Um gol, uma vitória e o título mundial não vão resolver os problemas do sofrido povo argentino, mas pelo menos darão um pouco de alegria e força para enfrentar a crise. É com esse sentimento nacionalista que os jogadores da Argentina começam a defender as cores azul e branca na Copa. A estréia será na madrugada de domingo, contra a Nigéria, às 2h30 (de Brasília), em Ibaraki, no Japão.

A declaração do experiente volante Diego Simeone, de 32 anos, revela o pensamento do grupo. “Infelizmente, não podemos dar um prato de comida à nossa população, mas podemos dar um pouco de alegria, felicidade.” Embora famosos e milionários, os craques argentinos não escondem a preocupação com tudo o que envolve sua comunidade. Anteontem, muitos deles assistiram ao pronunciamento do presidente Eduardo Duhalde, transmitido por uma emissora de televisão da Argentina, captada por uma parabólica instalada na concentração da equipe.

Incrível mesmo foi a reação dos jornalistas argentinos que estão no Japão para a cobertura do Mundial. Cerca de 10 pessoas trabalhavam, na manhã de ontem, na sala de imprensa em Hirono. Uma funcionária japonesa levou até o local uma fita com a gravação do discurso de Duhalde, sem avisar a ninguém, e a pôs no videocassete. Quando viram as imagens, todos os repórteres pararam o que estavam fazendo e correram para a frente da televisão. O desespero já ultrapassara todos os limites.

Na concentração, antes e após os treinos, o assunto “crise” é o mais abordado entre membros da imprensa e atletas. Claudio Lopez deve ganhar uma vaga no ataque ao lado de Crespo ou Batistuta. Mas fez questão de mandar um recado à população. “Nesse momento, não encontro palavras de alento, espero que possamos ganhar a Copa para dar um pouco de alegria a todos.”

Verón, por outro lado, pediu que as pessoas não se esqueçam dos problemas caso a Argentina seja campeã. Teme que o futebol se misture com a política e encubra a corrupção e os erros dos governantes “Não queremos tapar nada com a vitória, como ocorreu em 78, quando a Argentina vivia sérios problemas e os apagou com o título mundial.”

A seleção vem cumprindo seu papel. Dominou as eliminatórias e, depois da desastrosa estréia dos campeões, figura como grande favorita ao título. Um eventual fracasso seria mais um castigo para a população. Isso está sendo usado pelo técnico Marcelo Bielsa para por pressão sobre os jogadores. “Somos obrigados a dar essa alegria ao povo pela estrutura que temos, mesmo que o país não estivesse passando por essa situação.”

Argentina – Cavallero; Pochettino, Ayala e Samuel; Zanetti, Simeone (Almeyda), Verón, Ortega e Sorín; Claudio Lopez e Batistuta (Crespo). Técnico – Marcelo Bielsa.