França é um dos ?conhecidos?
que estão no país asiático.

O que os paranaenses sabem sobre o Vietnã? Pouco, a não ser as histórias sobre a maior derrota militar já sofrida pelos Estados Unidos, na guerra encerrada há 30 anos. Mas, nos gramados de futebol, o país asiático e a terra das araucárias mantêm uma inusitada ligação. Graças a um convênio firmado no ano passado pelo Matsubara, os vietnamitas foram os estrangeiros que mais contrataram jogadores paranaenses em 2005.

De acordo com os registros da Federação Paranaense de Futebol, o Vietnã, 106.º colocado no último ranking da Fifa, contratou doze atletas do Estado entre 1.º de janeiro e 1.º de agosto. Em segundo lugar vem Portugal, com sete atletas, seguido de Japão e Coréia do Sul (quatro).

Juntos, os clubes de Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha e França, centros mais desenvolvidos do futebol mundial, importaram no mesmo período somente seis futebolistas do Estado. No total, 60 atletas paranaenses deixaram o País em busca de melhor sorte em 2005.

Todos os ?aventureiros? que se arriscaram no país oriental saíram do Matsubara. Embora afastado do profissionalismo desde 2002, o clube de Cambará foi convidado para um torneio internacional no Vietnã, disputado em setembro de 2004. Um time foi montado às pressas com atletas profissionais de vários lugares do Brasil que não estavam em atividade. O saldo foi um terceiro lugar entre dez concorrentes e as portas abertas para um novo mercado.

Depois do torneio, o diretor Mauro Onizuka passou três meses no país asiático, intermediando o empréstimo dos brasileiros. Doze deles aceitaram o desafio em troca de salários que variam entre R$ 2.500 e R$ 7.500.

Mas a vida no palco da guerra mais retratada do cinema não é fácil. O próprio Onizuka sentiu a drástica mudança cultural, apesar de já ter morado no Japão. ?A maior dificuldade é a comida. Para eles, tudo o que é verde ou que se mexe vai para a mesa?, brinca, explicando que a peculiar culinária vietnamita inclui pratos à base de insetos e carne de cachorro. Mesmo nos mercados, comida ocidental é uma raridade. Outro empecilho para a adaptação é o forte calor no país.

Atraso

Além disso, a liga vietnamita padece bastante de infraestrutura. Os clubes não têm Departamento Médico e as contusões são tratadas por clínicos gerais. A preparação física é arcaica e inclui atividades como subidas e descidas de escadas e corridas com o companheiro nas costas. ?Alguns jogadores sofreram tendinite por causa destes exercícios?, conta Mauro.

Assim, quatro dos desbravadores do futebol do Vietnã sucumbiram perante as dificuldades e voltaram ao Brasil. Entre os que continuam o mais conhecido é o meia Rogério Barbosa, 28 anos, revelado pelo União Bandeirante e com passagem pelo Coritiba em 1997. Outros com alguma bagagem são o zagueiro Wagner, que teve curta experiência no Corinthians, e o atacante França, ex-Toluca, do México. Os demais são atletas de 24 a 28 anos, em cujos currículos constam somente nomes de pequenos clubes brasileiros.

Segundo Onizuka, a ?Conexão Vietnã? ainda não rendeu dividendos para o Matsubara. O plano é usar o pequeno país como vitrine para centros mais desenvolvidos do Oriente, como Japão, Coréia do Sul e a própria China. Uma ?aventura?, como o próprio dirigente define. ?Mas é melhor que deixar o jogador parado. No final, vale a pena?, diz, mais esperançoso do que satisfeito.

Desbravando outros gramados

O Vietnã não foi o único destino ?bizarro? de jogadores paranaenses em 2005. Outros países com a mesma (falta de) tradição no futebol também abrigaram atletas do Estado na temporada.

O Londrina Jr. Team, por exemplo – equipe sem relação com o Tubarão -, emprestou três atletas para a Eslovênia. O Iraty enviou um atleta para Tunísia, o ex-paranista Salvino foi parar no Casaquistão e jogadores de três clubes diferentes rumaram para Moldova. Os ex-atleticanos Tavares e Orlando foram para outros cantos da Ásia – Malásia e China, respectivamente.

Como era de se esperar, as transações mais lucrativas envolveram países mais tradicionais ou emergentes na ordem mundial. O Coritiba movimentou R$ 21,8 milhões ao vender Roberto Brum, Adriano, Fernando e Miranda para clubes de Portugal, Espanha e França. A compra de Jádson e Fernandinho, do Atlético, custou ao ucraniano Shakhtar Donetsk a bagatela de R$ 36 milhões.

Matsubara quer voltar ao profissionalismo

A passagem da Sociedade Esportiva Matsubara pelo futebol paranaense deixou duas características marcantes: a boa escola de revelação de jogadores e o diminuto público. Rachado por uma intriga familiar, o simpático clube de Cambará despencou no início da década, mas agora planeja a volta por cima na Segundona estadual.

Controlado pela família de origem japonesa que deu nome ao clube, o Matsubara já investia pesado nas categorias de base antes disso ser tradição no Brasil. O resultado foram sete títulos e três vices nas dez primeiras edições do Campeonato Paranaense de Juniores, entre 1977 e 1986, e a revelação de inúmeros jogadores. Foram formados na Vila Olímpica de Cambará o atacante Ratinho (ex-Atlético e futebol alemão), o meia Jean Carlo (ex-Atlético e Paraná), o zagueiro Toninho Carlos (ex-Santos), o atacante Nilmar (ex-Internacional), o lateral-direito Reginaldo Araújo (ex-Coritiba e Santos), o volante Reginaldo Nascimento (Coritiba), e o goleiro Fernando Henrique (Fluminense), entre muitos outros.

Apesar dos dividendos das negociações e de algumas boas campanhas no Estadual, o Matsubara nunca cresceu. Campeão negativo de assistência, o time também sofria pela falta de um empresariado forte na pequena Cambará. A diretoria chegou a transferir a sede para Londrina, em 1995, mas a empreitada não deu certo. O patrono Sueo Matsubara, que bancava o time, abandonou o profissionalismo em 2002, após um racha na família e a queda para a segunda divisão Estadual.

Hoje o Matsubara mantém apenas as categorias infantil e juvenil. Mas há planos para retomar os times júnior e profissional já em 2006. ?O Sueo quer voltar a investir. E a estrutura já está pronta?, anima-se o diretor Mauro Onizuka.