A Universidade Federal do Paraná acaba de dar um grande passo na política de ações afirmativas que, com justiça e cidadania, resgata a inclusão de grupos excluídos da sociedade brasileira. O reitor Carlos Augusto Moreira Junior está tendo a coragem de abrir as portas da universidade publica àqueles que há 500 anos estão fora dela.

Ao receber nesta semana dirigentes das entidades afro-brasileiras do Paraná para discutir uma estratégia de implantação da Lei que aprovou cotas para estudantes negros que queiram ingressar na Universidade Pública e Gratuita, o reitor Moreira assume um compromisso de combate à discriminação e ao racismo.

Sabemos, nós da ACNAP-Associação Cultural de Negritude e Ação Popular, do Instituto Afro-Brasileiro do Paraná e do Grupo de Estudos Afro-Brasileiros da UFPR das resistências que o reitor da UFPR enfrentará para implementar essas medidas. Mesmo sendo uma Lei alguns poucos e isolados segmentos ainda estão reticentes e renitentes quanto a abertura desse processo de democratização da Universidade Pública. Cabe a nós convencê-los da necessidade de cumprimento da Lei e da importância histórica do fato.

Nós insistimos em afirmar que essa Lei não é um favor, nem tampouco uma benesse à comunidade negra, sim o resgate de uma dívida histórica, impagável, que a sociedade brasileira tem com os descendentes dos escravos que deram sua vida, perderam terras, riquezas e cultura nessa longa caminhada da África ao Brasil.

Os negros prestarão vestibular, participarão, portanto do processo seletivo, não entrarão pelas portas do fundo como tem sofismado alguns adversários dessa medida. Das 100% das vagas, os negros ficarão com 20% delas. Há algum absurdo nisso? Os negros classificados no processo seletivo ocuparão os 20% das vagas a eles destinadas. Não existe privilégio algum!

As cotas são apenas uma paliativo, as quais deverão estar acompanhadas de outras políticas para que esse ingresso dos negros na universidade não seja um fracasso. É necessário que o corpo docente da universidade, onde um contingente significativo tem se manifestado na defesa do ensino público e gratuito comprometido com a democracia, a liberdade e a igualdade de oportunidades, realize na prática esse desiderato disponibilizando algumas horas para Cursos de Nivelamento e Reforço para acadêmicos e também fortalecendo a existência de Cursos Pré-Vestibular para os alunos que desejam ingressar na universidade.

É na ação prática que nós verdadeiramente exercitamos a democracia e nos comprometemos com o exercício pleno da cidadania.

Por isso entendemos que o reitor da UFPR Carlos Augusto Moreira Junior merece cumprimentos por iniciar o processo de trazer para dentro da Universidade, brasileiros e brasileiras que até então estavam excluídos por uma série de motivos, entre eles o preconceito e a discriminação.

As entidades afro-brasileiras do Paraná esperam – e lutarão para que isso aconteça – que as cotas para negros sejam o início da abertura de um processo maior, qual seja o acolhimento, também, de estudantes menos favorecidos , oriundos das escolas públicas.

O primeiro passo está dado, o Reitor Moreira já cumpriu a sua parte, agora esperamos que o Conselho Universitário aprove e publique a Resolução que efetive essa medida de justiça.

Nizan Pereira Almeida

é médico, ex-secretário da Saúde do Paraná, professor da UFPR e coordenador do Grupo de Estudos Afro-Brasileiros da UFPR.

Valdir Izidoro Silveira

é engenheiro agrônomo, ex-diretor técnico da Copasa, ex-diretor de Previdência do IPE e presidente do Instituto Afro-Brasileiro do Paraná. E-mail:
vis@netpar.com.br