Equilibrando-se com o contrabaixo, Gustavo desce os dois lances de escada da pequena casa de dois cômodos que divide com a mãe e o irmão em Heliópolis, na zona sul de São Paulo. A rodinha acoplada ao instrumento ajuda no caminho até a Estrada das Lágrimas. Uma breve caminhada e ele já está pronto para os primeiros ensaios da manhã. O trajeto ele repete diariamente. Até a sala de aula, o caminho não dura mais do que 15 minutos – mas é suficiente para levá-lo em direção a sonhos cada vez mais altos. “Estar no palco fazendo música é algo que nos transporta para outros lugares. Mas não é só isso. Na verdade, o que fazemos aqui é quebrar diariamente estereótipos sobre quem somos, sobre o que é ser um cidadão, sobre o que se espera da gente”, ele diz, enquanto caminha.

A rotina de Gustavo, hoje com 19 anos e aluno do Instituto Baccarelli, é repetida por milhares de jovens, integrantes de projetos de educação musical com foco na inclusão social. Nos últimos anos, eles não apenas cresceram em quantidade: tornaram-se protagonistas do meio musical erudito brasileiro. Não há levantamentos oficiais. Mas uma rápida conta oferece uma ideia: no Baccarelli, que este ano completa 20 anos, são 1.600 alunos; na Escola de Música do Estado de São Paulo, 1.300; no Projeto Guri, 50 mil, em todo o Estado. É um número expressivo de crianças, adolescentes e jovens sendo introduzidos na música – que cresce ainda mais quando se leva em conta projetos em Estados como Pernambuco, Bahia ou Rio de Janeiro. Em comum entre eles, o fato de estarem formando uma nova geração que começa a ocupar o cenário musical brasileiro – e promete revolucioná-lo.

“O que está em andamento é uma mudança estrutural. Estamos formando artistas capazes de resgatar a função social da música clássica, que acabou se perdendo”, diz o compositor Paulo Zuben, diretor da Emesp. “Em um momento em que se discute a relevância da música na sociedade, parece claro que ela virá não das instituições, mas dos músicos. São jovens com uma postura ativa, conscientes da busca por novos caminhos”, completa. Edmilson Venturelli, diretor do Instituto Baccarelli, concorda. “Estamos falando de jovens que entendem a música não apenas como uma carreira, mas como ferramenta para a compreensão de si mesmos e do outro. Isso tem um impacto claro na cena musical, acreditamos nisso”, explica.

Gustavo de Souza começou na música aos 11 anos, cantando em um dos corais do Baccarelli. A ideia de inscrevê-lo foi da mãe. Resolveu tentar um instrumento. “Como eu era alto, sugeriram o contrabaixo”, ele lembra. Entre seus professores, Alexandre Rosa, músico da Osesp. Foi uma mudança. “Aqui em Heliópolis a música que se ouve é mais a popular. Mas eu fui conhecendo o repertório clássico e me apaixonando.” Um momento fundamental aconteceu em 2012. “O maestro Zubin Mehta veio reger a Sinfônica Heliópolis. Ali eu me dei conta da intensidade de fazer música e de como eu queria estudar cada vez mais, estar pronto para aquilo.”

Dificuldades

O interesse de Phillips Thor Emidio, de 23 anos, pela música também remonta à infância. Morador do Jardim Maia, no Itaim Paulista, ele começou a tocar tuba na igreja – instrumento que mais tarde trocaria pelo eufônio. Mas o apoio em casa nem sempre esteve presente. “Eu fui crescendo, queria tocar. Dava muita briga em casa. Para você ter uma ideia, eu tenho um sobrinho de 16 anos que já está trabalhando, ajudando em casa. Então tinha uma cobrança. Mas a música falava mais alto, sempre.” Em 2010, matriculou-se na Emesp. Mas precisou deixar o curso por não ter como pagar a condução. Com a ajuda do professor Ricardo Camargo, continuou a estudar. E entrou na Banda Sinfônica Jovem do Estado. Voltou à Emesp. E, no ano passado, foi aprovado para estudar em Portugal. “Eu já havia sido aprovado para ir estudar nos EUA, mas apesar de ter bolsa, você precisava provar ter uma renda anual de R$ 70 mil. Precisei desistir.” Agora, ele busca um financiamento coletivo para a viagem.

Colega de Emesp, o percussionista Christopher Alex Vieira de Souza, de 23 anos, morador de Interlagos, chegou à música como uma maneira de não repetir de ano. “Quem tocasse na fanfarra da escola ganhava pontos extras. Então, eu fui.” Ele passou de série – e descobriu uma paixão. “Comecei no trombone. Mas encontrei na percussão uma maneira perfeita de expressar meus sentimentos.” Para ele, é disso que se trata a música. “Aos 14 anos, perdi meu pai. Fui caminhar na Avenida Paulista e tinha um cara tocando violino. Eu parei para ouvir e aquilo me fez muito bem. Entendi que queria fazer o mesmo com outras pessoas e a música era o caminho. Quando penso no futuro, penso nisso, em como fazer da minha música uma ferramenta de ensino para os outros. Quero ser o melhor percussionista e ser o melhor, para mim, é formar pessoas por meio da arte.”

A música como transmissão de um ideal: é disso também que fala a contrabaixista Ana Claudia Machicado Torres. Nascida na Bolívia, está há pouco mais de 6 meses no Brasil e, depois de passar pelo Baccarelli, hoje é aluna da Emesp. O contrabaixo ela escolheu porque era um ambiente sem mulheres. “Eu gostava de ser a única mulher em um campo de trabalho. Mas hoje penso diferente. Quero ajudar a formar outras garotas, mostrar que elas podem fazer o que quiser.” Marcus Vinicius, colega de Ana Claudia no instrumento, pensa parecido. “Eu quero ser lembrado por ser um espelho para outros jovens, ajudando a mostrar o quanto é importante a valorização da cultura na hora de se pensar no crescimento de um país.” Como se faz isso? De modo coletivo, diz o músico, de 18 anos. “No momento que tocamos em uma orquestra, estamos todos conectados pelo mesmo sentimento, pela mesma energia.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.