Ataíde de Almeida:
A mulher deu-lhe um cutucão
com o braço e o chamou
de sem-vergonha, de
tarado e de outros nomes.

Em outros artigos para este caderno, abordei a importância da constante participação do educando no processo de aprendizagem, principalmente no ensino de história, disciplina que leciono desde 2002. Estimulados, os estudantes do CEEBJA-Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos Ayrton Senna, em Almirante Tamandaré-PR, pesquisaram e trouxeram os resultados dos trabalhos (curiosidades do passado e da atualidade) para a sala de aula. Foram apresentados 53 fatos históricos, alguns arrolados a seguir.

Para eliminar a dor de barriga, usava-se um chá especial. Conforme Eliane da Silva Ferreira, era feito o chá de chifre de boi. Quando o boi era morto o chifre era guardado. Após algum tempo, o chifre era raspado e preparado o chá.

Para dor de dente, havia também uma fórmula. Era usado leite de amoreira brava e cipó milome, de acordo com Edinei Guilherme, Sandra Aparecida Bento e Aparecida Segalla.

Já em caso de fratura, havia uma solução prática. É o que conta Sara Kostiuk Silva e Zilene Siqueira dos Santos. Em Paranaguá, no ano de 1949, uma pessoa quebrou o braço. A fratura foi fixada com um pedaço de madeira, uma tipóia e um emplastro feito de ervas e farinhas. Teve ótima cicatrização.

E o namoro antigo? Beijo nem pensar. Para Geraldo de Melo, as pessoas não se beijavam antes do casamento. O namoro tinha que ocorrer perto dos pais.

O ?morrinho do amor? é o nome como ficou conhecido um bairro de Almirante Tamandaré. Vanderlei Sipla explica que o bairro São José tem esse apelido porque algumas mulheres faziam ponto na rodovia que passa ao lado do bairro e nos pátios das indústrias de artefatos de cal do bairro, daí ?morrinho do amor?.

Flores e penas dos gansos eram aproveitadas. Cleusa Aparecida de Andrade, Ana Paula de Camargo e Suzan Cristine Oliveira informam que as pessoas tinham o hábito de coletar as flores do capim, para a confecção de travesseiros, e as penas dos gansos para a confecção de acolchoados.

Era comum a visita às casas das pessoas. Sueli Marino Fagundes frisa que quando não encontrava ninguém na residência, deixava-se um galho de árvore ou ramo de mato ou flores para avisar que alguém esteve lá.

A história do ?Zé Maníaco?, pseudônimo dado por Ataíde de Almeida, chama a atenção pela falta de compostura e de pudor. Almeida enfatiza:

?Esta história é um fato verídico. Eu presenciei dentro do ônibus Jardim Monte Santo em Almirante Tamandaré. Você já viu aquele tipo de ?homem? que gosta de ficar se esfregando nas mulheres dentro do ônibus? Eu particularmente fico enojado quando vejo esta cena. O cara entra no ônibus, e mesmo que não esteja cheio, procura um jeito de ir se encostando atrás da mulherada. Bem, vamos ao que interessa?:

?Terminal do Cachoeira, 2004. O ônibus Monte Santo lotado, gente se espremendo. Lá vem o ?Zé Maníaco?, dá um jeito, empurra daqui, cotovela dali e entra. Olha de um lado, olha de outro, estica o pescoço à procura da vítima preferida. Depois de muitas pescoçadas, ele acha uma dando sopa. Sabe aquele tipo de gente que não percebe o perigo ao seu redor? Ele chega de mansinho, com aquela cara de idiota, mas encosta e vai se esfregando. Eu cá, olhando toda aquela safadeza, penso: Mas será que a pessoa é tão inocente a ponto de não perceber o que ele está fazendo? Parece que algumas mulheres gostam de conviver com este tipo de situação.

?Certo dia, ?Zé Maníaco? encostou atrás de uma senhora de uma idade avançada. A mulher tirava o traseiro para um lado, o ?Zé? ia atrás. Mas por que esta mulher não dá uma cotovelada na cara desse tarado?, imaginava. Até parece que ela estava facilitando as coisas.

?Outro dia ele viu uma mulher seminua, daquelas que gostam de sair por aí mostrando as pelancas. O descarado enfiou a mão dentro do bolso e começou com aquele vai-e-vem, com a mão pegou em alguma coisa e encostou na mulher. Simplesmente a dona dava uma olhada para ele, como quem queria dizer que estava gostando! Estranho é que ninguém percebia a atitude daquele cara-de-pau. Não percebia porque o ordinário não tinha topado com um tipo de mulher que encontrou dentro do tubo do ligeirinho, no bairro Cachoeira, em Almirante Tamandaré.

?Por aquela ele não esperava e tenho certeza de que ele nunca mais vai se esquecer. Era tardezinha, o tubo do ligeirinho estava lotado, as pessoas se seguravam onde podiam para não serem jogadas para fora. De repente, quem vem lá? O ?Zé Maníaco?. Chega como quem não quer nada. Todos que estavam no tubo iam pegar o mesmo ônibus, não havia a necessidade de ir se apoiando em alguém. Quando ele encostou atrás daquela mulher, que seria sua última vítima, o bicho pegou. O infeliz começou a se esfregar no traseiro daquela mulher, não sabia ele que sua vítima há tempo estava de olho nele. A mulher deu-lhe um cutucão com o braço e o chamou de sem-vergonha, de tarado e de outros nomes. Deixou o moral do conquistador mais baixo do que bumbum de sapo. Para encerrar, hoje o ?Dom Juan? entra no ônibus e fica quietinho no seu canto. O homem perdeu a vontade de se esfregar no traseiro da mulherada?.

Considerações

A disponibilidade e o interesse dos discentes pela procura das informações superaram todas as expectativas. Foi gratificante. Por quê? Os estudantes se sentiram participantes da própria história, sujeitos sociais. Por mais que exista muita resistência por boa parte do professorado sobre o trabalho com história local, o ensino da história, na atualidade, não pode se limitar ao livro didático e à lousa. É inconcebível!

O educador moderno deve sair do pedestal do controle dos conteúdos e se aventurar com os discentes, pois estes têm os próprios conhecimentos que devem ser partilhados com o professor. Com humildade, deixo a seguir algumas frases de homens sábios:

?Mestre não é só quem ensina; mas quem, de repente, aprende? (Guimarães Rosa).

?Aprendi muito com meus mestres, mais com meus companheiros e mais ainda com os meus alunos? (Provérbio judaico).

?A morte do homem começa no instante que ele desiste de aprender? (Albino Teixeira).

Jorge Antonio de Queiroz e Silva é palestrante, historiador, pesquisador, professor. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. queirozhistoria@terra.com.br