A reação ao afastamento da presidente da Confederação Brasileira de Ginástica (CBGin) demorou um dia. Talvez o baque pela força da ação impetrada pela Justiça, com o despacho prevendo a retirada de Vicélia Florenzano do cargo que ocupou durante os últimos 15 anos (ela preside a entidade desde 1991), tenha sido muito forte. Mas, se demorou, Vicélia pode ter a certeza de ser uma pessoa muito bemquista entre os seus.

Ontem, meia hora antes de ter início o treino da tarde da seleção permanente, no centro de excelência da ginástica, que fica no Centro de Capacitação Física do Governo do Paraná, no bairro do Tarumã, em Curitiba, todos os atletas da seleção permanente (inclusive os atletas masculinos que estavam de folga), técnicos, dirigentes e até mesmo uma adversária (mas amiga) de longa data, a técnica Georgete Vidor, compareceram a uma cerimônia de desagravo em favor de Vicélia.

E foi justamente a ex-técnica e hoje deputada estadual do Estado do Rio de Janeiro, Georgete Vidor, a mais ferrenha defensora do retorno de Vicélia à direção da CBGin, ?no menor espaço de tempo possível?, como enfatizou.

Atletas como Mosiah Rodrigues, eleito informalmente como representante dos demais, Daniele Hipólito, Diego Hipólito e Daiane dos Santos, expuseram suas opiniões, sempre favoráveis ao retorno de Vicélia ao cargo.

Os atletas, no entanto, fizeram uma espécie de pacto: seguir treinando com mais afinco e dedicação, a cada dia, com o intuito de manter o nível de competitividade da equipe, uma vez que a seleção terá compromisso já no mês de março (uma etapa da Copa do Mundo de Ginástica), como uma forma de reforçar o trabalho que vinha sendo conduzido por Vicélia à frente da entidade. ?Estamos nos manifestando a favor da Vicélia, como uma forma de reconhecimento ao trabalho que ela fez ao longo do tempo que comanda a entidade. Quando eu cheguei aqui, assim como os mais antigos, como a Camila (Comin), tínhamos uma realidade diferente da que hoje vivemos. Se temos hoje condições de alcançar bons resultados, é pela boa gestão que a Vicélia conduziu a Confederação, que nos deu estrutura para trabalhar?, expressou Mosiah.

Daiane dos Santos foi mais enfática: ?Se hoje temos dinheiro e patrocínio é porque ela conseguiu. Não adianta ter talento se não tem estrutura.

A ginástica é o que é graças a ela?, declarou a campeã.

Já Lucélia Pissaia, presidente da Federação Paranaense de Ginástica, falou que estava ali representando clubes e entidades que ajudaram a reeleger Vicélia, para que ela retorne ao posto e dê continuidade ao trabalho que vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos.

Georgete, de adversária se transforma em defensora

Depois dos atletas, quem falou na ?sessão de desagravo? a favor da permanência de Vicélia Florenzano na direção da CBGin, foi Georgete Vidor. Ela se posicionou na frente dos atletas, que estavam sentados na área de treinamento, e fez um discurso rápido e contundente, em defesa da atual gestão, rebatendo, inclusive, um dos principais pontos que gerou a crise, falando que na gestão de Vicélia, todas as modalidades da ginástica (acrobática, trampolim, aeróbica e geral), inclusive a ginástica rítmica, foram beneficiadas pela CBGin, com repasse de recursos e estruturação de centros, trabalho que transformou o esporte um dos mais organizados do Brasil.

?Vicélia é uma batalhadora e tem competência. Ela fez com que as outras ginásticas se desenvolvessem?, enfatizou Georgete.

Briga política

E foi justamente Georgete a única a falar abertamente sobre a questão que levou à ação que afastou Vicélia do cargo. ?Essa é uma ação eminentemente política, pois é o mesmo pessoal da GR que tentou derrotar Vicélia na eleição passada (em fevereiro de 2005) e que montou uma audiência pública na Câmara dos Deputados, na qual não conseguiu provar nada contra a administração dela?, explicou Georgete.

Outra que defendeu a permanência de Vicélia na direção da entidade foi a treinadora Irina Iliaschenko, uma das primeiras a chegar ao País para treinar a seleção de ginástica artística. ?Este é um momento muito difícil pra gente. Nem consegui dar o treino de hoje, pois a gente fica insegura com uma situação como essa. Ela (Vicélia) é muito organizada e o trabalho que realizou é muito respeitado, dentro e fora do Brasil?, pondera a treinadora, completando: ?Antes de a Vicélia implementar este trabalho, as brasileiras chegavam para treinar antes das competições e nem deixavam elas utilizarem os aparelhos. Hoje, as pessoas esperam pela chegada da seleção. Querem ver a Daiane, a Daniele e o Diego?, finaliza.

Disputa política pela GR deu origem à crise

A ação que gerou o afastamento da presidente da Confederação Brasileira de Ginástica foi movida pela Associação Desportiva Unopar (Universidade Norte do Paraná), que contesta a desativação da seleção permanente de ginástica rítmica que era mantida na instituição de ensino superior, em Londrina.

É uma batalha de política interna da entidade, que saltou para a seara da Justiça. A seleção permanente de GR era uma das mais bem-estruturadas da América Latina. Mas Vicélia entendia que o trabalho deveria ser pulverizado, e descentralizado, atendendo a outras regiões do País.

Seguindo esta diretriz, Vicélia criou centros de GR em Vitória (ES) e Aracaju (SE), para onde deveriam seguir as atletas da seleção. Bárbara Laffranchi, então treinadora da seleção, se negou a sair de sua base, em Londrina. Vicélia repassou sua função a outras treinadoras, apaziguando ainda as críticas que recebia por centralizar demais a GR nas mãos de Bárbara. ?Os técnicos de GR são contestadores por natureza?, comentou Georgete Vidor, ex-treinadora da seleção brasileira de ginástica artística.

Como reação, a família Laffranchi tentou afastar Vicélia através das urnas. Montou uma chapa e concorreu em fevereiro de 2005 à eleição. Como não tinha eco na base, e para não sofrer derrota fragorosa, retirou a candidatura. Mas com base numa auditoria interna, feita pela CBG, a família Laffranchi contratou um escritório de advocacia de Curitiba e ingressou na 10.ª Vara Cível de Curitiba. O juiz Rogério Assis decretou o afastamento de Vicélia e determinou a posse da vice-presidente, Maria Luciene Rezende.

O advogado da CBGin, Cleverson Marinho Teixeira, no entanto, contesta a ação. ?A Vicélia foi afastada sem ser ouvida?, critica o advogado, alegando ainda que a ação foi montada com base apenas numa parte da auditoria interna. ?Se há irregularidades nas contas de uma entidade, ela não sobrevive por muito tempo, pois a prestação de contas deve ser feita mês a mês?, explica Teixeira, que revela que o processo já está com 592 páginas e que vai deixar para segunda-feira para entrar com um recurso capaz de recolocar Vicélia no cargo.