Até que ponto praticar uma boa ação para ajudar alguém a ter um futuro melhor dando casa, comida, roupa, amor e carinho – não pretende impor a vontade de quem dá a ajuda, e não de quem precisa ser ajudado?

Um sonho possível, que estreia nesse fim de semana, levanta esse questionamento em meio a um filme agradável de se assistir, que teve como inspiração a história real do astro do futebol americano Michael Oher, reproduzida em um livro de Michael Lewis. Mas a história não é sobre futebol americano. É sobre família.

Ao ver Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock) nas primeiras cenas do filme, é inevitável associá-la ao estereótipo de uma típica perua loira norte-americana, de classe alta, família modelo, controladora e displicente com os problemas sociais ao seu redor. Leigh Anne pode até se encaixar em todas as características iniciais apresentadas, menos na última.

Não é para menos que a atuação de Sandra Bullock no filme lhe rendeu a conquista do prêmio de melhor atriz no Oscar deste ano, desbancando nomes como Meryl Streep e Helen Mirren, ao encarnar Leigh Anne e seu jeito de conseguir fazer o que quer e do jeito que quer.

Ela não se importa com o que é preciso, simplesmente quer as coisas feitas do seu jeito. Impor suas vontades pode, a primeira vista, ser sinônimo de ser uma mulher rica e mimada.

Mas por trás desse comportamento pode estar a determinação necessária para sair desse “mudo perfeito”, com boa casa, um bom marido e uma boa família e “olhar para fora”, mesmo que seja apenas para o outro lado da cidade.

A vida de Leigh Anne começa a mudar quando ela conhece o adolescente Michael Oher (Quinton Aaron), que cresceu no abandono, num conjunto habitacional pobre em Memphis, apropriadamente chamado de Hurt Village (em português seria algo como Bairro da dor).

Ele vive como um sem-teto, andando no frio apenas de bermuda e camiseta. Ao saber que o garoto é colega na escola de seus dois filhos, Leigh Anne não tem dúvidas: leva-o para passar a noite em sua casa.

O que começa com um gesto isolado de bondade evolui rapidamente para algo maior: Michael passa a fazer parte da família Tuohy, apesar da estranheza geral que isso parece causar às pessoas ao redor.

Um sonho possível é o oposto do filme Preciosa, no qual uma jovem adolescente semianalfabeta, abusada pelo pai e rejeitada pela mãe vê as tragédias se multiplicarem com o passar das duas horas de projeção do filme.

Em Um sonho possível (do diretor John Lee Hancock, responsável também pelo roteiro), todas as tragédias com Oher já aconteceram e, durante a trama, o espectador vê as transformações que acontecem na vida do jovem, que pela primeira vez vai se sentir integrado a uma família, a quem vai proteger com todas as suas forças.