Na Ilíada e na Odisséia, de Homero, as mulheres foram narradas como conquistadoras de seus heróis, os reis e guerreiros, mas eram mitológicas. Em Sabará, Minas Gerais, a negra Josefa, em 1733, recebia de seu amásio dádivas e presentes valiosos (Priore, M., 1994), mas era escrava. Atualmente, as mulheres ainda são educadas para investir nos casamentos como meio de ascensão social. São dependentes. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002), a dominação masculina continua, pois o homem pode casar, sem sofrer preconceitos, com a mulher da idade e da condição social que quiser. O mesmo não ocorre com a mulher.

Apesar disso, ela precisa enfrentar a ideologia de sua “superioridade”, e quem fala a respeito é o conhecido antropólogo Claude Lévi-Strauss. Num dos artigos publicados sobre a sexualidade feminina e a origem da sociedade (em La Repubblica e no Mais, da Folha de São Paulo, 1998), ele retoma teorias que vigoraram até o início do século XX. A primeira delas diz, justamente, que nos primórdios da humanidade eram as mulheres que dirigiam os negócios familiares e sociais até o momento em que os homens se apoderaram de instrumentos musicais sagrados, dos quais as mulheres retiravam seus poderes, e passaram a dominá-las.

Lévi-Strauss lembra que, por influência dos movimentos feministas, surgiram outras hipóteses de inspiração matriarcal, segundo as quais o homem é o único que pode fazer amor em qualquer estação, e as fêmeas humanas, diferentemente dos animais, não sinalizam para os machos, por meio de odores ou alterações cromáticas, seus períodos de fertilidade e não se recusam nos outros. Essa afirmação tem como base os costumes de chipanzés selvagens cujas fêmeas em período de cio obtêm dos machos mais alimentação animal que as outras. Deduz-se que a partir do momento em que a caça se tornou ocupação masculina, entre os humanos, as mulheres que se mostravam sempre acessíveis recebiam maior parte de carne que as demais. Mais nutridas, tinham vantagens no processo de seleção natural.

Outros autores dizem que as mulheres dificultavam a vigilância dos maridos ao não sinalizarem seus períodos de ovulação. A fecundação receberia a participação de outros machos, necessitando, portanto, da proibição do incesto. Outros afirmam que quando os humanos começaram a formar sociedades estáveis surgiu o perigo da fêmea atrair outros machos na ausência do cio. Para que a sociedade perdurasse, o cio deveria permanecer. Essa teoria, segundo Lévi-Strauss, se apóia em um argumento sedutor, o de que os odores sexuais jamais desapareceram totalmente, pois se tornaram culturais originando os perfumes e a maquiagem.

Se essas teorias não podem ser válidas para os tempos primitivos já que as afirmações não puderam ser provadas, Lévi-Strauss destaca que a “hipótese menos absurda seria relacionar a ausência dos períodos de cio ao surgimento da linguagem: Tão logo puderam sinalizar seus humores por meio de palavras, mesmo que em termos velados, as mulheres não precisam mais dos meios fisiológicos pelas quais elas se faziam entender; tendo perdido sua função primeira e desde então inúteis, esses velhos meios com seu aparato desconfortável de inchaços de umidades, de rubores e de exalações fortes aos poucos se atrofiaram. A cultura teria modelado a natureza, não o contrário.”

Ao comentar um dos aspectos das teorias lembradas por Lévi-Strauss, Marcos Lanna, professor Adjunto do Departamento de Antropologia da UFPR, enfatiza que “a noção de uma superioridade feminina não é tão nova, mas, ao contrário, é recorrente nas sociedades humanas. Entretanto, esta superioridade é sempre mítica e na prática o que temos é uma submissão das mulheres”.

Nem a dominação machista nem a submissão feminina contribuem para a completude do homem e da mulher. Da mesma forma que natureza e cultura dialogam pelos meios materiais, num período de história e numa civilização, como lembra Lévi-Strauss (1976), mulheres e homens podem, pelo diálogo cultural, viver de maneira integrada, pois, como diz Geertz (1989), “os seres humanos são animais incompletos e inacabados, que se completam e se acabam através da cultura” que modela a natureza.

Zélia Maria Bonamigo

é jornalista, especialista em Mídia e Despertar da Consciência Crítica. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.E-mail:
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