São Paulo – Jan De Bont aprendeu a fazer cinema com Paul Verhoeven, iluminando os primeiros filmes do diretor holandês que emigrou para Hollywood. Aprendeu, em termos: o primeiro, Velocidade Máxima, é um eletrizante espetáculo de ação, mas Speed 2, Twister e A Casa Amaldiçoada – são expressões do que o cinemão tem de pior. De Bont assina agora Lara Croft e a Origem da Vida, que estréia oficialmente hoje em mais de 100 salas do País. Pode não ser bom, mas levanta questões pertinentes sobre o próprio cinema de Hollywood. E, francamente, nenhum filme que tenha Angelina Jolie, com aqueles lábios carnudos, pode ser desinteressante.

Verhoeven e John Woo representam casos raros de diretores estrangeiros que, em épocas recentes, conseguiram usar a máquina de Hollywood para expressar um imaginário que não é bem o celebrado pelo cinema americano tradicional. Verhoeven até se arrisca a ir na contramão do humanismo -caso da sua ficção científica Tropas Estelares – para expressar um mal-estar contemporâneo. A tentação do fascismo faz-se presente neste filme e no posterior O Homem sem Sombra.

Está também em Lara Croft, na relação ambivalente que a heroína mantém com o pouco confiável parceiro de aventura, quando ambos tentam impedir que o cientista “do mal” – o cara venceu o Prêmio Nobel! – abra a Caixa de Pandora. É um tema verhoeveniano, mas a ele Jan De Bont superpõe outro tema, digamos, kubrickiano. O olho que tudo vê era uma obsessão de Stanley Kubrick, bastando citar o Hal-9000 de 2001 – Uma Odisséia no Espaço. O Orbe que indica o caminho para a Caixa de Pandora é outro olho que tudo vê. E há ainda o tema do amor neste Lara Croft.

Há um jogo de interesses inconciliáveis entre o seu amado e ela. Só pode terminar com a morte. A partir daí, Lara Croft e a Origem da Vida é um filme sobre a superioridade moral da mulher. É algo implícito no título, “A Origem da Vida”. A mulher só poderia mesmo ser superior porque é ela, como mãe, que gesta a vida em seu ventre. O homem, em contrapartida, fecunda para destruir. Pode-se, ainda, aproximar A Origem da Vida de Hatari!, de Howard Hawks, e não apenas porque ambos se beneficiam da paisagem africana. A reflexão de Hawks sobre a relação homem-mulher estabelece outro contraponto interessante, porque a mulher se identifica com a natureza (o elefantinho de Elsa Martinelli) e o objetivo do homem (John Wayne) é domar a natureza, portanto, a mulher. São idéias que o segundo Lara Croft, a bem da verdade, lança sem ir ao fundo dessas questões.

Há coisas marcantes, porém: o respeito pela cultura primitiva (a tribo africana), em oposição aos excessos tecnológicos da civilização; a idéia da mulher como heroína comprometida com a vida. Talvez se deva ver nessa celebração do feminino uma reação subliminar à era George W. Bush: o presidente americano e seus falcões são todos antifeministas convictos, verdadeiros talibãs. Lara Croft e as Panteras seriam, quem sabe, uma resistência do próprio cinemão. Vai aí, de qualquer maneira, uma ambivalência, pois Lara respeita o primitivo, mas tem sempre de surpreender o parceiro africano, como Hollywood também quer maravilhar seu público cativo de todo o mundo. A cena do Orbe com a menina, no barco, em Hong Kong, vai pela mesma linha. Aquela menina de olhos arregalados devemos ser nós, o público. Essa reflexão, somada à beleza de Angelina Jolie (com aqueles lábios!), faz de A Origem da Vida o melhor filme ruim da temporada de ação.