Há quem acredite que levar a carreira adiante carregando o sobrenome de pais conhecidos possa ser um peso, pela vulnerabilidade a comparações e pelo risco de viver sempre à sombra alheia. Para a cantora Adriana Godoy, 34 anos, filha do maestro e compositor Adylson Godoy e da cantora Silvia Maria, pertencer a esse clã, profissionalmente falando, já foi um peso.

Para aumentar a responsabilidade, Adriana é sobrinha de Amilton Godoy, pianista do Zimbo Trio, e do maestro Amilson Godoy. “Em algum momento, achei que deveria ser perfeita”, admite ela, que toca piano desde criança. “Com o tempo, no entanto, quando você toma um ponto de partida, isso some e você passa a fazer sua história”, destaca. A cantora está no segundo CD, o recém-lançado “Marco” (com apoio do Prêmio ProAc 2008, pela Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo), e faz show hoje no Tom Jazz.

Depois de acompanhar algumas apresentações do pai, sua própria história começou a ser escrita. “Foi no início de 1996. Quando subi ao palco pela primeira vez, diante de mais de mil pessoas, senti uma grande emoção e descobri, na hora, que eu era cantora”. Naquele primeiro ano, ela estreou seu show solo, com ajuda de Adylson, que escolheu os músicos, montou repertório e ficou responsável por todos os arranjos. Foi quando ela teve contato com compositores com os quais até então tinha pouca familiaridade, como Eduardo Gudin.

O pai esteve à frente também dos arranjos de seu primeiro CD, “Todos os Sentidos” (2003), no qual ela registrava suas influências na música brasileira. Sete anos mais tarde, a cantora mostra-se mais envolvida com todo o processo no seu novo “Marco”: assumiu a produção musical. Os arranjos e a direção musical são de Débora Gurgel. Desta vez, Adylson colaborou apenas com suas composições: “É Demais Sonhar Você” e “Kangala” (esta, usada como música incidental em “Vento Bravo”, de Edu Lobo e Paulo César Pinheiro). Neste trabalho, a cantora sentiu-se mais confortável para avança remunir, de canções inéditas, boa parte do repertório, entre elas, o samba canção “Mea Culpa”, de Dino Galvão Bueno e Elton Medeiros, e “Garrafas ao Mar”, de Fátima Guedes.

Mas Adriana escolheu a canção “Marco”, de Rosa Passos e Sérgio Natureza, para dar título e abrir seu CD, no qual explora suas paixões musicais como intérprete, em sambas, jazz e MPB. “Como musicista, este projeto é um marco para mim. Faço parte inteiramente do processo de criação. Tenho mais maturidade. Sou espectadora da minha própria produção. Antes, eu tinha de ser acolhida com um disco de MPB tradicional”.