Apesar das discussões sobre o padrão de tevê digital a ser adotado no Brasil ainda caminharem a passos lentos, uma ?revolução? um tanto silenciosa já se faz presente no dia-a-dia de muitos brasileiros. Mais precisamente nos monitores dos computadores domésticos e nas telinhas dos telefones celulares, que já recebem conteúdos da programação de algumas emissoras de tevê. Mesmo ?engatinhando?, essas novas mídias devem se tornar, em breve, um grande filão a ser explorado por provedores de Internet, operadoras de telefonia móvel, produtoras independentes e, é claro, pelas emissoras de tevê aberta e fechada. O ?foco? principal, porém, deverá ficar com o chamado ?celularvisão?, neologismo para os aparelhos telefônicos capazes de receber conteúdos de tevê.

Para Eduardo Prado, consultor de novos negócios e especialista em tecnologias sem fio, os celulares vão se tornar um veículo de massa em menos de dez anos. ?O grande diferencial é ter entretenimento e informação, com o conceito de mobilidade?, avalia.

É claro que as emissoras de televisão já perceberam que esses novos suportes são importantes ferramentas na conquista de um público fiel. Rodrigo Marti, diretor de novos negócios do SBT, acredita que existe uma grande parcela interessada em assistir à programação da emissora em mídias não convencionais. Embora não disponibilize a programação da tevê em computadores, a emissora já conta com conteúdos exclusivos para celulares desde o segundo semestre de 2005, como ?quiz? de novelas e ?wallpapers? dos artistas do SBT. Marti destaca que o principal apelo para investir no setor é que esses conteúdos ampliam as oportunidades de entretenimento e diversão.

Opinião semelhante tem Milton Turolla, diretor de interatividade da Band, que desde 2004 disponibiliza conteúdos para celulares, como notícias do jornalismo da emissora e da Bandnews e Bandsports. De acordo com o diretor, é preciso acompanhar a evolução tecnológica e testar todas as oportunidades para se manter mais próximo ao público. Turolla conta que, no momento, os donos de celulares podem baixar a programação através de ?downloads? ou de ?streamings?, programa que permite que a informação chegue ao aparelho em partes, porém de forma contínua; ao contrário do ?download?, com essa tecnologia, o usuário não precisa esperar até que todo o arquivo seja baixado. ?Apostar no filão é inevitável, uma vez que são cerca de 86 milhões de aparelhos celulares, contra 60 milhões de televisores?, contabiliza.

Mas nem todas as emissoras de tevê pensam em investir logo em conteúdos exclusivos para novas mídias. A Record, por exemplo, disponibiliza alguns programas jornalísticos na Internet, mas a programação da emissora ainda não pode ser vista nos celulares. A Globo, por seu lado, já começa a se mexer. Até o final do ano, a emissora pretende montar um departamento de criação exclusivo para novas mídias, que ficará responsável pelos conteúdos para celulares e também para a Internet. Esse departamento vai substituir o atual Globo Media Center, que disponibiliza no portal Globo.com os programas da emissora para seus assinantes.

Já as produtoras independentes, por sua vez, também não querem ficar para trás e começam a investir. É o caso da TV Zero e da Lâmpada Soluções, que estão produzindo um seriado exclusivo para celulares. Batizada Édifícil, uma referência à história, que se passa num edifício do centro de São Paulo, a série terá oito episódios e cada um deles com um minuto de duração. Com a participação de Luciana Vendramini, Cazé e Theodoro Cochrane, entre outros, o seriado poderá ganhar mais duas temporadas.

Indefinições digitais

As siglas ATSC, DVB, ISDB e SBTVD podem confundir a cabeça de muitos leigos. Mas uma delas fará parte da realidade brasileira em pouco tempo. Isso porque essas siglas denominam o padrão de tevê digital que será utilizado no Brasil. Embora as discussões sobre o sistema a ser adotado ainda se arrastem, o Ministério das Comunicações trabalha para inaugurar, no dia 7 de setembro deste ano, a primeira transmissão comercial da tevê digital. Para isso, contudo, será preciso escolher entre o padrão americano ATSC, europeu DVB, japonês ISDB e o nacional SBTVD. ?O Brasil só não pode cair na mesma cilada de criar um sistema nacional equivocado, como foi o PAL-M, na época da implantação da tevê em cores?, pondera Eduardo Prado, consultor de novos negócios e especialista em tecnologias sem fio.