Quando dois concorrentes, adversários por profissão, se encontram, uma linha tênue separa um elogio de uma provocação. Segunda-feira à noite, o técnico corintiano, Carlos Alberto Parreira, abusou da sutileza ao “elogiar” o Santos e o treinador adversário, Emerson Leão. Enquanto alguns, mais distraídos, juram ter ouvido Parreira dizer que o Santos já está com a mão no título. Nas entrelinhas, um observador mais astuto, entendeu que ele está, habilmente claro, transformando o favoritismo em um peso para a equipe santista e, principalmente, deixando claro que o Corinthians vai se desdobrar em campo para levar o título.

Os dois treinadores se encontraram em uma casa de espetáculos da capital paulista, na entrega da medalha comemorativa dos 100 anos do nascimento do ex-presidente da República Juscelino Kubitschek, oferecida pelo Superior Tribunal de Justiça Arbitral do Brasil. Os dois, amigos desde a Copa do Mundo de 1970 – Leão era o terceiro goleiro e Parreira, auxiliar de preparação física -, com muito bom humor, abusaram das alfinetadas. A íntegra da entrevista:

Pergunta – Parreira é um ídolo para você, Leão?

Leão –

Eu gostaria de ter um pouco mais a frieza que o Parreira tem na hora de se decidir, de se relacionar. Eu tenho outro temperamento, eu diria até um pouco mais rude, mas o mais importante é que nós temos a mesma origem, a origem da emoção, do espetáculo e da admiração do futebol brasileiro. Quem admira o futebol brasileiro na sua essência, joga pela beleza, e é isso que nós conseguimos.

Pergunta – O Santos tem vantagem?

Parreira –

Nosso time tem um grande poder de superação que não pode ser desprezado.

Leão –

Nossa vantagem não é tão grande assim. O Parreira sabe bem disso, nós estamos sempre correndo atrás. O favoritismo era sempre do adversário. Nós vamos ter de suar ainda. Com o time que o Parreira tem nas mãos, com os jogadores do Corinthians que ele tem, não nos dão o direito de ficar sorrindo toda hora. Nós estamos satisfeitos pelo que já conseguimos, mas ainda estamos muito longe de ter esse título.

Parreira –

Que nada, vocês têm que administrar essa vantagem. O Santos já levou o título. É só acompanhar pela imprensa.

Leão –

Não, não, não.

Parreira – Já levou, já levou… Segundo a imprensa, veja bem. Tem que administrar esse favoritismo.

Pergunta – O Santos perdeu a chance de levar o título no domingo?

Leão –

Eu acho que também nós perdemos uma primeira chance, que poderia ser maior se nós jogássemos na Vila, mas valeu, estamos correndo atrás.

Parreira –

Eu acho que se nós jogarmos o que jogamos no primeiro jogo, o Santos pode comemorar antecipadamente.

Pergunta – Como foi a noite seguinte após a derrota?

Parreira –

Não foi das melhores, com certeza.

Leão –

A minha foi dormindo, porque eu cheguei em casa cansado não fui a nenhum programa de televisão, tem horas que você quer sossego, e isso faz com que você fique mais tranqüilo.

Pergunta – Será que o Leão vai ter uma insônia domingo?

Parreira –

É o que a gente espera, não é verdade?

Leão –

Eu não.

Parreira –

É o que a gente espera.