São Paulo (AE) – O projeto, em sua estrutura, era perfeito: o diretor Domingos Oliveira adaptaria e comandaria a versão para o palco de Memórias, sonhos e reflexões, último livro do psicólogo suíço Carl Gustav Jung, que seria interpretada por Sérgio Britto. Tudo corria bem quando, de repente, surge uma rachadura: a família não liberou os direitos autorais da obra, deixando ator e diretor numa sinuca de bico. ?Tínhamos quatro meses para reformular o projeto e estrear, pois o teatro estava com a data reservada?, conta Britto, que contou com o talento de Oliveira para, sob pressão, inspirar-se na vida do psicólogo e criar um monólogo, Jung e eu, que estréia hoje, no Sesc Belenzinho, em breve temporada.

A solução foi engenhosa -com o auxílio da psicanalista Giselle Falbo Kosovski, Oliveira levou para o palco parte da história que acontecia fora dele. Ou seja, criou o personagem de um ator shakespeariano de 82 anos, Leonardo Svoba, que, sem conseguir um papel digno há mais de dois anos, tenta viver Jung no teatro. Abandonado no último minuto pelo autor e diretor que o ajudaria no projeto, Svoba se agarra à uma última esperança: ser auxiliado pelo próprio Jung.

Com isso, o texto não apenas narra fatos da vida do psicólogo, principal dissidente da psicanálise de Freud e autor da tese do inconsciente coletivo, como também vem temperado de acontecimentos envolvidos em sua criação.

Traz também brincadeiras alusivas à carreira de Britto, aos 83 anos, consagrado como um dos principais atores do palco brasileiro.

Assim, entre as pinceladas de realidade, Leonardo Svoba comenta a certa altura que seu Rei Lear ?não foi lá grande coisa?, opinião que o próprio Britto tem sobre a montagem que estrelou nos anos 1980.

Serviço: Jung e eu. 80 min. 14 anos. Sesc Belenzinho – Galpão 1 (100 lug.). Av. Álvaro Ramos, 915, Belém, São Paulo, fone (011) 6602-3700, metrô Belém. Sáb. e dom., 18h. R$ 15. Em cartaz até 26/2. Estréia hoje.