No mesmo dia, dois jogadores que tiveram passagens marcantes pelo futebol paranaense reencontram seus ex-clubes. Ambos começaram como ídolos, fizeram gols e fama em Curitiba, e terminaram saindo pela porta dos fundos.

Até o número de jogos em cada clube é parecido. E hoje, não só são detestados pela maioria dos torcedores de Atlético e Coritiba, como também vestem as cores rivais, numa incrível coincidência. Amanhã, vamos rever Marcelinho Paraíba enfrentando o Coxa e Rafael Moura encarando o Furacão.

Os jogadores carregam histórias repletas de tensão. Rafael chegou primeiro e saiu antes, afastado oficialmente do Atlético por indisciplina. Marcelinho quase foi alvo da fúria dos vândalos que invadiram o gramado do Couto Pereira em 6 de dezembro, quando do rebaixamento do Coritiba. Saiu sem dizer adeus e sem provocar saudade, mesmo eleito um dos melhores jogadores da temporada no futebol brasileiro.

Mas eles também levaram alegria para as torcidas da dupla Atletiba. Rafael, o He-Man, foi artilheiro e destaque do Furacão na conquista do Campeonato Paranaense de 2009. Ajudou na reabilitação da equipe no ano anterior, quando o time fugiu do rebaixamento.

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Marcelinho Paraíba hoje no Sport.

Marcelinho, o Paraíba, foi tão ídolo coxa que trouxe a própria banda para fazer um dos shows do centenário do clube. Além disso, foi um dos líderes do time semifinalista da Copa do Brasil. Trajetórias semelhantes no glória e no fracasso.

A fina ironia da história marca as transferências dos jogadores após saírem de Curitiba. Marcelinho foi para o São Paulo e, mais tarde, emprestado para o Sport, rubro-negro como o Atlético.

E Rafael saiu direto do Furacão para o Goiás, alviverde como o Coritiba. Para fechar tantas semelhanças, eles voltam a encontrar suas antigas equipes no mesmo dia. Como serão esses reencontros?

Da fama ao afastamento

Junho de 2008. Vindo da França, o atacante Rafael Moura chegava ao Atlético como uma esperança, não muito confiável, de recuperação no Campeonato Brasileiro.

Ele não tinha grandes passagens nem por Fluminense, nem por Corinthians. Mas se encaixou perfeitamente no esquema que Geninho montou, e virou o artilheiro do Furacão.

Como sempre acontece com quem joga com raça (às vezes até demais), Rafael se tornou rapidamente ídolo da torcida atleticana. A galera via nele, naquele início de história, um exemplo para outros jogadores, que não demonstravam a mesma aplicação. Os sete gols no Atlético foram fundamentais para a fuga do rebaixamento, e o centroavante virou prioridade para a temporada seguinte.

E o He-Man não decepcionou a galera no Paranaense de 2009. Foi o artilheiro da competição, com 14 gols, e principal jogador do campeonato. Era quase uma unanimidade.

Articulado e inteligente, Rafael Moura se destacava dos demais. Tinha resposta para tudo, não fugia dos confrontos com os comentaristas, era bem relacionado com a torcida organizada.

Até chegar o Campeonato Brasileiro. Os maus resultados derrubaram Geninho e fizeram vir à tona rumores de problemas internos no elenco. Com Waldemar Lemos, nada mudou, e a diretoria do Atlético foi obrigada a intervir fortemente no departamento de futebol. Contratou Ocimar Bolicenho e Antônio Lopes. Pouco tempo depois, Rafael Moura encabeçava a lista de afastados do elenco.

Apesar das negativas dos cartolas, o problema era sério. Jogadores reclamavam abertamente do estilo de Rafael Moura, que teria humilhado jogadores do time júnior – os mesmos que logo seriam seus companheiros.

O perfil contestador do atacante o teria levado para o conflito com a diretoria. Defendeu-se das acusações, mas não adiantou. Para muitos torcedores, ele era a “laranja podre” do elenco.

E como o Atlético, se recuperou no campeonato, o rumor ganhou ares de verdade. Ao deixar o clube para defender o Goiás, Rafael Moura deixou um cartel de 52 jogos, 28 gols e alguns desafetos em Curitiba.

Símbolo do centenário

Março de 2009. Festa no Aeroporto Afonso Pena. A torcida do Coritiba não comemorava tanto uma contratação desde a vinda de Aristizábal, cinco anos antes.

O alvo de tanta euforia era Marcelinho Paraíba, contratado junto ao Flamengo com o mais alto salário do futebol paranaense à época, aproximadamente 200 mil reais. O início da relação entre o Coxa e o jogador foi de lua-de-mel.

No Campeonato Paranaense, não conseguiu ser campeão, mas foi o craque de um Atletiba na Arena com vitória alviverde por 4×2. Na Copa do Brasil, se destacou sendo um dos artilheiros da competição, e levando o Cori para as semifinais.

Não passou pelo Inter, mas a torcida imaginava que com Marcelinho era possível até sonhar com uma vaga na Copa Libertadores da América, fazendo uma boa campanha no Brasileiro.

Só que a Série A de 2009 foi um pesadelo para o Coritiba. Marcelinho, apesar de decidir partidas, exagerava nos cartões amarelos e desfalcava o time em jogos importantes.

Seus privilégios no Alto da Glória incomodavam os companheiros. Além do alto salário, ele ficava sozinho nas concentrações e tinha um dia a mais de folga que os outros atletas. Em algumas viagens, levou a família. E ainda haveria um suposto excesso nas noitadas. A relação já não era tão bonita assim.

E terminou na quase-tragédia do dia 6 de dezembro. Marcelinho saiu no dia seguinte da cidade, recebeu prêmios individuais e anunciou sua ida para o São Paulo.

Apenas nove meses e 51 jogos depois, terminava a história daquele que veio para ser o craque do centenário do Coritiba, mas que acabou sendo um símbolo do fracasso coxa em 2009.