Mauro TrindadeHá uma expressão italiana que sintetiza o trabalho dos tradutores: tradutore, traditore. Ou seja, para que um tradutor possa levar certas coisas de uma língua para outra, ele tem de alterar um pouco – ou ?trair? – o original. Logo, o tradutor é um traidor. A versão com produção brasileira de Donas de casa desesperadas, que a Rede TV! passou a exibir na semana retrasada, não trai. E também não traduz. É meramente um programa estrangeiro falado em tosco português.

Desperate Housewives, a versão americana, já está desde o ano passado no ar, na mesma emissora, e há três no canal pago Sony. Com o enorme sucesso angariado mundo afora, o seriado passou a ter ?franchises? em diversos países. As gravações da série ?brasileira? são feitas na Argentina, nos mesmos cenários das versões portenha, colombiana e equatoriana.

Com exceção do elenco, há pouca ou nenhuma diferença do original. Roteiro, diálogos, figurinos, enquadramentos, cortes e trilha sonora seguem a matriz. Não há vantagem alguma nisso. O resultado são atrizes engessadas em personagens frias. É um problema de dramaturgia. Ao repetir mecanicamente as ações e diálogos dos tipos do seriado da rede ABC, as brasileiras soam falsas, a despeito do talento com que uma ou outra possa desempenhar seus papéis. Sônia Braga, Lucélia Santos, Isadora Ribeiro, Teresa Seiblitz, Franciely Freduzesky e Viétia Zangrandi imitam o mesmo gestual das atrizes originais. Não há sequer o ?naturalismo? das novelas brasileiras, expressão que definiria uma interpretação mais próxima da realidade, da maneira como as pessoas falam e agem no dia-a-dia.

Claro que, em ficção, nada é real, sequer os fictícios bandidos da fictícia Favela do Torto de Vidas opostas. Mas a distância entre este exemplo e Donas de casa desesperadas é maior do que entre o Brasil e a fictícia cidade de Arvoredo, paraíso terrestre onde encanadores moram em casa de luxo – para padrões nacionais. O mundo suburbano perfeito da série original inexiste por aqui, onde os dramas, misérias e grandezas dos personagens acontecem à vista de todos. A moral é outra. Olavo, de Paraíso tropical, pode ser um canalha, mas ele é um simpático anti-herói ao manter um caso com a prostituta Bebel. Por mulher bonita o brasileiro tudo perdoa, até abandonar a esposa na hora do parto.

A assepsia dos vestidos e das cercas brancas e dos quarteirões equiláteros tornam a série ainda mais alienígena. Faz sentido em inglês, mas é estranhíssima em brasileiro, sensação agravada pela ausência de som direto em todas as cenas. Falta ambientação sonora e contexto cultural a um seriado que não tem nada a dizer às donas de casa daqui. Toda mãe de família brasileira já é, por definição, uma desesperada. Ou então é anormal.