Henrique, o Ike, é um garoto calado, na casa dos 20 e poucos, que divide seu tempo entre duas coisas enfadonhas: o trabalho na loja de conveniência e a faculdade. Da namorada um pouco deprimida, Manu, até que ele gosta. Sua rotina é alterada quando Gabriel, seu melhor amigo, cai em casa, bate a cabeça e entra em coma. Ele pode acordar a qualquer momento e, meio que para passar o tempo, meio que para atualizar o amigo do que está acontecendo ao seu redor, Ike começa a escrever cartas para ele.

Esse é o ponto de partida de Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente, segundo romance da gaúcha Luisa Geisler, de 23 anos, estudante de Relações Internacionais e Ciências Sociais e garota prodígio da literatura brasileira – e o primeiro que ela escreve e publica como a maioria das pessoas. Os outros dois que ela lançou nasceram de um propósito claro: concorrer ao Prêmio Sesc, dedicado a autores estreantes. Àquela altura, Luisa frequentava a Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil.

Na primeira vez, Luisa optou pela categoria contos, e ganhou com Contos de Mentira. No ano seguinte, teve um estalo: como nunca tinha escrito um romance, era estreante no gênero. Tratou logo de preparar um livro para participar novamente. E seu Quiçá ganhou. Nos dois casos, a obra foi publicada pela Record, parceira do prêmio, depois de uma revisão. Não houve, porém, um editor sugerindo mudanças nem espaço para que a autora mexesse na obra, e ela lamenta isso hoje. Foi assim que tudo começou.

“Eu era só uma guria que escrevia para mim mesma. Na oficina, tomei consciência de que existia um leitor e de que essa pessoa também era parte do meu texto, e isso mudou muito o meu jeito de criar. A literatura não se tornou uma coisa ‘estou chateada, vou escrever’, mas sim uma criação consciente”, explica. E completa: “Durante a oficina alguém comentou do prêmio e eu mandei meu livro. Se eu não tivesse ganho, eu não teria procurado uma editora, seguiria com a faculdade e a literatura não teria se tornado a prioridade que ela é hoje”, afirma.

Depois de sua estreia duplamente premiada, outra surpresa. Na seleta lista dos 20 melhores jovens escritores brasileiros, Luisa, então com 21 anos, era a mais jovem.

Com tudo isso, seria natural sentir a pressão do lançamento de agora, mas a escritora está tranquila e conta que entre os dois primeiros livros e este, ela passou a se sentir mais confortável com o ofício. Ter um editor e uma agente literária ajudou muito, ela reconhece. “Ao compartilhar com os outros, ganhei perspectiva. Eu ficava muito nervosa em alguns momentos porque experimentava coisas e não sabia se estava dando certo. Agora, pude testar e ver como as pessoas reagiam. Foi muito mais confortável e menos solitário”, diz. Mas pondera: “Por outro lado, o livro não tem o aval do prêmio, o que me deixa um pouquinho insegura. Mas acho que vai dar certo”.

E como o processo foi mais lento – quase dois anos, o dobro das suas primeiras incursões pela literatura -, ela teve tempo de trabalhar melhor os personagens, estruturar a história e mudar seu rumo quando Dante, que seria só mais um de seus personagens, a conquistou e ela decidiu dar mais espaço para ele. Teve tempo para ler, reler, reescrever. Isso tudo, entre um trabalho e outro das duas faculdades e mais intensamente durante as férias.

Luisa quis escrever um livro narrado em cartas. Por vezes, aparece um narrador em terceira pessoa, mas o que se destaca é a voz de Henrique. Ao longo do livro, essas cartas com relatos cotidianos vão se transformando em um diário, embora seu autor continue endereçando seus escritos a Gabriel. “Tenho a sensação de que ele vai percebendo que o amigo não vai acordar. E por isso ele começa a escrever de um jeito mais confortável no caderno porque sente que ninguém vai ler”, conta a autora.

Enquanto escreve, ele vai acordando para a vida, como se a escrita o despertasse para si mesmo. Ele, que vivia sua monótona rotina em negação, se rebela, xinga, se estranha e vai aprendendo a viver com suas contradições e com os sentimentos e sensações que não conhece. “Henrique não é o tipo de pessoa que fala muito, que discute a vida com os amigos. Ao botar para fora, ele percebe a quantidade de coisas pelas quais está passando. Em algum nível, ele se descobre e percebe que tudo o que está ali é real”, analisa. E o que está ali é, sobretudo, a descoberta do desejo. E nisso, Dante tem um papel especial.

A história se passa em Canoas, cidade natal da escritora, e no trem – ou ao seu redor – que leva e traz os moradores que trabalham e estudam na vizinha Porto Alegre. Aliás, foi sentada no chão desses trens que Luisa começou a escrever – ela garante que é bom.

Em certo momento, o narrador fala que Canoas era, para ele, o que ela era para o Trensurb: só parte do caminho. “O Trensurb vai e volta numa linha reta, que corta Canoas ao meio. Tenho a sensação de que ele retrata muito o Ike”, comenta. “E mais: o Dante acaba sendo essa pessoa que divide Ike no meio. E, às vezes, parece que ele está indo embora e ele está voltando.” O caminho de Henrique já não é mais tão certo, e ele vai vivendo e amadurecendo com os recursos de que dispõe naquele momento.

Luisa Geisler segue para Nova York em setembro para uma residência artística e se forma no fim do ano em Relações Internacionais. Sabe que continuará escrevendo, mas não tem um projeto literário. “Digo para mim que tenho tempo para descobrir, e para as perguntas que não tenho resposta digo que não preciso saber disso agora.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.