O clima temperado de Ulsan parece fazer bem a Luiz Felipe Scolari. Desde que chegou à Coréia, o treinador da seleção se mostra afável e até mais descontraído que de costume. Nem a proximidade da estréia em uma Copa tem alterado o humor do responsável pela equipe que, a partir de segunda-feira, tenta a conquista do pentacampeonato mundial.

O gaúcho sangue-quente abandonou – pelo menos até agora – a postura de sargento, de sujeito bravo, baixou a guarda e optou pelo caminho da descontração. A ponto de ter passado duas horas, nesta sexta-feira à tarde, apenas curtindo a movimentação de seus “meninos”, no último treino físico antes do jogo com a Turquia. Enquanto Paulo Paixão puxava o ritmo dos 23 convocados, no campo da universidade de Ulsan, Felipão gastava o tempo em conversa solta nos degraus que fazem a função de arquibancada.

Episódios dos clubes pelos quais passou, observações sobre os momentos que antecedem a estréia brasileira, a fé no poder divino, recordações de antigos técnicos (como seu mestre e guru Carlos Froner) foram alguns dos temas de sua entrevista mais informal desde os dias de treinamentos em Barcelona, três semanas atrás. “Nos meus tempos de Caxias, tinha até mais gente me entrevistando”, afirmou, para os jornalistas que aos poucos foram chegando para ouvi-lo, atraídos pelas histórias.

“É que os torcedores que iam aos treinos e aos jogos também faziam o papel da imprensa, porque me apertavam que só vendo”. O motivo principal da alegria do chefe da “família Scolari” estava poucos metros adiante. O treinador encantou-se com o empenho de seus atletas, que seguiam as instruções de Paixão quase ao pé da letra. “Dá satisfação ver como eles estão fazendo tudo com vontade”, gabava-se.

“Mesmo os reservas estão caprichando”. Os olhos atentos seguiam também os chutes que o preparador de goleiros Carlos Pracidelli dava para Marcos, Dida e Rogério defenderem. “Ele só está colocando a bola, para treinar fundamentos”, observava, para emendar em seguida, assim que Dida levou um gol. “Ih, agora ele me derrubou. Não era para fazer o gol”. Os pontos principais da conversa de Felipão estão a seguir.

Colaboradores

– “Daqui a pouco, todos verão o resultado do trabalho do Paulo (Paixão). Ele deixou essa moçada em belas condições. Tinha muita gente que chegou abaixo do ideal e agora está correndo que é uma beleza. O tempo foi curto. O Rivaldo, por exemplo, está inteirinho e todo mundo duvidava disso. O doutor Runco também tem participação, porque desde o começo tinha certeza de que o Rivaldo estaria recuperado. E sem ter de operar o joelho”.

Ronaldo

– “O Ronaldo tecnicamente está ótimo, como sempre foi. Fisicamente também. Mas claro que ele precisa de tempo, de mais ritmo. Não será só a disputa da Copa que vai deixá-lo como antes. Ele vai jogar o Mundial, participará do Campeonato Italiano e, aí sim, com a regularidade nos jogos, será o mesmo de antes. Mas aqui ele já mostra confiança, dá arrancadas fortes se soltou”.

Ansiedade

– “Normal, como em qualquer início de competição. A gente aos poucos vai sentindo o clima de Copa, fica naquela expectativa, mas que ajuda é a confiança no trabalho. Os jogadores estão tranqüilos, adaptados ao fuso, adaptados até demais. Tem uns que dormem até às 10, 11 horas da manhã. Sinal de descontração”.

– “Sou católico, vou à missa e já descobri que pertinho do hotel tem uma igreja, de São Paulo. Sou devoto de Santo Antônio, por influência de meu pai, e também de Nossa Senhora de Caravaggio. Eles sempre me protegem, tenho imagens que me acompanham aonde quer que eu vá, mas não fiz nenhuma promessa especial por causa da Copa. Eles já têm muito trabalho”.

Adversários

– “Não acordo mais durante a noite pensando na Turquia. Já tenho muitas informações dela e continuo a ver teipes de jogos. O Jairo dos Santos também levantou muito material sobre a China, que joga o básico, corre bastante e tem um treinador esperto demais. O Bora Milutinovic é sabido e não foi por acaso que está no seu quinto Mundial. A Costa Rica também a gente conhece bem, pois o Gilson Nunes foi treinador dela”.

Roteiros de viagem

– “Foi ótimo ficarmos aqui. Os campos de treino são bons, temos também um ginásio para os jogadores fazerem trabalhos específicos de musculação. O fato de estarmos em um hotel aberto, não exclusivo, ajuda, pois os atletas têm contato com outras pessoas e não ficam confinados nos quartos. Para as próximas fases, será melhor viajarmos para cada sede logo após um jogo. Com isso, ganhamos um dia de treinamento, pois somos obrigados sempre a chegar na véspera e os deslocamentos no Japão são mais complicados do que na Coréia. Então, é melhor chegarmos dois ou três dias antes”.

Leituras

– “Quando eu disse que estava lendo a “A arte da Guerra”, a editora ficou entusiasmada e me mandou mais seis exemplares. Eu distribuí para os meus auxiliares, porque aborda temas como liderança, iniciativa. Depois, me mandara também um monte de “Seleções”, de livros da Confederação Sul-Americana. Meu quarto parece uma biblioteca e eu sou um livreiro. Mas é bom, porque passo o tempo livre ocupado com essas leituras.

O exemplo

– “O maior treinador que tive foi Carlos Froner. Ele tinha jeito sério, mas sempre foi um sujeito formidável. Os jogadores o adoravam, apesar das broncas. Mas sempre foi generoso e amigo. Ainda hoje é uma das pessoas que mais admiro”.