A vitória de um europeu para presidir a Fifa pode ser negativo para o futebol sul-americano. O alerta é de Joseph Blatter, presidente da entidade e que neste sábado organizou seu tradicional torneio no vilarejo nos Alpes da Suíça. Em conversa com um grupo pequeno de jornalistas, o dirigente evitou falar das eleições presidenciais da Fifa, marcada para fevereiro, e se recusou a comentar o fato de que seu rival, Michel Platini, é considerado um dos favoritos para o cargo. Em meio a acusações mútuas e confronto declarado pelo poder, fez um alerta: “o futebol deixa as pessoas loucas”.

Se Platini for eleito, a Uefa voltará a controlar o futebol mundial, depois de 40 anos fora do governo da Fifa. “É isso que eles querem”, alertou Blatter, insistindo que a “predominância” de uma entidade sobre as demais pode ser perigosa. Para Blatter, o poder nas mãos dos europeus pode influenciar no calendário do futebol mundial e reduzir o espaço para seleções sul-americanas realizar amistosos e torneios locais.

Agência Estado – Como o senhor se sente diante de tanta pressão desde as prisões de dirigentes em Zurique?

Joseph Blatter – Eu estou relaxado. São vocês jornalistas que têm de me enfrentar. E não apenas me escrever. O sol brilha. Estamos no processo de reforma da Fifa e a primeira reunião está marcada para os dias 2 e 3 de setembro. A Fifa funciona. Todos os torneios continuam. Não posso resolver sozinho tudo isso. Há 40 anos eu tenho o hábito de pressão. A Fifa não é um monstro. É imensa. Mas vocês me colocam sob pressão. O futebol não está sob pressão. Nunca houve tanta qualidade e tanta repercussão. Vocês precisam ajudar a entender o motivo para essa pressão.

AE – Por que o senhor pediu demissão após a eleição?

Blatter – Eu não me demiti. Isso é um erro. Nunca fiz isso. Estávamos numa situação de pressão. Um dia, vou dizer o que houve. Só me restava jogar a bola pra fora. Sou o presidente até que novo nome seja eleito.

AE – Que pressão foi essa?

Blatter – Precisamos analisar como isso ocorreu. Vocês são os jornalistas investigativos. Façam algo de bom pelo futebol.

AE – Nos próximos seis meses antes da eleição, acha que alianças e amizades serão testadas?

Blatter – Com o tsunami, houve pressão de todas as partes. Mas principalmente da imprensa internacional. Aqueles que me elegeram tiveram dificuldades para entender por que eu coloquei meu mandato à disposição. Mas estou convencido de que, na família do futebol, haverá respeito. Claro, haverá uma corrida agora pela presidência da Fifa, mas comissões éticas vão ser instauradas em várias partes e mais controle será colocado. Teremos mais fair-play. Temos de nos unir. Fomos atacados. A Fifa não é uma empresa comercial. É um entidade com 300 milhões de membros. Essas pessoas acreditam no futebol, com emoção. A Fifa, com 111 anos, não pode ser afetada por qualquer ataque. Esse é o sentimento. Todos no Comitê Executivo concordaram em sair dessa situação terrível. Foi a melhor decisão que jamais tomamos.

AE – O senhor teme que, com a vitória de um europeu, o calendário internacional possa ser modificado e assim prejudicar os torneios na América do Sul e na África?

Blatter – Sim. Esse é ainda um ponto fundamental. Uma confederação que se sobreponha às demais. Isso não pode ocorrer na Fifa. Isso foi o movimento de reconquistar a presidência.

AE – Pensa em voltar um dia ainda a ser presidente da Fifa?

Blatter – Não. Por favor. Uma pessoa precisa saber parar. Já fui o número 9 e não pedirei de novo.

AE – Desde as prisões em maio, conversou com João Havelange?

Blatter – Claro. Ele está muito bem. Ele disse: ‘você criou um monstro.’ Mas não é um monstro. É apenas porque o futebol foi além do jogo. É também um fator econômico e que todos querem apostar. No campo de jogo, há limites. Mas fora, não. Como controlar as pessoas? No campo, tem cartão vermelho e amarelo. Mas no mundo não existe isso. O que vivemos foi um terremoto, foi feito por pessoas fora da Fifa. Foi feito pelas confederações regionais, que não são membros da Fifa.

AE – Como o senhor quer ser lembrado? Como uma pessoa que se serviu do futebol ou que serviu ao futebol?

Blatter – Sou um servidor do futebol ha 40 anos. Eu não me uso do futebol. Por isso que me afetou o que ocorreu. O futebol é uma filosofia de vida. Aprendi a perder, mas sempre em grupo. É difícil de aceitar. Mesmo nas regiões em guerra, o futebol é jogado. O futebol é algo que vai além de questões pessoais. Concordo com os franceses quando dizem que o futebol deixa as pessoas loucas.

AE – O senhor era muito próximo de Platini. O que o acha dele como candidato?

Blatter – Não vou comentar isso.

AE – Quem são seus amigos?

Blatter – Minha melhor amiga é minha filha. Não se pode fazer amizades com todos.