São José do Rio Preto – O Santos alcançou ontem o sonhado título brasileiro, depois de superar uma série de adversidades na temporada. A vitória foi mais difícil do que os torcedores esperavam, mas teve o sabor de uma goleada. Os 2 a 1 sobre o Vasco, no lotado eestádio Benedito Teixeira, em São José do Rio Preto, fizeram do Santos o campeão nacional de 2004 e a melhor equipe do País neste início de século. Em 2002, os paulistas também ficaram na primeira colocação do Brasileiro e, no ano passado, terminaram a disputa atrás apenas do Cruzeiro.

A última rodada foi emocionante e confirmou o sucesso do regulamento de pontos corridos, utilizado desde 2003. A taça acabou nas mãos do time que realmente foi melhor, que soube vencer mesmo sem contar com o principal jogador, Robinho, em partidas importantes, que conseguiu ganhar jogos nos minutos finais, como contra o São Paulo no primeiro turno e diante do Goiás no segundo turno, e não se abateu quando prejudicado pela arbitragem.

"Batalhamos desde o início e não deixamos de acreditar nunca", festejou Robinho, que retornou aos campos após seis rodadas de ausência – esteve fora durante o seqüestro da mãe, Marina Souza, libertada na sexta-feira.

O segundo lugar, não muito comemorado, ficou com o Atlético-PR, que ainda lutava pelo título. Os paranaenses não passaram de empate por 1 a 1 com o Botafogo, que se livrou do rebaixamento. O Vitória, que perdeu da Ponte Preta por 2 a 1, e o Criciúma, que não foi capaz de bater o Coritiba (3 a 3), não tiveram a mesma sorte e caíram para a Série B de 2005. Os dois se juntam a Guarani e Grêmio.

O jogo do título

Mais de 36 mil pessoas prestigiaram o Santos contra o Vasco e foram recompensadas logo nos primeiros minutos. Faltou muito pouco para que o protagonista da decisão, Robinho, abrisse o placar, em cabeçada de dentro da área. O goleiro Everton salvou.

O gol, no entanto, não demorou a sair. Ricardinho, em ótima cobrança de falta, fez 1 a 0 aos 4 minutos de jogo, levando os torcedores ao delírio no Teixeirão.

A equipe paulista seguiu melhor e ampliou a vantagem com Elano, de cabeça, aos 29 minutos. Na comemoração, ele homenageou Narciso, exibindo camiseta com o nome do volante, internado novamente por problemas no nervo ciático.

Um dos momentos de maior alegria acabou sendo frustrado pela arbitragem. No início da segunda etapa, Robinho, em posição legal, driblou Everton e marcou belo gol. O árbitro Leonardo Gaciba anulou o lance, alegando impedimento. Logo em seguida, um susto para os santistas. Marco Brito fez excelente jogada e diminuiu para o Vasco, aos 15 minutos.

Não bastasse a conquista, o Santos ainda bateu o recorde de gols em uma edição de Brasileiro, com 103, garante pela terceira vez seguida presença na Libertadores e vê seu técnico, Vanderlei Luxemburgo, ser campeão nacional pela quinta vez, feito que só ele alcançou.

Luxemburgo: "Sou uma estrela"

São José do Rio Preto – Vanderlei Luxemburgo deixou o gramado do estádio Teixeirão, em São José do Rio Preto, 30 segundos antes do apito final do árbitro Leonardo Gaciba da Silva. Não participou da festa dos jogadores depois do triunfo por 2 a 1 sobre o Vasco, mas tem consciência de que foi determinante para a conquista do título do Santos. "Sou uma estrela. Resolvi problemas e trabalhei muito", afirmou o treinador, sem falsa modéstia. "A torcida me respeita, mesmo a são-paulina, corintiana e palmeirense, pelo que já conquistei."

Em meio à euforia pela conquista de seu quinto título brasileiro – recorde que fez questão de oferecer à família -, Luxemburgo aproveitou para alfinetar os críticos. "Volto a dizer que esse título foi o mais difícil da minha carreira. Fui criticado, disseram que tinha arrumado uma desculpa caso não ganhasse."

