Rio – O presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), Luiz Zveiter, garantiu ontem que o escândalo da arbitragem não provocará a paralisação e nem virada de mesa no Campeonato Brasileiro. Segundo ele, o máximo que o caso Edílson Pereira de Carvalho pode provocar é a anulação de jogos, com realização de nova partida, nos casos em que a interferência do árbitro no resultado for comprovada pelas investigações.

Zveiter afirmou, porém, que ainda é cedo para qualquer decisão, já que os primeiros resultados só devem sair em duas semanas.

?Em hipótese nenhuma haverá paralisação do campeonato?, afirmou o presidente do tribunal, confirmando o que disseram fontes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) consultadas anteontem pela Agência Estado. Na sua opinião, o caso de Edílson é isolado e não provocou uma ?contaminação? que justifique a suspensão do torneio. ?Não há o caos que querem instalar. O que temos, por enquanto, são denúncias que serão investigadas na esfera criminal?, disse, informando que o STJD já instaurou uma comissão para avaliar as partidas apitadas pelo árbitro.

Formada pelos ex-árbitros Carlos Alacon, da Confederação Sul-Americana de Futebol, Edson Rezende e Valquir Pimentel, a comissão vai rever oito jogos para analisar se houve influência no placar. Em três partidas – Juventude 1 x 4 Figueirense, São Paulo 3 x 2 Corinthians e Fluminense 3 x 0 Brasiliense – essa hipótese já foi descartada, a partir dos depoimentos do próprio árbitro ao Ministério Público. ?Ele disse que tentou vender esses jogos para os apostadores mas não conseguiu?, contou Zveiter, que conversou com os procuradores responsáveis pelo caso.

Uma outra comissão, coordenada pelo presidente da 4.ª Comissão Disciplinar do STJD, Marcus Basílio, está em São Paulo acompanhando as investigações. Esse grupo foi formado no dia 14 de setembro, a partir de denúncias surgidas na imprensa sobre manipulação de resultados no campeonato. ?Mas agora, com as novas informações (extraídas do depoimento de Edílson), vemos que o caso é muito mais grave?, afirmou.

O presidente do STJD informou que Basílio chegou a colher depoimento do zagueiro Sebá, do Corinthians, que acusa Edílson de tê-lo agredido em uma partida em que o Timão perdeu de 3 a 2 para o São Paulo. Na ocasião, segundo depoimento do jogador argentino, o árbitro teria lhe chamado de ?gringo de m…?. Zveiter disse não ter dúvidas de que o caso tem relação com as denúncias de manipulação de resultados. Segundo este raciocínio, uma das estratégias de Edílson seria forçar o descontrole emocional dos atletas.

Caso sejam comprovadas as denúncias, o árbitro será banido do futebol. As investigações do STJD devem ser concluídas em um mês. Na primeira quinzena, explicou o presidente do tribunal, a comissão de ex-árbitros vai elaborar um laudo sobre a atuação de Edílson durante o campeonato.

O trabalho terá como base os depoimentos dele ao Ministério Público e à Polícia Federal. Depois, o tribunal analisa os fatos e decide o futuro do árbitro e a realização ou não de novas partidas.

Paulista

O presidente do STJD, Luiz Zveiter, disse que, em tese, o resultado do campeonato paulista, vencido pelo São Paulo poderia ser impugnado, caso as investigações concluam que a atuação do árbitro Edilson Pereira de Carvalho interferiu no resultado final da competição.

Em depoimento à Polícia Federal, Edílson contou que, além do Brasileiro, também manipulou resultados no Paulistão 2005 e na Copa Libertadores da América. ?Se tiver que anular o campeonato, anula-se?, afirmou Zveiter, ressaltando, porém, que o caso será apurado pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Estado.

