Foi tudo muito rápido. A atriz Regina Duarte trabalhava com o Grupo de Estudos de Dramaturgia e Interpretação de Textos, que ela coordena desde novembro do ano passado, quando surgiu a oportunidade de encenar a peça a qual estavam preparando. “Tivemos a chance de montá-la no Teatro MuBE Nova Cultural, mas teríamos de erguer o espetáculo em quatro semanas”, conta ela, que se dedicou junto aos 18 atores para estrear nesta sexta-feira, 31, A Volta para a Casa, reunião de três textos do dramaturgo romeno Matéi Visniec.

A oportunidade, na verdade, fortaleceu um projeto que já ganhava corpo. A organização do grupo partiu de Regina, interessada em apostar em espetáculos experimentais. “Eu sentia necessidade de voltar ao tempo do meu início de carreira, quando as descobertas eram importantes”, comenta a atriz, que formou o grupo a partir de sugestões passadas por amigos, como o encenador José Possi Neto e a atriz Imara Reis.

Logo no início do trabalho, surgiu interesse pela dramaturgia de Visniec – considerado herdeiro de Ionesco, admirador de Beckett, o romeno é autor de uma obra que explora as contradições humanas com ironia e escárnio. Sua trajetória teatral começou quando seu país ainda vivia sob o comando do ditador romeno Ceausescu (1918-1989), ou seja, a imposição da censura o obrigava a buscar caminhos alegóricos, absurdos, que contornassem as limitações. “Em meio à sociedade na qual vivia, descobri em Ionesco e Beckett um espaço de liberdade”, conta o autor. “A literatura podia me salvar, me dar a dignidade que o poder e o jogo político não me ofereciam.”

A obra de Visniec tornou-se conhecida do leitor brasileiro a partir de 2010, quando a É Realizações iniciou a publicação em livro de suas peças. Na primeira fornada, foram editadas 15 peças, entre elas A História do Comunismo Contada a Doentes Mentais (recentemente encenada em São Paulo) e O Último Godot.

E nesta sexta, 31, ele estará em Salvador, convidado pela Festa Literária Internacional de Cachoeira, para lançar o livro com sua peça Por que Hécuba e acompanhar à montagem Espelho para Cegos, de sua autoria, dirigida por Marcio Meirelles, com quem mantém estreita amizade. “Seus textos carregam um olhar crítico em relação às formas de poder, daí ser encenada no mundo inteiro”, observa Regina. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.