Rebateu, também, os comentários de que o Santos só foi campeão porque o Atlético-PR falhou nos momentos decisivos. "Fizemos nossa parte quando ganhamos do São Caetano. Para ser campeão não basta liderar por algumas rodadas, mas chegar ao final em primeiro", lembrou. Para o técnico, a vitória sobre o Azulão por 3 a 2, no ABC, foi o jogo fundamental para o título. "Mostramos força e ganhamos o direito de depender apenas dos nossos resultados."

O discurso de Luxemburgo não mudou quando falou do futuro. Garantiu não ter nada acertado com o Corinthians – leia-se MSI. "Ainda não resolvi o que fazer, mas tenho o direito de decidir o que é melhor para mim", disse o treinador, procurando deixar portas abertas com os dirigentes da Vila Belmiro. "O Santos tem a opção de contar comigo em 2005."

Político, tentou apagar rusgas que ainda tem com a torcida e disse que a conquista redime a conturbada passagem pelo Santos em 1997, quando deixou o clube três meses antes do fim do contrato. "Jogaram moedas em mim, fui criticado, mas não guardo mágoas. O episódio mostrou o quanto os torcedores gostam de mim", afirmou.

E, onde quer que trabalhe, Luxemburgo planeja ampliar a galeria de conquistas. "Este Brasileiro foi difícil, mas já ficou na história. O próximo título sempre será o mais importante", avisou.

Novo rei da Vila Belmiro

São José do Rio Preto – "Robinho – nosso novo Rei." A faixa trazida por torcedores de Fernandópolis ao Estádio Benedito Teixeira, em São José do Rio Preto (SP), não é um exagero. O jovem atacante, ponto de desequilíbrio a favor do Santos, foi o responsável pela campanha vitoriosa no Brasileiro, teve seu nome gritado pelos torcedores antes, durante e depois da vitória sobre o Vasco e saiu de campo consagrado pelo 2.º título nacional na carreira.

Destaque do time de Vanderlei Luxemburgo, Robinho de fato lembrou Pelé. Não apenas na paixão dos santistas. Os contemporâneos de Edson Arantes do Nascimento diziam que, quando o Rei acordava de bom humor era certeza de vitória. Pois o garoto de 20 anos levantou sorridente, demonstrando estar recuperado do impacto pelo já solucionado seqüestro de sua mãe e com muita vontade de entrar em campo. E, no gramado, respondeu com simpatia e acenos aos gritos vindos das arquibancadas. "Olê Olá, o Robinho vem aí e o bicho vai pegar."

E o que os mais de 36 mil pagantes queriam ver, aconteceu. O atacante participou das principais jogadas, amedrontou os zagueiros cariocas e deu o toque de classe a uma decisão que praticamente só teve uma equipe em campo.

Robinho, no entanto, não chegou a ser brilhante. Nem precisava. Cada movimento seu era acompanhado de perto. Dribles e passes, por mais simples que fossem, provocavam aplausos e manifestações eufóricas.

Pedido

"Se Deus quiser, o gol vai sair no segundo tempo", disse, ao sair de campo no intervalo. Tentou muito, mas não balançou as redes do Vasco. No entanto, se o pedido do gol não foi atendido, o título veio para aumentar a glória do autor de algumas das jogadas mais espetaculares da competição.

Até a substituição por Basílio, aos 19 minutos da etapa final foi motivo para aplausos. E no apito de Leonardo Gaciba, que encerrou o jogo, foi um dos primeiros a pular na grade de proteção, para comemorar perto da torcida, e dar a volta pelo gramado do Teixeirão. "Esse título vai para os torcedores, que sempre me apoiaram."

Por tudo isso, o esforço dos santistas para chegar a Rio Preto valeu a pena. Não só pelo título, mas pela oportunidade de ver Robinho, um dos raros exemplos de que o futebol brasileiro ainda não perdeu a arte.

Os torcedores nem se importam se esta foi a última vez que o atacante vestiu a camisa do clube. Apesar das sondagens de Benfica e Real Madrid, os dirigentes pretendem mantê-lo, mas os santistas têm a certeza de que assistiram a um dos maiores jogadores que já passaram pela Vila Belmiro.