“Num dia de sol Recife acordou, com a mesma fedentina do dia anterior. Na quarta pior cidade do mundo, Recife cidade do mangue. No meio da rua, em cima das pontes. É só uma cabeça equilibrada em cima do corpo…” Na procura dos amores e desamores, no sangue do boi escorrendo pelo matadouro, na aflição agonizante da morte que nunca chega, e quando chega não é na hora esperada.

“A dor também é prazer, a maldição é também uma bênção, a noite é também um sol”, buscando no sofrimento alheio a alegria própria, não medindo nessa dor as conseqüências abençoadas por um louco, padre desolado pela igreja fechada. Sem os tradicionais fiéis para segui-lo, colocando a morte como um mero obstáculo, ultrapássavel com toda facilidade na conquista do amor tão almejado, mas não correspondido.

Amarelo Manga, amarelo da anemia, amarelo inverso da fruta doce, do suco grudento que deixa lugar para o sangue pegajoso, amarelo da riqueza escondida no símbolo do carro que ostenta o poder do amarelo da bandeira nacional. No grito desesperado “não agüento mais!”, a rotina diária do repetir: sempre ver as mesmas caras, agüentar a ladainha de sempre, de sonhar com o amanhã, e o dia seguinte ter a impressão de tudo não passar de um “déjà vu”.

Amarelo Manga, de Cláudio Assis, exibido ontem na Mostra Oficial do 7.º Festival de Cinema, Vídeo e DCine de Curitiba, não é um filme para pessoas acostumadas com produções comerciais. Aquelas que dirão ao final da projeção, se agüentarem até lá, que filme brasileiro é sempre a mesma coisa – “só tem palavrão e mulher pelada”. E muito menos para ser visto no auditório do Canal da Música. Ainda não descobri o porquê dessa insistência do Festival de Cinema ser realizado num auditório construído para outras tantas finalidades, entre as quais com certeza não estava a exibição de filmes. Mas nem a péssima acústica diminui os meus aplausos para o filme – principalmente para a interpetração de Mateus Nachtergaele, como um homossexual que tenta conquistar seu amor. Enfim, Amarelo Manga nos joga o Brasil na cara. (Hedeson A. Silva, com citações de Chico Science e Nietzsche)