“Finalmente encontrei alguém interessante.” É o que elas – as putas – dizem em Copacabana para um tipo disposto a enfiar a mão no bolso e pagar por alguns minutos de prazer, preço variando com o cardápio. Elas precisam de grana para ajudar a mãe, pagar aluguel, contas e a parte do cafiola. Portanto, precisam achar uns cinco sujeitos interessantes por noite. Afinal, tem aqueles dias. E, naqueles dias, não tem programa. Mas não é fácil, o mundo não está entupido de pessoas interessantes. Principalmente as dispostas a pagar para serem chamadas de interessantes.

Copacabana é um bairro de velhinhos simpáticos. Mas tem mulheres gostosas, com bundas perfeitas e fiéis a um culto: adorar o deus sol para se dourar. Além dos velhos e das boazudas, tem muita piranha arisca, travecas escoladas, cafiolas safados, vendedores, traficantes e garotos de rua, uma gente que vive numa estranha harmonia, uma parte de dia, outra de noite.

E têm eles, os otários, eternas vítimas, que se julgam espertos e nunca deixam de bater ponto no bairro: os turistas. Não fossem eles, Copacabana não seria o que é. Um mundo radiante de dia e de noite um antro de figuras notívagas que os cartões postais não mostram e ninguém se esforça em descobrir. Alguém disse: “Se Copacabana fosse murada, virava um hospício; se fosse cercada virava um zoológico”. Pode ser exagero, mas é lógico.

Copacabana é tudo o que há de bom e tudo que tem de ruim.

Quem experimentou o lado amargo de Copacabana foi Tito Paredes. Na noite de 23 de dezembro de 1975 ele deixou o norte do Paraná em direção ao Rio, para pegar ônibus para Ilhéus, conhecer a terra de Gabriela, se possível encontrar a dona num telhado procurando gatos e pipas; o gato estava levando uma bela pipa para ela.

Cada um sonha com o que vê na tevê. No caminho baixou em Copacabana, para conferir o que as músicas anunciam: “Copacabana princesinha do mar”. Eram 14 horas quando chegou, eram 14h30 quando saiu. Não mais voltou. Talvez devesse; se sobreviesse teria muitas histórias para contar.

Entre o primeiro e o segundo horários, uma piranha pediu cigarro, o sujeito deu e ela agradecida avisou que os homens, os police man, estavam na área. O cara nem teve tempo de vazar, foi parar no distrito, conduzido num camburão estufado de hippies e hare krishnas, entre outros suspeitos. Os tiras queriam tirar troco de Paredes e ele escapou de cana mostrando passagem para Ilhéus. Antes de sumir, ouviu um conselho: “Desaparece, baiano. Aqui não é teu lugar”. Copacabana pode ser cruel. E lição, aprende quem tem juízo.

Anos depois, Tito Paredes reescreveu histórias que andaram por livros e filmes, numa versão excêntrica dos Contos da Cantuária. Faltou cidade e título para acomodar tanta gente maluca. Ele tascou Copacabana. Não foi vingança, foi justiça. Se o Rio é fantasia, cartão postal mundo afora, Copacabana é o resumo da ópera. A coisa rola ali. Tudo com samba, ou bossa nova, de trilha sonora e mulheres com os bumbuns mais estonteantes do planeta, hipnotizando homens como indianos encantam Naja.

Tito Paredes ainda guarda os originais do livro, guarda o estranho sorriso do delegado, acostumado com tipos estranhos. O mesmo não aconteceu a Lobo e Odyr, roteirista e desenhista. Eles também baixaram em Copacabana trinta anos depois e tiveram a ideia de levar o bairro para a ficção – a bordo de uma novela gráfica. Em vez do lado fantástico e burlesco, escolheram a dura realidade das calçadas, direto na veia. Assim nasceu Copacabana (Lobo & Odyr, Editora Desiderata, 200 págs, R$ 39,90).

No livro, emerge a dura Copacabana, o bairro em que ocorrem as desventuras de Diana, garota de programa que tenta um golpe que não dá certo. Como nas histórias de Dashiel Hammet e Raymond Chandler, estamos atolados numa trilha de corpos, dinheiro e gente ruim no pedaço. A dupla pega pelo colarinho o submundo do bairro, numa entonação noir e traço expressionista que lembra as histórias de O Anjo, um quadrinhos dos 50s e 60s.