Prejudicado, Cori vai aguardar

Confiar em quem? As denúncias sobre a ?máfia? nacional do apito apresentadas pela edição desta semana da revista Veja, colocaram todo o Brasileirão sob suspeita. As conversas do árbitro Edílson Pereira de Carvalho com grandes apostadores de sítios ilegais escancararam a crise de credibilidade do nosso futebol – e aumentaram as dúvidas sobre a arbitragem, já manchada pela ?crise do bruxo? no Paraná. Clubes e jogadores estão surpresos com a maior ofensiva do crime no País, desde a Máfia da Loteria Esportiva, no início dos anos 80.

Se naquela oportunidade a crise estava disseminada, tanto que abalou o principal jogo de azar do Brasil, agora é um fato localizado – mas que afetou os 22 clubes do Brasileirão. Edílson foi ?pego? em gravações confirmando o acerto das partidas em que trabalhou no campeonato – foram onze, muitas delas com lances polêmicos. O acerto envolvia as apostas teoricamente mais surpreendentes, as ?zebras?, que valeriam mais para os apostadores. Estes, por sua vez, colocavam altos valores em determinadas equipes, pois tinham a certeza da manipulação quando necessário.

Um dos times prejudicados foi o Coritiba, que perdeu para o Internacional no dia 21 de agosto, na última rodada do primeiro turno. Após a partida, o meia Marquinhos (em recuperação de uma operação no joelho) reclamou com veemência de Edílson Pereira de Carvalho. ?O juiz não dava pênalti para o Coritiba. Eles sempre agarravam dentro da área e ele não marcava nada. Usou de dois pesos e duas medidas?, disse à época. ?Houve dois lances de penalidade para a gente que não foram marcados, um no (Marcelo) Peabiru e outro no Jackson?, lembra o técnico Cuca.

Em nota oficial, divulgada sábado, a diretoria do Coxa lamentou o episódio. ?É muito triste ver que, no momento que o futebol brasileiro parecia recuperar a credibilidade, surge um fato como este, que involuntariamente atinge todos os que participam do campeonato brasileiro?, afirmou o vice-presidente André Ribeiro. O clube vai avaliar se toma as atitudes cabíveis junto ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva, que seria o pedido de anulação da partida.

O presidente do Paraná Clube, José Carlos de Miranda, ainda estava buscando informações sobre o caso – por sinal, Edílson estava no sorteio do jogo de ontem entre o Tricolor e o Fortaleza. ?A gente, assim como todos, só soube do que aconteceu pela imprensa. Mas é lamentável que isso siga ocorrendo no nosso futebol. Às vezes algumas pessoas se esquecem que o futebol é a vida para milhões de brasileiros. A minha posição pessoal é que os jogos que o árbitro apitou sejam anulados?, comentou o dirigente. Procurado pela Tribuna, o presidente do Conselho Deliberativo do Atlético, Mário Celso Petraglia, não quis se manifestar e o presidente do clube, João Augusto Fleury da Rocha, não atendeu aos telefonemas.

Edílson aceita contribuir com investigação

São Paulo – O árbitro Edílson Pereira de Carvalho, preso temporariamente sob a acusação de vender resultados de jogos do Brasileiro, do Paulista e Libertadores, aceitou fazer delação premiada, oferecida pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. Por meio desse recurso, o réu que colabora com investigações pode ter a pena reduzida em até dois terços.

?No momento da sentença, se ele for condenado, o juiz decide se aplica ou não a delação premiada?, explicou o promotor José Reinaldo Carneiro, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).

Segundo Carneiro, o árbitro está resignado com a prisão e colabora com a apuração. ?Foi com a delação premiada que Edílson contou que foi um sócio ou um ex-sócio do árbitro Paulo José Danelon que o colocou no esquema?, afirmou o promotor. ?Danelon é formalmente investigado.?

Segundo o promotor, o momento é de ?esgotar as informações que ele (Edílson Pereira de Carvalho) tem a fornecer? e depois ampliar a investigação aos demais envolvidos.