É possível estar caminhando bem distraído pela Travessa da Lapa ou dirigir em meio ao engarrafamento contínuo da Rua Mariano Torres e jurar por alguns segundos que a rua não oferece outra coisa senão servir de passagem ao destino final. Mas basta descansar a mente para perceber algo que foge ao comportamento automático e abre outro olhar, mais atento, sobre a cidade. Inquietações e inconformismos estampados em graffitis, lambe-lambes e stencils fazem de muros e paredes suporte para uma arte urbana que converte a cidade em um museu a céu aberto.

É quase infinita a diversidade de imagens e mensagens que cobrem paredes, muros e o que mais possa abarcar um bocado de tinta. Uma frase em especial, estampada em um lambe-lambe, chamou a atenção da historiadora social Elisabeth Serafhim Prosser quando ela andava por uma rua do bairro São Francisco, em 2004: “É proibido calar catarses”. “Essa é a essência da arte de rua. O que eles fazem é não calar tudo o que pensam e sentem”, reflete.

Esse momento fez surgir a vontade de conhecer melhor o trabalho dos grafiteiros – ou artistas de rua. Seis anos de pesquisa se solidificaram no mais completo livro já escrito sobre a arte de rua da cidade: Graffiti Curitiba, lançado na última semana.

Depois de varar os domingos percorrendo os bairros aleatoriamente, Beth conversou com muitos artistas e conseguiu registrar 500 fotografias de muros, paredes, monumentos e prédios com intervenções de arte urbana. Posteriormente, as imagens foram classificadas em categorias, sendo os temas mais recorrentes o ambiente urbano e natural, e também protestos sobre política e sociabilidade.

Algo que começou como pichação, aos poucos, foi incorporando outros elementos como a cor e os desenhos.

À margem

As intervenções manifestadas pelos artistas no espaço urbano, explica a autora, usam a cidade como referência para expor os pensamentos de quem a habita. Consciente de que o preconceito ainda é grande, Beth acredita que ainda há muita falta de conhecimento sobre o assunto. “A gente não gosta do que não conhece. À medida que as pessoas forem conhecendo, as reações vão ser bem diferentes”.

Para os que ainda pensam que graffiti pode ser confundido com vandalismo, a autora destaca que há uma diferença entre “estar à margem e ser marginalizado”. “Esses artistas se colocam à margem do sistema de regras, o que querem é quebrar os padrões. Vandalismo é quebrar ônibus”. O universo de expressão dos grafiteiros inclui as tags, mais conhecidas como pichação. Se os graffitis já enfrentam certa resistência, o picho então é geralmente visto simplesmente como sujeira. No livro, Beth exemplifica que a falta de interesse em “ver o que está escrito” é frequentemente questionada pela arte de rua por meio de frases como: “Você conhece a sua cidade?” ou “A arte que você odeia”.

Há dez anos desenhando na cidade, o artista Paulo Auma abre o foco da discussão. “Na história da arte, muitas situações já causaram estranhamento”. Ele cita a propriedade privada outro ponto fundamental quando se fala em resistência em aceitar o graffiti. Como um prédio pichado na Rua Mateus Leme, no Centro Cívico. A construção está vazia há algumas semanas e há pouco tempo apareceu com tags de cima a baixo. Paulo não condena a atitude, mas diz que essa é uma manifestação natural da metrópole, a de questionar através do graffiti, as questões da cidade. “Poucos movimentos tentam dizer que o espaço público também é seu e que pode ser ocupado. As tags chamaram a atenção para o descaso com o patrimônio que também é nosso, um ,prédio que estava abandonado e poderia ser útil para muitas pessoas que não tem onde dormir”. Beth vê o picho como algo inofensivo, que chega, no máximo a ser uma “violência visual”. “Não se trata de uma violência física, não fere realmente. Pode, sim, agredir na territorialidade, na relação da ordem e da limpeza”. Paulo conta que o graffiti começou como pichação e, aos poucos, foi incorporando outros elementos como a cor e os desenhos. Mas ele deixa claro que a intenção do grafiteiro quando faz uma tag não é chegar a um resultado “bonitinho”, mas sim chamar a atenção para algo que está errado. Ele admite que a aversão a esse tipo de manifestação não tem uma resolução muito fácil. “Também não temos a intenção de esclarecer porque a sociedade não quer entender. Queremos mostrar que a rua é viva. O grafiteiro aprende a ter menos medo da cidade. Tudo depende de como você se relaciona com ela”. Beth completa: “Eles se colocam à margem do sistema, o que querem é quebrar padrões. O objetivo é se divertir na transgressão”.