E vai, munida de diálogos cortantes: “Oi, Xuxu. Que tal um cafezinho pra esquentar o coração?”. “Não, seu Severino. Coração frio é meu instrumento de trabalho”. Ou ligeiramente cômicos: “Outro dia eu vi na praia a bunda mais linda do mundo. Quando eu parei o carro, ela se virou. Rapaz era um Paraíba”. “As melhores bundas ainda vem da Paraíba”. Para captar esta realidade, Lobo foi diretor de arte de dia e sonâmbulo à noite. Em vez de virar as costas para o bairro como fez Paredes, tentou decifrar a esfinge.

E durante dois anos de andanças noturnas conheceu uma fauna de tipos que vai de travestis e traficantes, a gringos e motoristas de taxi, além de meninos de rua, donas vendendo flores e os inevitáveis velhinhos. Sem contar as piranhas que suam para ganhar a vida entre a Prado Junior e a Avenida Atlântica, num cenário decadente.

Foi com este material que Lobo produziu o roteiro para Odyr ilustrar. Odyr, que veio do Rio Grande do Sul, ficou dois anos trabalhando e depois da tarefa pronta, deu uma de Tito Paredes: caiu fora. Retornou para o sul, deixando os personagens do bairro para trás.

E quem são estes personagens, esta gente bronzeada que quer mostrar o seu valor? É uma multidão de perdedores que tentam sobreviver, ainda que seja a custa da primeira vítima. São out-siders como Princesa, uma tipa que se chamava Aníbal e foi noivo de Diana. As duas dividem a mesma calçada, embora a mãe de Diana, que conheceu Princesa de bigode, quando ainda se chamava Aníbal, espera que o tipo despose a filha – ele ou um médico rico. Mãe é mãe e quer a filha ajeitada. A velha, por telefone, diz que Aníbal não é de jogar fora. Ela não sabe que a filha virou piranha e o futuro genro traveca louca.

A segunda tipa da fauna, a citada Diana, leva vida de cão. A mãe vive pedindo dinheiro. E a moça ainda tem de pagar aluguel atrasado, dar troco pro gigolô Cadelão que não larga de seu pé. Lembra um pouco A Cliente (Marley Shelton), de Sin City. Para sair da sinuca de bico, Diana tenta com Suelen dar um golpe num gringo. Como gente desta categoria nasceu para se ferrar, elas se ferram. Suelen não vale um tostão furado, é o tipo que quando alguém vai atrás, sabe que entrou numa tremenda roubada.

Tem ainda Morcego, que escreve livrinhos românticos para moças sonhadoras com títulos como Torrentes de paixão, que assina com nomes femininos, do tipo Nathalie, Beverly ou Glória. O dinheiro cai e ele não se importa com os nomes que ganham fama com suas histórias. O importante é ter troco para o chope no fim do dia, olhando as garotas da Help. A vida não é uma maravilha, mas esquenta quando Diana entra na jogada.

Claro que uma história noir não funciona sem policial safado. Ainda mais em Copacabana, como diria Tito Paredes. E Copacabana tem Álvaro. Um cara escroto, ele acha que salário de policial não dá para pagar o uísque que bebe. O problema é que não quer deixar de tomar o seu uísque. Por isso se especializou em farejar dinheiro.

Quando sabe do golpe de Diana, vai atrás dela: nos dois sentidos. E tem Souza, que ninguém percebe, mas está sempre de olho em todo mundo. Um sujeito obscuro que não é feliz porque ninguém é feliz levando uma vida obscura. Estes personagens e suas vidas miseráveis revelam o que o leitor encontra na novela gráfica.

O livro tem todos os ingredientes para terminar numa tremenda sujeira. Mas com um sujeito como Morcego por perto, viciado em finais felizes, a coisa não podia acabar mal. Pega até mal acabar bem. Mas acontece. Uma história barra pesada com final feliz. Fazer o quê? Copacabana também é isso.

E mais. Copacabana tem infelicidade maquiada por sorrisos sensuais, mas guarda espaço pro pessoal curtir numa boa. Claro que tudo tem seu preço. Um recado que não combina. Mas quem não gostou do final, faça o seu. Como Tito Paredes que inventou a sua Copacabana, porque a real era botar mão em chapa quente. Copacabana está lá, Babilônia pegando fogo em luxuria, crimes e vícios. Quem se arrisca?