Jardim Sabará, Cidade Industrial de Curitiba. Numa das maiores comunidades carentes da capital, a violência está perdendo lugar para o futebol. Organização não governamental que atua na região, o Centro de Assistência Social Divina Misericórdia está ganhando o apoio do Atlético Paranaense, num projeto que já fez muitos jovens trocarem as armas pela bola.

Desde o último dia 16 de junho, mais de 150 alunos da Escola de Futebol e Cidadania Sabará vestem a camisa rubro-negra em busca do sonho de ser jogador profissional. Mantida pela ONG, a escolinha é um dos braços de um projeto social que está mudando a realidade dos 150 mil habitantes da região.

Uma comunidade abandonada e dividida por uma sangrenta briga de gangues. O cenário encontrado em 1999 pela irmã Anete Giordani, enviada pelo Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus para ser umas das coordenadoras da ONG, era desolador. ?Eram freqüentes os tiroteios e houve muitas mortes. Os mais pequenos já iam crescendo com o sentimento de vingança?, relata.

Ao reformular a atuação da entidade na região, que até então se limitava a distribuir cestas básicas, irmã Anete encontrou no esporte uma forma de afastar as crianças e adolescentes da violência. Além de duas creches e do Centro Juvenil, a ONG passou a administrar em 2003 a escola de futebol. Tudo com recursos próprios, arrecadados através de festas e doações, algumas parcerias e apoio da Prefeitura, que cedeu bolas, redes e outros materiais. ?No início, alguns vinham para as aulas armados?, recorda.

Sucesso

O primeiro desafio era resgatar a auto estima dos jovens. ?Eles não queriam usar o nome Sabará. Achavam que seriam discriminados?, lembra irmã Anete. Uma pesquisa na internet ajudou a mudar a opinião dos alunos. ?Descobrimos que Sabará é uma cidade de Minas Gerais, famosa pela produção de diamantes. Então, passamos a mostrar que também temos nossos diamantes. Só falta lapidá-los.?

Com a equipe montada e a pedra preciosa escolhida como símbolo, o time do Sabará passou a participar de campeonatos amadores. E logo vieram títulos, artilheiros e a atenção de alguns olheiros. ?Antes da parceria com o Atlético, chegamos a mandar jogadores para as categorias de base do Coritiba e para o Trieste?, revela irmã Anete.

Ao mesmo tempo, os efeitos dos projetos da ONG passaram a ser percebidos por toda a comunidade. ?Hoje a violência diminuiu muito. Alguns casos que ainda ocorrem são rixas antigas. Os mais jovens não se envolvem mais com essa vida?, afirma a irmã Anete.

Sonho: ser jogador

A parceria fechada com o Atlético abre novas perspectivas para a Escola de Futebol e Cidadania Sabará. Além de doar bolas, uniformes e todo o material de treinamento, o Furacão está cedendo a metodologia aplicada em suas Escolas de Formação de Talentos. Mais do que isso.

A proximidade com um dos maiores clubes do Brasil dá aos alunos da Sabará uma motivação inédita. ?Ser jogador é o sonho de todos aqui.

A parceria com o Atlético melhorou tudo. Além do material, também cresceu o incentivo e a disposição de todos para continuar?, diz o garoto Lucas Henrique Motta, 16 anos. Lucas, atleticano ?fanático?, não esconde a alegria em treinar com a camisa do time do coração. Mas quem torce por outros clubes não reclama. Luan de Souza Almeida, 15 anos, é coxa-branca, mas não se importa em vestir vermelho e preto. ?Não interessa.

O importante é a oportunidade que estamos tendo. Temos que aproveitá-la?, resume. Quem se destacar em jogos e treinos do time do Sabará certamente chamará a atenção do Rubro-Negro.

Os professores da escolinha passaram por um curso no CT do Caju, onde aprenderam a metodologia do clube. O Atlético também envia, uma vez por semana, um supervisor para observar o trabalho.  Além disso, os alunos irão participar dos torneios internos, entre todas as escolas do clube. Mais uma chance para os jovens brigarem por uma chance nas equipes oficiais do Furacão. ?É a grande oportunidade de abrir as portas para estes meninos. Já mandamos crianças para Minas, São Paulo, mas não havia como custear tudo isso. Então, sempre parávamos em um ponto. Agora, há possibilidade desses meninos irem mais longe?, comemora a irmã Anete.

Atlético trabalha em silêncio

Valquir Aureliano
?Temos que contribuir com a comunidade?, diz dirigente do Atlético.

A parceria com a escola do Jardim Sabará é o primeiro passo de um amplo projeto social planejado pelo Atlético. ?Com essa parceria estamos dando início a uma série de ações sociais?, garante o coordenador das Escolas de Formação de Talentos do clube, Eduardo Requião.

Reconhecido pela sua estrutura e patrimônio, o Furacão também pretende se tornar referência em responsabilidade social. ?Não adianta ter a Arena, o melhor Centro de Treinamentos e não contribuir com a comunidade. Esse projeto é o marco inicial e ainda vamos ajudar muito mais?, afirma Requião.

Valquir Aureliano
Irmã Anete Giordani: o anjo da guarda do projeto.

Além do convênio com a entidade da CIC, o Furacão também é parceiro da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer de Curitiba no ?Projeto Peladeiros?. O clube fornece material esportivo e a metodologia de suas escolas de futebol em aulas que acontecem todas as segundas-feiras, no Parque Peladeiro, mantido pela Prefeitura, na BR-277. ?Junto com a escolinha do Sabará o projeto atende cerca de 500 crianças?, diz Eduardo Requião.

A estrutura das 32 escolas de futebol do Atlético, que têm cerca de 4.500 alunos em todo o Brasil, também é utilizada pelo clube em campanhas como a ?Marque um golaço?, que no mês passado arrecadou mais 200 pares de chuteiras, doados para as crianças que participam do ?Projeto Peladeiros?.

Essas iniciativas são os primeiros passos rumo a um projeto bem maior, ainda mantido em sigilo pelo Atlético. O clube planeja seguir o exemplo de grandes clubes da Europa e criar nos próximos anos a Fundação CAP, para coordenar todas as ações sociais do Furacão.