocaram polêmicas suspensões para dois atacantes controvertidos. O primeiro foi Campos, em 73, que jogava no Atlético Mineiro. Ele havia usado Pervitin, remédio ao qual recorriam estudantes estressados e ansiosos para varar noites em cima dos livros antes de provas importantes. Invariavelmente, sentiam o cansaço justo na hora do exame, fora a bronca homérica de pais e professores.

Um ano mais tarde, César ?Maluco?, centroavante do Palmeiras, caiu na malha fina por uso de Hipofagin. Uma década depois, foi a vez de Mário Sérgio se complicar. O técnico do São Caetano na época defendia o Palmeiras, que conseguiu livrá-lo na contraprova. Tanto César quanto Mário Sérgio também carregaram a pecha de ?dopados? por muito tempo, o que lhes causou danos morais.

A cocaína e a maconha entraram na moda na década de 90. O personagem mais famoso a pagar caro por uso de drogas foi Maradona. O argentino começou a enfrentar declínio na carreira em 91, no Napoli, quando recebeu mais de um ano de suspensão por traços de cocaína na amostra que colheu. Três anos mais tarde, não passou pelo controle da Fifa, no Mundial de 94. Na ocasião, teria recorrido a moderadores de apetite. Em 97, voltou a ser flagrado, de novo por cocaína. Maradona parou de jogar, admitiu que era viciado e faz tratamento até hoje.

A cocaína também complicou a vida do argentino Caniggia (em 93), de Dinei (em 96, quando atuava no Coritiba) e do palmeirense Lopes, suspenso por quatro meses em 2001. Os franceses Barthez e Lama foram suspensos por consumo de maconha.